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Minha velhice, minhas regras




Olá, pessoas jorgianas deste país varonil…
Minha filha, outro dia me peguei pensando na velhice. Não foi por causa de uma dor no joelho ou de alguma promoção de fraldas geriátricas que apareceu no meu celular. Foi por causa de Clarice Lispector (sempre ela nos orientando).

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Clarice tem dessas coisas. A gente começa a ler uma crônica e, quando percebe, está olhando para dentro de casa, para a vida dos outros e para aquele futuro que costuma ficar guardado numa gaveta chamada “depois eu penso nisso”.

Em seu conto “O Eterno Amamentado” (1968), ela imagina que deveria haver diferentes tipos de abrigos para a velhice. Afinal, quem está cheio de vitalidade não consegue adivinhar que espécie de idoso será. Nem sabe exatamente de que tipo de cuidado precisará.

Achei a observação muito interessante. A gente passa uma vida inteira tentando descobrir quem é, muda de opinião, muda de profissão, muda de amor, muda até o jeito de tomar café. E ainda acredita que conseguirá prever, com alguma precisão, a pessoa que será daqui a vinte ou trinta anos.

Minha filha, eu mal consigo prever o que vou querer jantar amanhã! Mas Clarice me colocou a pensar: se não sabemos exatamente como seremos quando envelhecermos, devemos começar a conversar sobre as possibilidades, enquanto ainda temos tempo e liberdade para escolher.

A velhice não vem com manual de instruções

Tem gente que sonha em morar perto dos filhos. Tem gente que prefere continuar na própria casa, cercada de seus livros, plantas, lembranças e pequenas manias. Há quem goste de uma rotina movimentada, com visitas, passeios e gente entrando e saindo. Outros precisam de silêncio, espaço e uma boa dose de sossego.

Também existem pessoas que precisarão de cuidados mais intensos. E isso merece ser pensado sob o olhar da dignidade, do planejamento e do respeito. Tudo isso sem tratar a necessidade de ajuda como uma derrota pessoal.

Não existe um modelo único de velhice. E um dos nossos maiores equívocos seja imaginar que todas as pessoas deveriam envelhecer da mesma maneira.

A própria Clarice nos faz perceber que podemos chegar a essa fase da vida carregando desejos que nem sequer conhecemos direito. Aquela pessoa que hoje não abre mão da independência pode descobrir que gostaria de ter companhia por perto. Outra, que sempre viveu rodeada de gente, pode desejar mais privacidade.

A vida não assina contrato de permanência com nenhuma das nossas versões.

Penso que planejar a velhice significa abrir possibilidades, conversar sobre necessidades e não deixar todas as decisões para o momento em que escolher se torna mais difícil.

E se me permitem uma pequena intromissão: com quem você gostaria de compartilhar a vida quando envelhecer?

Não estou perguntando quem vai pagar suas contas ou quem ficará responsável por levar você ao médico. Essas também são questões importantes, claro. Estou perguntando quem você gostaria de encontrar na mesa do café, quem saberia reconhecer seu silêncio, quem respeitaria suas manias e com quem você ainda teria vontade de rir de uma bobagem.

Minha filha, uma coisa é ter assistência e outra é sentir que a vida continua acontecendo ao nosso redor.

E o cidadão LGBT+, como ficam nessa história?

Aqui eu preciso fazer uma pequena pausa. Porque, quando falamos sobre envelhecimento, nem todo mundo chega a essa etapa com as mesmas possibilidades de apoio.

Muitas pessoas LGBT+ envelhecem com saúde, autonomia, companheiros, amigos e relações familiares amorosas. Outras enfrentam afastamentos familiares, discriminação, solidão ou a insegurança de não saber quem estará disponível quando precisarem de ajuda.

Para algumas pessoas da nossa comunidade, a família escolhida, aquela formada por amigos, companheiros e pessoas que decidiram permanecer por perto, já é uma parte fundamental da vida.

São as pessoas que acolheram um amor que a família de origem não compreendeu. Que apareceram quando a saúde falhou. Que ouviram histórias, acompanharam separações, celebraram conquistas e ajudaram a reconstruir a vida quando tudo parecia desabar.

Não estou dizendo que toda bicha foi abandonada pela família, nem que amizade substitui automaticamente os vínculos familiares. Cada história tem suas delicadezas, suas dores e suas exceções. Mas seria ingenuidade imaginar que envelhecer é apenas uma questão de idade.

Será que não chegou a hora de levar essas conversas mais a sério? Em vez de esperar que as necessidades apareçam, poderíamos começar a pensar em outras formas de morar, conviver e cuidar. Formas que não dependam exclusivamente da presença de parentes, da boa vontade de um amigo ou da disponibilidade de uma instituição.

E foi aí que me ocorreu uma epifania. E, quando uma ideia me ocorre enquanto tomo café, existem duas possibilidades: ou ela é uma bobagem passageira ou merece uma segunda xícara:

E se criássemos casas de cuidados para pessoas idosas que são bichas de alma?

Calma! Antes que alguém comece a perguntar se precisa apresentar carteira de LGBT+, comprovante de militância ou fotografia de alguma parada do orgulho, deixe-me explicar.

Não estou propondo um condomínio onde só entra quem ama como eu, pensa como eu ou acha graça das mesmas piadas. Deus me livre! Já imaginou passar a velhice inteira convivendo com cópias da gente? Em pouco tempo, não haveria uma única pessoa para nos contrariar. E quem é que nos avisaria quando estivéssemos falando bobagem?

Quando falo em bicha de alma, estou falando de uma disposição para viver. É aquela pessoa que procura respeitar as diferenças, que não transforma suas certezas em leis para os outros e que ainda consegue ter curiosidade por aquilo que não conhece.

Uma pessoa que entende que conviver não significa concordar com tudo, mas aprender a respeitar a existência do outro sem precisar diminui-la. Isso tem nome: sociedade saudável.

Estou imaginando uma comunidade com pequenas casas ou apartamentos, cada um com sua porta, sua intimidade e suas manias. Um lugar planejado para as necessidades que podem acompanhar o envelhecimento, com acessibilidade, espaços seguros e acesso aos serviços de saúde e assistência de que seus moradores precisarem.

E o que seria necessário para morar nessa casa? Além das condições práticas para manter a comunidade funcionando, eu gostaria de propor alguns compromissos.

Seria preciso respeitar sem exigir concordância. Saber escutar sem transformar toda conversa numa oportunidade de dar lição. Compreender que o vizinho tem direito a uma história diferente, a uma opinião diferente e até a um gosto musical duvidoso.

Seria importante participar da vida coletiva dentro das próprias possibilidades, respeitar os limites dos outros e aprender a resolver conflitos sem transformar cada divergência numa guerra.

Ninguém precisaria ser extrovertido, estar sempre disponível ou gostar de todas as pessoas. Haveria espaço para quem prefere ler sozinho, cuidar das plantas em silêncio ou tomar café sem precisar contar a história inteira da família.

Também não exigiríamos que todos tivessem a mesma condição de saúde ou pudessem oferecer a mesma quantidade de ajuda. Envelhecer é justamente reconhecer que nossas necessidades mudam. Em certos momentos, contribuímos mais; em outros, precisamos receber mais.

O importante seria construir uma comunidade que não confundisse autonomia com abandono, nem cuidado com controle. Um olhar que me parece ideal para pensarmos enquanto atravessamos esse tempo de eleições, onde a polaridade empata qualquer chance de coexistirmos.

E, pelo amor de todas as madames, não estou dizendo que basta juntar um grupo de amigos, comprar um terreno e esperar que tudo dê certo. Uma iniciativa dessas exigiria planejamento financeiro, regras de convivência, responsabilidades bem definidas, acessibilidade e uma estrutura adequada para as necessidades dos moradores.

Sonhar é uma delícia. Mas até os sonhos mais bonitos precisam de orçamento, minha filha! Ainda assim, a ideia me encanta. Não apenas pela possibilidade de morar perto dos amigos, mas pelo que ela representa: a oportunidade de participar da construção da vida que desejamos viver.

E se envelhecer não fosse apenas esperar que alguém cuide de nós, mas também construir, junto de outras pessoas, uma vida em que ninguém precise enfrentar tudo sozinho?

Não estou falando de transformar amigos em cuidadores obrigatórios, nem que o afeto resolve qualquer dificuldade. Há necessidades que exigem profissionais preparados, recursos financeiros e serviços especializados. Uma comunidade pode criar vínculos, organizar formas de apoio e fazer com que pedir ajuda, não seja uma experiência de abandono ou vergonha.

Pode significar ter alguém por perto para perceber que você não apareceu no café naquela manhã. Alguém que acompanhe uma consulta quando você desejar companhia. Alguém que saiba respeitar quando você preferir ficar sozinho. E pode significar oferecer aquilo que temos de melhor. Uma história, uma receita, uma música, uma habilidade, uma lembrança, uma conversa.

A velhice não nos transforma automaticamente em pessoas que só precisam receber. A vida não termina quando diminuem algumas capacidades. Ela também se reorganiza, encontra outros ritmos e descobre novas maneiras de acontecer.

Não sei se a Casa das Bichas de Alma vai existir. Mas talvez a gente não precise esperar pela construção de um empreendimento para começar a pensar nessa possibilidade.

Podemos conversar com nossos amigos sobre o futuro. Descobrir o que cada um deseja, quais são seus receios e que tipo de apoio considera importante. Aprender mais sobre modelos de moradia compartilhada (co-living), conhecer iniciativas que já existem e discutir o que seria necessário para transformar uma ideia dessas em algo viável.

Podemos começar a construir relações que não dependam apenas de encontros ocasionais, mas de presença, respeito e compromisso. E isso vale para qualquer idade. A comunidade que desejaremos ter aos oitenta anos começa, de alguma maneira, nas relações que cultivamos aos cinquenta, aos sessenta ou aos setenta.

Quanto a mim, confesso que a ideia me dá vontade de continuar pensando. Já estou imaginando a cozinha comunitária, a biblioteca, as tardes de música e as discussões sobre quem deixou a louça na pia. Porque não se iludam: nem numa comunidade de bichas de alma a humanidade perde suas manias.

Ai está justamente o encanto: precisamos imaginar um lugar onde as pessoas possam continuar sendo humanas, sem que suas diferenças se transformem em motivos para exclusão – isso vale para um projeto de país também.

E, se um dia essa casa existir, quero que tenha uma mesa grande, café passado na hora e espaço para quem chegar com uma história, uma dúvida ou simplesmente vontade de companhia.

Não será uma casa exclusiva para LGBT+. Será uma casa para pessoas que compreendam que envelhecer com dignidade também significa poder escolher como, onde e com quem desejam viver.

Uma casa onde a bicha de alma não seja uma exigência de identidade, mas um convite à convivência. Porque a pergunta mais importante não seja apenas onde vamos morar quando envelhecermos. Seja que tipo de relações estamos construindo hoje, para que o futuro não nos encontre sozinhos quando mais precisarmos uns dos outros.

E isso, minhas queridas, não precisa esperar pela aposentadoria. Pode começar com uma conversa. Um convite para o café. Uma pergunta sincera sobre o futuro. A disposição de ouvir uma resposta diferente da nossa.

Bom e consciente segundo turno para todos nós.

Madame Jorgina, sonhando com uma velhice de portas abertas e limites respeitados.
#FicaLokaMasNãoFicaBurra

Madame Jorgina

Madame Jorgina é cronista das pessoas, dos afetos e das pistas de dança. Ex-top drag, cartomante aposentada e leitora de borra de café, escreve sobre comportamento, música e as pequenas filosofias do cotidiano. Madame Jorgina acredita que toda pessoa pode ser uma bicha esclarecida. O resto é só conversa de quem ainda não tomou um bom café. Nota: Madame Jorgina é um alter ego de Mauro Galasso, que é de verdade, mas não cabia numa persona só.




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