
Quando se fala em física quântica, muitas pessoas torcem logo o nariz. Soa complicado, difícil de entender. Mas o fato é que, assim como em várias outras áreas do conhecimento humano, a física quântica (e, em especial, esse termo “quântica”) se banalizou, virou moda e passou a designar muitas coisas que pouco ou nada têm a ver com seu sentido original.
Creio que isso se deve, pelo menos em parte, à dificuldade de traduzir certos conceitos, tanto da física quântica quanto da relatividade, para a nossa realidade cotidiana—uma dificuldade vivenciada pelos próprios fulanos que desenvolveram essas teorias. Mas a linguagem da física quântica, a matemática, é assim mesmo: vive em seu próprio mundinho, que nem sempre se traduz de forma direta e óbvia à nossa experiência sensorial.
Mas, para variar, estou saindo pela tangente. Essa discussão fica para outro dia.
O que quero dizer aqui hoje é que alguns elementos da física quântica são, para mim, fascinantes. Fascinantes porque levam a interpretações bastante convincentes da realidade experiencial. E como toda linguagem é, basicamente, uma interpretação da realidade (e não a coisa em si), e como a matemática não é exceção, dou-me aqui essa liberdade de viajar um bocado na maionese.
Voltando ao assunto, um desses elementos fascinantes da física quântica é a equação de onda de Schrödinger, associada ao famoso experimento mental do gato na caixa, uma historinha mais ou menos assim: imagine um gato dentro de uma caixa fechada. Qual é o estado desse gato? Está vivo ou morto? A equação basicamente diz que só saberemos quando abrirmos a caixa. Em outras palavras, ambas as possibilidades (gato vivo ou morto) coexistem até que a gente abra a caixa, veja o gato e concretize uma delas.
Para a maior parte das pessoas, isso não faz muito sentido, já que estamos acostumados a ver o mundo como algo concreto e independente. Nós fomos ensinados a pensar assim: qualquer que seja o estado do gato, ele já existe. Nós é que não sabemos qual é, isto é, se o gato está vivo ou morto. Mas, se pararmos para pensar, essa também é apenas uma interpretação da realidade, assim como a interpretação esquisita acima. O fato incontestável é que o gato está dentro da caixa, e só saberemos se está vivo ou morto quando abrirmos a dita cuja, certo?
Agora é que a viagem na maionese se intensifica. Se continuarmos nessa perspectiva quântica, quando estou, por exemplo, no trabalho, minha casa é apenas um potencial: nem existe, nem não existe. Esse potencial só se concretiza quando se manifesta na forma do que chamo de “experiência”; isto é, quando eu chego em casa. Pode parecer absurdo, mas é claro que minha casa existe! É claro que as pessoas que conheço existem, mesmo sem fazer parte da minha experiência direta! Sorry. O fato incontestável é esse: pode ser que sim, pode ser que não. Só saberei sem sombra de dúvida quando isso se tornar experiência.
É, leitor(a), por mais ridícula que pareça, essa interpretação quântica é exatamente como a sua interpretação materialista. Sem tirar nem por, ambas são interpretações.
Maionesando ainda mais, podemos generalizar intuitivamente a equação de Schrödinger assim: ela representa todas as possibilidades de um determinado momento ainda não manifestado. Algumas possibilidades são mais prováveis do que outras, certo? Afinal, se estou sentado trabalhando em minha casa em Portugal, não é muito provável que meu filho, que mora nos EUA, bata na porta. Claro, não é impossível. Mas é mais provável que, se alguém bater, seja o meu vizinho ou uma amiga que mora na mesma cidade. De qualquer forma, o que importa é que todas são possibilidades e, de acordo com essa leitura, estão “vivas” no aqui e agora.
Okay. Alguém bate na porta. Eu abro. É o zelador do prédio. Essa era mais uma das possibilidades. E essa possibilidade foi a que se concretizou. Em termos quânticos, todas as outras possibilidades “colapsaram” e restou apenas uma, a que se tornou experiência.
Fascinante, não acha? Eu acho fascinante pensar que, enquanto estou na sala do meu apartamento, a cozinha só existe como potencial…
Essa é uma maneira diferente, mas igualmente válida, de ver as coisas. Em vez de um mundo concreto que eu habito, um campo de potencialidades que colapsa continuamente; um campo no qual estou constantemente criando a minha experiência, o meu mundo.
Mas o que isso tem a ver com astrologia?
A-há! Semana que vem saberemos…





