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As armaduras que ninguém vê




Há quem vista sua armadura de “ser superior”, tentando diminuir os outros.

Olá, pessoas jorgianas deste país varonil…

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Minha filha, hoje eu quero lhe fazer um convite, que não precisa aceitar imediatamente. Também não precisa consultar o tarô, jogar búzios, interpretar a borra do café: Quero apenas que você olhe para as suas armaduras.

Não estou falando de armadura de carnaval, figurino de escola de samba ou roupa de uma drag que resolveu aparecer na avenida vestida de imperatriz intergaláctica. Essas, pelo menos, a gente vê.

Estou falando das outras. As invisíveis. Aquelas que usamos para não parecermos frágeis, inadequadas, inseguras ou expostas demais diante dos outros.

Tem gente que veste a armadura da competência. Sabe tudo, resolve tudo, responde tudo. Se alguém pergunta se está tudo bem, responde que está ótimo. Se pergunta se precisa de ajuda, responde que não. Transmite uma segurança tão impressionante, que até a própria criatura fica com vergonha de confessar, que está completamente perdida.

Conheço gente assim. Aliás, conheço gente assim há tanto tempo que, em alguns dias, desconfio que essa pessoa mora aqui em casa (eu). Mas vamos por partes.

Na minha mesa de café, entre uma leitura de tarô e outra, e também quando me aventuro a interpretar os desenhos que a borra deixa no fundo da xícara, aparecem pessoas que carregam suas pequenas coleções de defesas.

Tem aquela que não consegue aproveitar uma fase boa da vida porque está ocupada esperando a próxima tragédia. O amor está funcionando, o trabalho vai bem, a família está em paz. A criatura olha para tudo aquilo e pensa: Está bom demais. Alguma coisa vai acontecer. Minha filha, quando a felicidade chega, ela já começa a fazer o inventário dos possíveis prejuízos. É como pedir um café e passar os próximos vinte minutos preocupada com a possibilidade de a xícara cair. A pessoa nem tomou o café e já está sofrendo pela louça.

Na minha mesa de café, aparecem pessoas que carregam suas pequenas coleções de defesas.

Também conheço aquelas que precisam parecer competentes o tempo inteiro. Para elas, admitir uma dificuldade parece equivalente a entregar o diploma, a chave de casa e a dignidade numa mesma sacola. Minha filha, ninguém sabe tudo.

Temos também as engraçadinhas profissionais. Aconteça o que acontecer, elas fazem uma piada. Alguém toca num assunto delicado, elas mudam o clima da conversa antes que o assunto chegue perto demais. Não dispenso uma oportunidade de fazer graça, mas até o humor pode virar esconderijo.

E há quem prefira vestir a indiferença. Não liga. Não sente ciúme. Não sente saudade. Não cria expectativas. Uma criatura tão indiferente que, se o próprio coração tocar a campainha, provavelmente vai fingir que não tem ninguém em casa. Existe uma diferença enorme entre não se importar e ter medo de se importar.

E, já que estamos falando de medo, não podemos esquecer as pessoas que precisam controlar tudo. Controlam a agenda, a conversa, os planos, o horário da mensagem e até a maneira como o outro deveria demonstrar amor. A criatura não quer apenas amar, quer garantias.

Minha filha, eu compreendo. Amar envolve riscos. Confiar exige coragem. Controlar cada movimento de alguém não transforma incerteza em segurança. Às vezes, só transforma o amor numa repartição pública, com protocolo, carimbo e prazo para análise.

E não pense que essas são as únicas armaduras. Há o cinismo de quem desqualifica tudo antes que alguma coisa consiga emocioná-lo. Há a necessidade de vencer todas as discussões, como se admitir um erro fosse perder uma guerra. Há a desconfiança permanente, que transforma qualquer gesto de carinho numa possível tentativa de obter alguma vantagem.

Há quem prefira não tentar para não fracassar. Quem não se aproxime para não ser rejeitado. Quem não demonstre alegria para não parecer ingênuo. Quem não peça ajuda para não correr o risco de ouvir um não.

Pelo amor de todas as madames, não é isso! Vulnerabilidade não é ausência de limites.

Como toda boa produção, algumas dessas armaduras são muito bem-acabadas e por isso podem até receber elogios. Chamam a pessoa controladora de organizada. A pessoa que nunca descansa de dedicada. A que nunca pede ajuda de independente. A que não demonstra sentimentos de forte. A que desconfia de todo mundo de esperta.

Então vamos construindo nossas defesas. O problema é que uma armadura não escolhe muito bem aquilo de que nos protege:

  • Pode nos ajudar a enfrentar uma ameaça, mas também pode impedir um abraço;
  • Pode evitar uma conversa difícil, mas também afastar uma conversa necessária;
  • Pode nos proteger de uma decepção, mas também nos impedir de experimentar uma alegria que não oferece garantia nenhuma.

Brené Brown, em seu importante livro A coragem de ser imperfeito, nos convida a olhar para esses mecanismos que usamos para evitar a exposição emocional. Uma das ideias que mais me interessam nessa conversa é perceber que, quando tentamos eliminar toda possibilidade de sofrimento, corremos o risco de diminuir também nossa capacidade de viver a alegria, a intimidade e a conexão com outras pessoas.

Não é uma questão de sair por aí contando todos os nossos segredos para a primeira pessoa que aparecer. Pelo amor de todas as madames, não é isso! Vulnerabilidade não é ausência de limites. Não é abrir a porta de casa para qualquer criatura que toque a campainha. Não é entregar suas feridas nas mãos de quem ainda não demonstrou cuidado suficiente para recebê-las.

Baixar a guarda também exige discernimento. Existem pessoas com quem podemos conversar e relações que merecem confiança. Existem momentos em que precisamos nos preservar, dizer não, manter distância e proteger aquilo que ainda está cicatrizando.

Porque, minha filha, seria muito fácil falar das armaduras dos outros. O problema é que eu também tenho as minhas.

Será que estamos escolhendo nossas defesas ou as armaduras estão escolhendo por nós?

Quando eu me preparava para fazer essa pergunta a uma das minhas consulentes que tive uma pequena inconveniência. A pergunta voltou para mim.

Porque, minha filha, seria muito fácil falar das armaduras dos outros. Eu poderia passar a tarde inteira observando o comportamento alheio, distribuindo diagnósticos de borra de café e fazendo comentários espirituosos sobre as contradições humanas.

O problema é que eu também tenho as minhas. Já fiz piada, quando deveria ter dito que me machuquei. Já fingi estar bem, quando precisava de companhia. Já tentei parecer mais segura do que realmente estava. Em algumas ocasiões, talvez tenha chamado de independência, minha dificuldade de pedir ajuda.

Não vou revelar tudo. Uma Madame também tem direito a seus mistérios. Mas comecei a desconfiar de uma coisa: às vezes, a gente passa tanto tempo tentando demonstrar que nada consegue nos atingir, que acaba se esquecendo de perguntar se ainda existe alguma coisa capaz de nos alcançar. E eu não quero chegar a esse ponto.

No fundo, minha filha, acho que estamos falando de uma coisa muito simples e muito difícil: aprender a viver sem precisar provar o tempo inteiro que somos invulneráveis.

Penso que a pessoa mais forte da sala, não seja aquela que nunca demonstra fraqueza. E sim, aquela que consegue reconhecer seus limites, sem transformar isso numa sentença sobre o próprio valor. Aquela que sabe se proteger, mas também sabe quando pode se aproximar.

Se vocês me permitem mais uma observação, de quem já leu muita carta, muita borra e muito silêncio, eu diria o seguinte: a vida sempre encontra maneiras de nos tocar. Às vezes com delicadeza. Às vezes com a sutileza de um salto agulha pisando no nosso dedinho.

Lembre-se: um tijolinho de cada vez. Se você ainda precisar da sua armadura, tudo bem. Só não se esqueça de que ela não é a pessoa inteira que existe por baixo dela.

Então, da próxima vez que você perceber que está vestindo sua armadura, examine primeiro para que ela serve. Pergunte se ainda protege alguma coisa importante ou se já está impedindo você de chegar perto daquilo que deseja.

Talvez seja possível abrir uma pequena fresta: Uma conversa sincera ou um pedido de ajuda. Um abraço aceito sem desculpas ou quem sabe, um “não sei” dito sem vergonha. Uma alegria desfrutada, sem imaginar que esse cenário terá um final horroroso.

Lembre-se: um tijolinho de cada vez. Se você ainda precisar da sua armadura, tudo bem. Só não se esqueça de que ela não é a pessoa inteira que existe por baixo dela.

Quanto a mim, vou continuar por aqui. O café sendo servido, o tarô à espera, a borra acumulando seus desenhos misteriosos e esta Madame tentando entender as criaturas que passam pela minha mesa. Inclusive a criatura que aparece no espelho (euzinha).

Porque, no fim das contas, ser uma pessoa jorgiana pode ser: reconhecer que temos nossas defesas, nossas contradições e nossos medos, mas continuar curiosas o bastante para descobrir o que existe além deles.

Fica lôka, minha filha. Mas não precisa fingir que nada lhe toca.

Madame Jorgina, aprendendo a baixar a guarda sem perder a elegância.

#FicaLokaMasNãoFicaBurra

Madame Jorgina

Madame Jorgina é cronista das pessoas, dos afetos e das pistas de dança. Ex-top drag, cartomante aposentada e leitora de borra de café, escreve sobre comportamento, música e as pequenas filosofias do cotidiano. Madame Jorgina acredita que toda pessoa pode ser uma bicha esclarecida. O resto é só conversa de quem ainda não tomou um bom café. Nota: Madame Jorgina é um alter ego de Mauro Galasso, que é de verdade, mas não cabia numa persona só.




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