
Está rolando pela internet um dizer atribuído ao Alan Watts, o mestre Zen alcoólatra (sim, querid@s, os dois não são incompatíveis). Se o Alan Watts disse isso ou não, não importa. O que importa é que serve como uma luva para a nossa discussão aqui. Em português, fica mais ou menos assim:
“Mas aí está a beleza da coisa: quando você entende a piada, não deixa de representar o seu papel. Apenas deixa de acreditar que você é esse papel.”
O autor está se referindo ao que chamamos de piada cósmica nos meios espirituais. E esse “papel” a que ele se refere é o “eu”.
O dizer afirma: veja o “eu” como ele realmente é… veja o que o “eu” realmente é… e você eventualmente perderá o interesse… em suas histórias, sua indignação, sua importância, sua vitimização, seu isso… seu aquilo… você perderá o interesse, e a atenção será redirecionada — naturalmente, automaticamente — para onde a verdadeira festa está acontecendo… sem a necessidade de fogos de artifício… a paz… a maravilha… o amor… e isso está aqui, agora, aqui mesmo… agora mesmo… na experiência direta…
A piada? Tudo muda mas nada muda. O “eu” não desaparece. Ele continua fazendo o que sempre fez: interagindo com o mundo. Mas agora essa interação vem sem interferência. Sem a interferência da crença errônea autocentrada, que quer toda a energia do sistema para si, em prol da própria sobrevivência. Por isso, muitas das características desse “eu” — características que estavam presentes para alimentar essa crença — caem por completo. Outras não. O ponto aqui é perceber que já não há um investimento em um “eu” controlador: as coisas simplesmente acontecem… ou não. E isto inclui reações, tomada de decisões, escolhas e impulsos. Só não há mais a reivindicação de autoria ou posse sobre o que surge. Por isso um mestre Zen pode ser alcoólatra. A crença se foi. O ser humano continua.
Nisargadatta Maharaj foi um dos grandes mestres espirituais do século passado. Para ele, o despertar espiritual não tinha a ver com perfeição moral ou com uma imagem de santidade, mas sim com a realização da verdadeira natureza do ser humano. Antes de se tornar “iluminado” (acho esse termo péssimo, mas ele se encaixa bem na ideia de perfeição moral, por isso o uso aqui para fazer o contraste), Nisargadatta tinha uma lojinha onde vendia, entre outras coisas, produtos de tabaco. Naturalmente, ele fumava. “Iluminou-se” e continuou fumando. Como não havia a crença em um “eu” para resistir ou achar ruim fumar, o hábito simplesmente continuou. Poderia ter se extinguido. Percebe?
Mas, como eu vivo dizendo, não acredite na minha palavra. Isso não tem a ver com crença…bem, quer dizer, tem tudo a ver com a crença na substancialidade de um “eu”, mas nada a ver com a crença que não questiona o que eu digo. Veja por si mesm@. Faça uma busca sistemática na sua vida e veja se encontra esse “eu” — VOCÊ — quando não está pensando sobre ele. Das duas, uma: ou você acha o “eu” ou entende a piada…





