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Esperança também se aprende



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Olá, pessoas jorgianas deste país varonil!

Madame Jorgina voltou. E desta vez, não trouxe cartas de tarô nem borra de café para tentar adivinhar o futuro. Trouxe apenas uma pergunta que anda me acompanhando desde os últimos dias: Como a gente faz para continuar acreditando depois de tanto desgaste?

Minha filha, que período foi esse! Tanta disputa, tanto discurso agressivo, tanta mentira repetida até parecer verdade. E quando a gente pensava que já tinha visto de tudo, aparecia mais uma declaração, mais uma ameaça, mais uma tentativa de transformar a convivência em guerra. Confesso que fiquei cansada até de sentir.

Não sei se você também ficou com essa impressão, mas há horas em que a gente parece precisar de um banho demorado, uma xícara de café e uns bons minutos de silêncio para recuperar o juízo. Não porque queira esquecer o que aconteceu. Mas porque ninguém consegue viver permanentemente em estado de indignação.

E olha minha filha, que indignação às vezes é necessária. Ela nos ajuda a perceber quando alguma coisa ultrapassa os limites do aceitável. Quando a violência se apresenta como solução. Quando a mentira tenta ocupar o lugar da verdade. O problema é quando a indignação passa a ser a única coisa que nos resta.

Porque, se a gente não tomar cuidado, acaba dedicando tanta energia ao que deseja combater que já não encontra disposição para construir aquilo em que acredita.

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Esperança não é ficar esperando

Minha filha, eu sempre achei que esperança fosse uma espécie de desejo bem-intencionado. A gente deseja que as coisas melhorem, que as pessoas se entendam, que o mundo fique um pouco menos complicado. E fica esperando.

Mas lendo sobre o assunto, encontrei uma ideia que me fez olhar para essa palavra de outro jeito: A esperança não é apenas desejar que alguma coisa aconteça. Ela é formada por metas, caminhos e ações.

  • Metas: sei onde quero chegar.
  • Caminhos: procuro maneiras de chegar lá. Se alguma coisa não funciona, tento novamente. Posso sentir frustração, posso me cansar, posso até mudar de direção.
  • Ações: acredito que posso fazer alguma coisa. Nem tudo, nem sozinha, nem de uma vez. Mas alguma coisa.

Porque, minha filha, é fácil acreditar quando tudo está dando certo. Difícil é continuar acreditando quando o caminho se torna incerto. Quando a gente encontra resistência. Quando percebe que não tem todas as respostas e que talvez precise começar de novo.

A gente aprende esperança quando descobre que pode tentar novamente, quando encontra pessoas que nos ajudam a enxergar possibilidades ou quando percebe que um erro não precisa ser o fim de uma história.

A coragem de entrar na arena

Outro dia, encontrei uma reflexão do escritor e político americano Theodore Roosevelt que me fez pensar bastante. Ele dizia, em um discurso de 1910, que o crédito não pertence àquele que fica apontando os erros de quem tenta. O crédito pertence a quem está na arena. A quem se envolve, enfrenta dificuldades, erra, se decepciona e, mesmo assim, continua tentando realizar alguma coisa digna.

Convenhamos, criticar é uma atividade que pode ser feita de pijama, com uma xícara de café na mão e o celular apoiado no travesseiro. Participar já é outra história, pois exige que a gente se comprometa. Que coloque nossas ideias em contato com a realidade. Que aceite que nem sempre teremos razão. Que podemos sim ter sido enganados por discursos envolventes, mas mentirosos. Que talvez precisemos rever nossas escolhas e aprender com pessoas que pensam algo que eu ainda não me toquei que existia.

E não estou falando apenas de política, minhas filhas. Estou falando da vida. Da amizade que precisa de cuidado. Do trabalho que exige coragem para propor algo novo. Da família que precisa aprender a conversar. Da comunidade que depende de pessoas dispostas a fazer a sua parte.

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Brené Brown, em suas reflexões sobre vulnerabilidade e coragem, nos lembra que viver com ousadia não é ter garantia de vitória. É compreender que a vida envolve tanto a possibilidade de vencer quanto a de perder.

Vulnerabilidade não é conhecer apenas a vitória ou apenas a derrota. É se envolver por inteiro, sabendo que ambas fazem parte da experiência. E isso, minha filha, dá um trabalhão.

Porque entrar na arena significa aceitar que nossas mãos também podem ficar sujas de poeira. Que podemos tropeçar. Que podemos não conseguir aquilo que desejávamos. Mas significa também, que estamos vivendo alguma coisa que merece nosso envolvimento.

Há uma diferença entre ter cuidado e ficar paralisada.

Há uma frase do poeta espanhol Antonio Machado que diz: “Caminante, no hay camino. Se hace camino al andar.”

O caminho se faz caminhando. Gosto dessa ideia porque ela não exige que a gente tenha todas as respostas antes de começar. Queremos saber se vai dar certo, se as pessoas vão concordar, se teremos recursos suficientes, se não vamos nos arrepender. Minha filha, se a vida exigisse certeza absoluta para cada passo, ninguém sairia de casa.

Não estou aqui defendendo que a gente saia por aí fazendo bobagem em nome da esperança. Mas há uma diferença entre ter cuidado e ficar paralisada. Há momentos em que precisamos começar com o que temos, com o conhecimento que conseguimos reunir, com as pessoas que estão dispostas a caminhar conosco. E se descobrirmos que o caminho não era exatamente aquele, podemos ajustar a rota.

A esperança mora na possibilidade de mudar de direção sem abandonar aquilo que consideramos importante.

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A palavra que nos aproxima

Enquanto pensava em tudo isso, lembrei-me de uma frase de Clarice Lispector: “O contato com o outro ser através da palavra escrita é uma glória.” Que coisa bonita, não é? A palavra escrita. A palavra falada. A conversa que começa sem grandes pretensões e, de repente, nos ajuda a compreender alguma coisa que estava escondida dentro de nós.

Talvez seja por isso que eu goste tanto de escrever esta coluna. Não porque tenha respostas para oferecer às pessoas jorgianas. Mas porque, quando escrevo, também tento compreender o que sinto, o que penso e o que ainda não sei.

De vez em quando, recebo uma mensagem de alguém que leu, se identificou, discordou, lembrou de uma história ou resolveu compartilhar uma experiência. Aí percebo que a palavra não ficou apenas no papel, pois ela encontrou alguém. Num mundo em que tanta gente parece estar gritando para ser ouvida, talvez seja uma delicadeza e tanto conseguir conversar.

A esperança também se aprende assim. Na conversa. Na escuta. Na disposição de conhecer outras histórias. Na coragem de reconhecer que o outro pode nos ensinar alguma coisa.

Minha filha, ainda há coisas bonitas para fazer

Eu não sei como será o futuro. Não sei se as coisas vão melhorar no ritmo que desejamos. Não sei quantas vezes ainda precisaremos nos indignar, rever nossas escolhas ou começar de novo.

Mas sei que não quero viver apenas reagindo ao que me desagrada. Quero encontrar motivos para escrever, para aprender, para estar com meus amigos. Para ouvir música, para cuidar das pessoas que amo e conhecer gente nova.

E quero continuar acreditando que a vida pode ser construída de uma maneira mais digna, mais justa e mais generosa. Não por ingenuidade ou que eu tenha esquecido o que aconteceu. Mas porque não quero entregar ao medo e ao ressentimento a responsabilidade de decidir como vou viver.

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Minha filha, a gente não precisa esquecer o que aconteceu para continuar acreditando que ainda pode fazer alguma coisa bonita com a vida.

A esperança é a coragem de reconhecer que ainda temos caminhos para percorrer, pessoas para encontrar e coisas importantes pelas quais vale a pena nos envolver.

E, se o caminho ainda não estiver pronto, a gente vai fazendo. Um passo de cada vez. Com os pés no chão, os olhos abertos e o coração suficientemente disponível para não desistir de tudo aquilo que ainda pode florescer.

Porque, minha filha, esperança também se aprende. E algumas lições a gente só aprende vivendo.

Madame Jorgina, aprendendo a esperançar sem tirar os pés do chão.

#FicaLokaMasNãoFicaBurra

Madame Jorgina

Madame Jorgina é cronista das pessoas, dos afetos e das pistas de dança. Ex-top drag, cartomante aposentada e leitora de borra de café, escreve sobre comportamento, música e as pequenas filosofias do cotidiano. Madame Jorgina acredita que toda pessoa pode ser uma bicha esclarecida. O resto é só conversa de quem ainda não tomou um bom café. Nota: Madame Jorgina é um alter ego de Mauro Galasso, que é de verdade, mas não cabia numa persona só.




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