
Olá, gente bicha deste país varonil…
Minha filha, hoje eu estou com uma pergunta na cabeça que não me deixa tomar café em paz. E olha que pergunta inconveniente: Quem tem o direito de punir?
Eu estava lendo uma moça chamada Clarice. Não sei se vocês conhecem. Uma mocinha de pouco mais de vinte anos que, em 1941, escreveu sobre uma coisa que continua dando trabalho para a nossa cabeça: o direito de punir.
E ela começou com uma frase que me fez parar o café no meio do caminho: “Não há direito de punir. Há apenas poder de punir.”
Minha filha… Você imagine uma mulher tão jovem olhando para o poder e fazendo uma pergunta dessas. Eu fiquei pensando nisso justamente agora, depois de mais uma eleição.
A gente vota, escolhe, comemora, reclama, discute, torce. Às vezes sai da urna com a sensação de que cumpriu seu papel. Mas será que o nosso papel termina ali? Eu acho que não. Porque o eleitor entrega poder. Não entrega a própria consciência. O voto é uma escolha, mas não deveria ser uma autorização para esquecermos aquilo que acontece depois que a pessoa eleita assume o cargo.
Não estou dizendo que todo político é corrupto, mas trago a clareza de que nenhum país do mundo é livre da corrupção. Também não estou dizendo que todo empresário que se aproxima do poder público está fazendo alguma coisa errada, mas a história humana explica como o acesso ao orçamento público, corrompe até as “boas intenções”.
Minha filha, cuidado com as certezas. Investigar não é condenar. Denunciar não é provar. Mas também não podemos transformar a prudência em ingenuidade.
Quando recursos públicos circulam, quando emendas são destinadas, quando empresas participam de contratos, quando interesses privados encontram decisões públicas, o cidadão tem todo o direito de perguntar: Para onde está indo o meu dinheiro?
Aqui que a história vai ficando mais complicada. A corrupção, quando comprovada, raramente é uma história simples de uma pessoa sozinha fazendo alguma coisa escondida.

Ela pode envolver relações, interesses, empresas, agentes públicos, contratos, intermediários, favores, estruturas. Então, eu desconfio quando alguém fala de corrupção como se ela tivesse sempre um único endereço.
Aí, minha filha, não estamos falando apenas de política. Estamos falando de responsabilidade. E é aqui que eu volto àquela moça chamada Clarice. Porque talvez a pergunta dela tenha envelhecido menos do que nós: Quem tem o poder de punir?
Hoje eu acrescentaria outra: Quem fiscaliza quem recebeu o poder de punir, decidir, autorizar, contratar, distribuir e administrar aquilo que é de todos?
Calma. Não estou propondo uma paranoia nacional. Estou propondo atenção. Porque existe uma diferença enorme entre ser desconfiada e ser paranoica.
A desconfiança é uma saudável pergunta. A paranoia inventa respostas antes dos fatos. Eu prefiro a pergunta. Sempre preferi.
Porque uma bicha esclarecida sabe que não precisa ter certeza de tudo para prestar atenção. E prestar atenção, minha filha, é uma forma de cidadania.
A gente precisa acompanhar. Ler. Perguntar. Conferir. Comparar informações. Principalmente, não deixar que a nossa preferência política transforme o nosso senso crítico em torcida organizada.
Porque esse é um perigo danado. Quando é o político de quem eu gosto, eu encontro uma explicação. Quando é o político de quem eu não gosto, eu encontro um escândalo.
Quando é o empresário que apoia aquilo em que acredito, eu chamo de empreendedorismo. Quando é o empresário do outro lado, eu chamo de interesse.

Minha filha, assim não dá. A verdade não deveria mudar de acordo com a cor da nossa torcida. Democracia dá trabalho. Não termina quando a urna fecha.
Nós escolhemos representantes. Não escolhemos donos. Nós entregamos poder. Não entregamos nossa consciência. E não deveríamos entregar também nossa memória.
Porque daqui a algum tempo haverá outra eleição. E, quando ela chegar, talvez seja importante lembrar não apenas o que alguém prometeu, mas o que fez com o poder que recebeu.
Isso é muito mais difícil do que parece. Porque política mexe com nossas identidades. E quando alguém mexe com a nossa identidade, minha filha, até a razão pede licença para ir tomar um café.
Clarice escreveu aquela frase quando tinha pouco mais de vinte anos. Eu fico imaginando o que ela diria hoje, diante de um país em que o poder continua sendo disputado, exercido, fiscalizado e, algumas vezes, questionado.
O cidadão tem menos o direito de punir do que o dever de prestar atenção. Porque quem pune é a Justiça, quem investiga são as instituições responsáveis. Mas quem vota somos nós.
Minha filha, agora me permita uma pequena provocação. Se você vota num político que acumula denúncias, investigações e suspeitas graves, não precisa condená-lo antes da Justiça. Mas também não precisa absolvê-lo antes dela. Uma coisa é respeitar o direito de defesa. Já outra bem diferente, é transformar a preferência política em advogado de estimação.

Se a Polícia Federal investiga, se o Ministério Público apura, o mínimo que se espera de uma eleitora esclarecida é atenção, não devoção. Porque, quando a gente começa a justificar qualquer coisa só porque foi o nosso candidato que fez, deixa de escolher representantes e passa a proteger interesses.
E aí, minha filha, a pergunta já não é apenas sobre a honestidade de quem recebeu o voto. É também sobre a honestidade de quem decidiu entregá-lo.
Minha filha, não entregue sua consciência junto com o voto. Vote em quem quiser. Mude de ideia quando quiser. Mas não deixe de perguntar e nem de acompanhar.
Porque o poder passa. O mandato passa. O empresário muda. O partido muda. A eleição acaba. Mas o dinheiro público continua sendo nosso.
E nesse ponto que está nossa revolução, que uma pessoa bicha esclarecida pode fazer depois de cada eleição: continuar prestando atenção.
E aí me veio uma música do Gilberto Gil: “Nos barracos da cidade”. Minha filha, Gil cantava sobre autoridade, poder, promessa, dinheiro e gente que precisava enfrentar os interesses de quem tinha muito mais poder do que ela. E tem uma passagem que sempre me chama atenção:
“O governador promete / Mas o sistema diz não / Os lucros são muito grandes / Mas ninguém quer abrir mão / Mesmo uma pequena parte / Já seria a solução / Mas a usura dessa gente /Já virou um aleijão”
Olha que coisa. O problema do poder público não está apenas naquilo que um governante promete. Está também naquilo que ele consegue ou não, fazer diante das estruturas, dos interesses e do dinheiro que circula ao redor dele.
E quando a música fala dos lucros que são grandes demais para que alguém queira abrir mão de uma pequena parte, eu fico pensando no dinheiro público. Dinheiro que deveria chegar onde existe necessidade: saúde, educação, moradia e na infraestrutura.
Clarice pergunta sobre o poder de punir. Gil canta sobre o poder da autoridade. E nós, quase um século depois, continuamos tentando entender o que acontece quando o poder se distancia de quem deveria servir.
Porque democracia não é apenas o direito de escolher quem vai mandar. É também o dever de não esquecer que quem manda recebeu de nós o poder para fazê-lo.
E poder, minha filha, precisa de luz. Muito café. E gente olhando.
Madame Jorgina, ainda aprendendo a desconfiar sem perder a esperança.
#FicaLokaMasNãoFicaBurra





