
Olá, gente bicha deste país varonil…
Minha filha, eu tenho uma coisa para lhe dizer: desligue um pouco. Não estou mandando você abandonar o mundo. Muito menos virar uma dessas pessoas que dizem que não querem saber de política, de notícia, de nada, porque “isso faz mal para a cabeça”. A vida continua acontecendo mesmo quando a gente fecha o aplicativo.
Mas eu estou começando a desconfiar que a nossa cabeça não foi feita para receber o mundo inteiro antes mesmo de o café esfriar. É notícia. É vídeo. É opinião. É eleição. É briga. É mentira. É verdade que precisa ser conferida. É gente tentando convencer você de alguma coisa às sete da manhã, enquanto você ainda está procurando o açúcar.
Outro dia ouvi uma frase que ficou na minha cabeça: “O luxo agora é ser humano novamente.” Olha que coisa, minha filha. Chegamos a um tempo em que parece luxo dormir direito, comer com calma, conversar sem olhar para o celular, encontrar amigos, caminhar, ouvir música, ter sua própria opinião.
Ser gente virou uma espécie de artigo de luxo. Talvez porque passamos décadas acelerando. A tecnologia prometeu facilitar a vida e, em muitas coisas, facilitou mesmo. Mas também colocou o mundo inteiro dentro do bolso.
Só que ninguém acompanha tudo. A pessoa apenas fica cansada tentando. Eu vejo isso nas conversas que chegam à minha mesa. Gente preocupada, irritada e sem paciência.
E quando tudo disputa a nossa atenção, eu fico pensando: Quem está cuidando da nossa atenção?

Minha filha, desligue um pouco. Tem gente que não consegue largar o celular porque está esperando a próxima notícia. Tem gente que não consegue largar porque está esperando a próxima aposta. Tem gente que não consegue largar porque precisa da próxima curtida, da próxima mensagem. E tem gente que simplesmente já não sabe mais ficar cinco minutos consigo mesma.
As apostas são um exemplo duro disso. O jogo pode deixar de ser diversão e se transformar em um problema que atinge dinheiro, relações, trabalho e saúde emocional. O Ministério da Saúde reconhece o transtorno do jogo (ludopatia) como uma questão de saúde e aponta relações com ansiedade, depressão, culpa e isolamento.
Mas não estou falando apenas das bets. Estou falando da dificuldade de parar. Parar de assistir. Parar de responder. Parar de discutir. Parar de exigir de si mesma uma força que talvez ninguém consiga sustentar por tanto tempo.
Há uma grande diferença entre conseguir continuar e estar conseguindo viver. E eu tenho aprendido isso também.
Durante muito tempo, eu vinha confundido “dar conta das coisas” com “estar bem”. A gente aprende a trabalhar, resolver, cuidar, sobreviver, improvisar. Aprende a vestir as roupas necessárias para cada situação. Aprende a ser forte.
Só que chega uma hora em que a gente precisa aprender outra coisa: como cuidar da pessoa que existe por baixo de tudo isso.
Eu não tiraria da minha história as dificuldades que vivi. Elas também me formaram. Algumas dores me ensinaram coisas que eu talvez não tivesse aprendido de outro jeito. Experiências difíceis me transformaram e ajudaram a construir essa pessoa que hoje consigo reconhecer e, muitas vezes, gostar.
Saiba reconhecer aquilo que nos formou, mas cuidado para não continuar morando naquilo que nos feriu. Penso que é por isso que eu aprendi a respeitar tanto a terapia, a conversa sincera e o trabalho de olhar para dentro.
Não porque alguém vai nos entregar uma vida sem problemas. Mas porque compreender o que sentimos pode nos ajudar a escolher melhor o que fazemos com aquilo que sentimos.

Tem coisa que a gente só consegue parar de brigar quando finalmente entende de onde veio a briga. E isso também é cuidado.
Cuidar de si não significa virar uma ilha. Pelo contrário. Acho que uma das coisas que mais protegem a nossa humanidade são as pessoas que nos lembram de que não precisamos enfrentar tudo sozinhos.
Família. Amigos. Colegas. Vizinhos. Aquela pessoa que manda uma mensagem porque percebeu que você sumiu. Aquela que chama para um café. Aquela que pergunta “você está bem?” e espera a resposta. Aquela que conhece nossas versões mais bonitas e também aquelas que gostaríamos de esconder.
A gente precisa dessas pequenas redes de humanidade. Porque, no fim das contas, ninguém se cuida completamente sozinho. É aí que está uma das grandes contradições do nosso tempo: estamos mais conectados do que nunca e, ao mesmo tempo, muita gente está se sentindo profundamente sozinha.

Por isso, em tempos caóticos como esses, eu tenho pensado que a melhor revolução que estou vivendo é uma coisa aparentemente pequena: estou aprendendo a cuidar de mim.
Não amanhã. Não quando tudo estiver resolvido. Não quando o trabalho diminuir. Não quando o país melhorar. Não quando a vida finalmente ficar organizada. Agora. Com o mundo do jeito que está.
Porque o mundo continuará barulhento amanhã. As notícias continuarão chegando. As pessoas continuarão brigando. Haverá trabalho, boleto, medo, desejo, notícia ruim, notícia boa, cobrança e surpresa.
Eu não tenho como desligar o mundo. Mas talvez eu possa, de vez em quando, desligar um pouco a obrigação de acompanhar tudo. Não para deixar a vida de lado. Para conseguir voltar para ela inteira.
Então, minha filha, quando perceber que já recebeu mais mundo do que sua cabeça consegue carregar, faça uma coisa por mim. Coloque o celular de lado. Passe um café. Converse com alguém que você ama. Respire. E lembre-se de que você não precisa estar disponível para tudo o tempo inteiro.
Pois me parece que cuidar de si própria, não seja fugir da vida. Mas sim, uma sincera maneira de continuar disponível para ela.
Minha filha, desligue um pouco. O mundo pode esperar alguns minutos. Você não.
Madame Jorgina, ainda aprendendo a cuidar da própria cabeça.
#FicaLokaMasNãoFicaBurra





