
Se você ainda não se convenceu da importância da exploração da experiência direta, deixe-me lhe perguntar isto: onde estariam todos os seus problemas se não houvesse um “eu”?
De cara, já identificamos uma pista bem clara na própria pergunta: de quem são os problemas mesmo? Se os problemas são “seus”, e não há um “eu”, também não há um “seu/seus”. O que acontece se retirarmos o “seus” da pergunta? Ela fica assim:
Onde estariam todos os problemas se não houvesse um “eu”?
Não sei quanto a você, mas quando leio essa pergunta, meu impulso é logo perguntar de quem são os problemas. Nesse contexto, outra palavra para “impulso” pode ser “hábito”. Nós, humanos ocidentais, temos o hábito de tornar o mundo à nossa volta pessoal. Nosso mundo. Nossa volta.
Se desacelerarmos, talvez comecemos a ver que o mundo é um conjunto de estímulos fundamentalmente neutros: experiência pura. Veja: o que exatamente faz com que a luz seja o oposto da escuridão, além da memória e da história mental? Nada. Em essência, são duas experiências completamente diferentes. É o “eu” que transforma o mundo em “mundo”, ou melhor, em meu mundo, cheio de objetos e histórias, tudo reflexo dele próprio.
Por isso o mundo é cheio de opostos. Mas não é o mundo. Como eu disse, o mundo é neutro. É o “eu” que é feito de opostos. Esse “eu”, esse mecanismo, colore os estímulos que ele chama de “mundo” com movimento aparente por meio do jogo de polos opostos: eu sou forte, ela é fraca; eu sou bom, ele é mau. Esse movimento é o próprio “eu”.
Por isso, como qualquer movimento, no fundo, é apenas conteúdo de pensamento, o “eu” nada mais é do que conteúdo de pensamento: uma história, um personagem com uma personalidade, um passado, um futuro, preferências… tudo conteúdo de pensamento…
E qual o efeito desse conteúdo de pensamento no mundo?
Vamos fazer um exercício curtinho para descobrir? Você vai precisar escrever um pouco, no papel ou no computador, tanto faz. É simples: marque no relógio 10 minutinhos e escreva o que estiver fazendo neste exato momento. Por exemplo, no meu caso: “eu estou digitando palavras no computador, eu estou respirando, eu acabei de ouvir o barulho de carros passando lá fora, etc.”
Escreveu?
Agora marque mais 10 minutos e faça a mesma coisa, desta vez apenas descrevendo o acontecimento, sem vestígios de um “eu”. No meu caso: “olhando no celular, sentindo o peso do corpo na cadeira, ouvindo um cachorro latindo, olhando para um envelope na mesa, etc.”
Terminou? Como foi? Sentiu alguma diferença? Talvez um pouco de leveza no pensamento, mas a qualidade da experiência mudou quando o “eu” se ausentou dela? Em outras palavras, você sente alguma diferença na experiência em si quando diz “eu estou ouvindo o som de uma buzina” versus “ouvindo o som de uma buzina”? Claro que não, não é mesmo? A história não tem nada a ver com a experiência.
Nós não nascemos com essa estrutura. É algo aprendido. Veja neste vídeo (https://www.youtube.com/shorts/TI5rggwOC0k) como o garotinho procura a imagem por trás do espelho como se fosse um objeto externo, como se fosse outra pessoa. Ele ainda não aprendeu a chamar aquela imagem de “eu”.
Acho que já disse antes que isso não é um problema. Faz parte do desenvolvimento, especialmente aqui no Ocidente. Esse mecanismo é necessário na navegação cotidiana. É crucial interpretar como diferentes este corpo e aquele evento que vem em minha direção, cujo rótulo é “ônibus”, para que eu saia da frente quando ele passa.
O problema é que, com o passar dos anos, acabamos acreditando que somos esse personagem. E não só isso: como personagem e mundo são a mesma coisa (lembra das polaridades?), inconscientemente acreditamos que somos o mundo também. Ou seja, personalizamos o mundo.
E daí? E daí que essa personalização vem carregada de tensão — a tensão ativada pelos padrões formativos da personalidade.
Vou explicar de outra forma. No budismo institucionalizado, diz-se algo parecido: sofremos porque queremos que as coisas sejam do nosso jeito. A palavra para sofrimento em pali, o idioma que o Buda falava, é dukkha. Para mim, essa palavra foi mal interpretada. Um dos significados originais de dukkha é uma roda com o eixo descentralizado. Imagine uma carroça de boi: uma das rodas foi construída como as outras, com circunferência e raios, mas, nesta roda, os raios não convergem no centro. Ela fica meio mole porque não gira de forma centrada, não é? E acaba proporcionando uma viagem desconfortável.
Logo, o fato de querermos que as coisas sejam do nosso jeito — uma ideia que também podemos entender como apego — torna a nossa viagem desconfortável. Às vezes o desconforto é forte… e eu o chamo de sofrimento. Outras vezes é uma irritação sutil… hmm… não sei bem o que é, mas isso não está certo… essa situação… esse agora… este lugar.
Assim, a resposta, a melhoria, está sempre no próximo momento. Isso cria o movimento, a busca, o autodesenvolvimento — tudo dentro da história do “eu”.
Como resolver isso? A solução não está dentro da história; em “ser eu mesmo”, “ser quem eu realmente sou”, como dizem os pseudo-profetas nas redes sociais. Fazendo isso, sem perceber, estamos tentando nos livrar da problemática alimentando a própria problemática.
Precisamos, sim, perceber que tudo isso é movimento mental. Só isso.
Novamente, não há nada de errado com o movimento. Ele acontece sozinho e chama-se vida. Os altos e baixos. Mas, enquanto acreditarmos que somos esse movimento, enquanto vivermos em dukkha, tentando moldar o mundo ao “nosso” jeito, não percebemos que o mundo já acontece no alinhamento perfeito de sukha—a experiência do jeito que ela é; sem resistência.





