
Semana passada terminei o post com uma pergunta importante: Para que serve a exploração da experiência direta? Se você não leu o outro post, vai ficar meio por fora. Por isso, se quiser dê uma olhadinha no texto da semana passada, eu aguardo…
Pronto? Certo. Então, volto à pergunta. Para que serve essa investigação? A resposta é simples: se tudo na minha (e sua) experiência direta é ver/ouvir/cheirar/provar/tocar/pensar, então tudo na minha (e sua) experiência direta é ver/ouvir/cheirar/provar/tocar/pensar. Isto significa que, se essa afirmação é correta, então tudo, tudo mesmo, inclusive essa pessoa que eu acho que sou—essa pessoa com um nome, um corpo, uma mente, com um passado, um presente, um futuro, com relacionamentos, posses, características, preferências, etc., etc., etc.—essa pessoa também é ver/ouvir/cheirar/provar/tocar/pensar. Em outras palavras, essa pessoa ou é atividade sensorial ou pensamento.
Assim, só o fato de isso ser uma possibilidade já é o bastante para dar sentido à investigação. Afinal, você não quer saber de que é feito o centro das atenções da sua vida? Esse eu de quem você fala tanto?
A resposta acima é a resposta politicamente correta; a resposta para aplacar a sede de atenção da mente. A resposta verdadeira está, é claro, na investigação em si. Você só vai saber da importância da exploração explorando. Essa investigação faz parte da minha oferta profissional: o processo Intimate Mantra. Nessa coluna, eu posso lhe dar um gostinho. É só um gostinho, mas pode lhe trazer uma mudança de perspectiva como nenhuma outra se as atividades forem bem feitas. Vou fazer a modelagem na primeira pessoa, porque só posso falar da minha experiência. Se quiser, faça a sua exploração paralelamente e veja como o seu organismo reage.
Ah, devo dizer também que, no processo Intimate Mantra, esse é um caminho sem volta. Mas não se preocupe. É claro que, a não ser que você seja um fruto bem maduro, prontinho para cair com a menor cutucada, ler esse texto provavelmente não lhe trará uma mudança radical de perspectiva. Mas pode ser que semeie algo que eventualmente venha a se tornar esse fruto maduro. Enfim, continue se quiser.
Começo a minha exploração com uma pergunta: quantas vezes, na minha vida, eu realmente parei para examinar quem ou o que exatamente é essa pessoa, esse eu, que acho que sou? Eu estou intensamente presente na minha vida. Eu permeio todos os acontecimentos. Sou o protagonista de todas as histórias. Mesmo aquelas das quais não faço parte são vistas sob a minha perspectiva. De fato, só aqui neste parágrafo, referências pessoais como eu e meu foram mencionadas inúmeras vezes. Mesmo assim, com toda essa presença, será que já parei para averiguar quem ou o que eu sou? E você? Aposto que não. Não é engraçado como tomamos como certa a nossa existência como pessoa sem nem parar um instante para averiguar se ela realmente existe?
Atenção: aqui não estou falando dos intermináveis diálogos internos, das constantes “analises” de traços de personalidade. Estou falando da existência pura e simples. A existência na experiência direta. Olhe para a sua mão. Olhou? Viu as cores, as sombras, os contrastes? Eles existem? Sim! Simples. Óbvio! Será que o eu existe da mesma forma?
A minha primeira reação quando ouço essas palavras é: mas é claro que eu existo! Certo. Sem sobra de dúvida, há alguma coisa óbvia aqui e agora. Há alguma coisa óbvia o tempo todo. Mas quem disse que essa coisa óbvia é quem eu penso que sou? Hmm. Já fiquei curioso. E você? Tenho uma ideia: vamos procurar o eu, a pessoa que achamos que somos da mesma forma que procuramos nossas mãos na experiência direta no parágrafo anterior? Afinal, falamos tanto dessa pessoa que deve ser super fácil de encontrar, não é mesmo?
Tá. Experiência direta. Se tudo é ver/ouvir/cheirar/provar/tocar/pensar, o eu deve ser uma dessas coisas. Veremos.
Começo pelo sentido da visão. Eu sou uma cor ou um padrão de cores? Bem, aquilo que eu chamo de corpo tem características visuais, não é mesmo? Essas características são basicamente padrões de cores. A silhueta, o formato, os traços, tudo isso é cor. Mas isso é o corpo. Eu sou o corpo? Resposta prática, baseada na experiência direta, sem metafísica, sem frufru: eu não sou esse corpo; eu tenho um corpo. Afinal, é assim que eu me refiro a ele—meu corpo. Se é meu corpo, não sou eu. Logo, parece que esse eu não é uma cor ou padrão de cores. Mesmo assim, passo dias olhando, procurando pelo eu na experiencia visual (recomendo que você faça o mesmo). Vejo cores, sombras, contrastes por todos os lados; isto e, torno-me consciente do sentido da visão. A mente interpreta, dá nome aos bois: mesa, cadeira, TV, cama, cachorro, celular, perna, porta, poeira…mas nada de eu.
Uma semana depois e ainda não encontrei o eu no “ver”. Passo para outro sentido: ouvir. Será que esse eu é um som? Não vou pensar nisso. Nada de análise. Averiguo na experiência direta. Ora, eu sou eu. Não sou um som, não é mesmo? Ouço sons de todos os tipos. Novamente a mente rotula: ventilador, teclado, buzina, música, passos, carro, trovão, vento, vozes. Passo dias “olhando”, isto é, torno-me consciente do sentido da audição. Cadê o eu?
Semana seguinte, sem achar o eu no “ouvir”, passo para cheirar e provar. Me perco em tantos rótulos: café, cebola, torrada, ovo, desodorante, inhaca dos outros, pasta de dente, chuva, bacon, laranja, etc., etc., etc. Nadica de eu.
Passo então para o tocar. Será que o eu está no tocar? A vivência ocorre e a mente dá nome: áspero, liso, quente, frio, pesado, leve…nada de eu. Só sensações. Só sentir.
A coisa está ficando esquisita. Quando falaram para eu olhar para a minha mão, não foi só olhar e pronto? E procurando o eu, olho, olho, olho…e nada.
Okay. Só me resta uma coisa: o pensar. Peraí. Então, se eu não sou nada dessas coisas e tudo na minha experiência direta é ver/ouvir/cheirar/provar/tocar/pensar, eu só posso ser uma coisa: pensamento.
Oi?
Continua…





