
Olá, gente bicha deste país varonil…
Hoje eu quero falar de trabalho. Mas antes que alguém pense que Madame Jorgina finalmente virou colunista de LinkedIn, calma. Eu ainda não cheguei a esse nível de job.
Estou falando de trabalho porque, volta e meia, alguém senta diante da minha xícara, olha para a borra de café e me conta que está cansada. Não necessariamente do trabalho. Às vezes está cansada de ter que parecer competente o tempo inteiro.
Cansada de não poder dizer “não sei”. Cansada de ter uma ideia e ficar com medo de falar. Cansada de trabalhar em lugares onde todo mundo diz que quer inovação, mas basta alguém propor alguma coisa diferente para aparecer uma criatura dizendo: Isso nunca vai funcionar.
Minha filha… Tem frase que parece opinião, mas vem carregada de sentença. E eu já vi muita gente boa começar a duvidar de si mesma depois de ouvir isso vezes demais.
Porque existe uma coisa muito perigosa acontecendo em alguns ambientes de trabalho: confundiram profissionalismo com ausência de vulnerabilidade.
A pessoa precisa saber, acertar, entregar. Precisa dar conta, demonstrar segurança e ter resposta rápida. E, de preferência, precisa fazer tudo isso sorrindo numa reunião às oito da manhã.
Só esqueceram de avisar que gente é um bicho mais complicado. A pessoa que trabalha também sente medo, vergonha e dúvida. Tem insegurança. Tem dias em que acorda inspirada e outros em que gostaria de responder todos os e-mails com uma única mensagem: “Minha filha, hoje não.” E isso não significa falta de competência. Significa apenas que existe uma pessoa ali.
Conheci muita gente que chegou à minha mesa com histórias de ambientes de trabalho onde ninguém realmente se escuta. Chefias que pressionam até a última gota. Colegas que competem por tudo. Equipes que trabalham juntas, mas não necessariamente estão juntas. E, principalmente, pessoas que já aprenderam que é mais seguro ficar caladas. Porque quem fala pode errar.

Quem propõe pode ser ridicularizado. Quem experimenta pode fracassar. E quem fracassa pode virar assunto no café. Aí a pessoa fica quietinha. Faz o que mandaram. Entrega o que pediram. Não inventa moda. Não questiona. Não mexe. Não respira muito forte para não chamar atenção. E depois a empresa pergunta por que ninguém tem ideias novas.
Beecha… Ideia nova precisa de espaço para nascer, sem ser imediatamente interrogada pela polícia da normalidade.
As ideias que transformam alguma coisa quase sempre começam parecendo exageradas, inadequadas ou até um pouco absurdas.
É assim mesmo. Antes de virar inovação, uma ideia pode parecer maluquice. Antes de virar mudança, pode parecer inconveniente. Antes de fazer sentido para todo mundo, talvez faça sentido apenas para quem teve coragem de imaginá-la. E é aí que entra uma palavra que eu gosto muito: vulnerabilidade.
Não aquela vulnerabilidade de ficar contando sua vida inteira para o departamento de Recursos Humanos. Estou falando de uma coisa mais simples. A coragem de dizer:
“Eu não sei.”
“Eu pensei diferente.”
“Talvez a gente pudesse tentar.”
“Eu errei.”
“Eu preciso de ajuda.”
“Isso não está funcionando.”
“Eu tenho uma ideia.”
Parece pouco. Mas, em certos lugares, minha filha, isso é quase uma revolução. Porque quando uma pessoa pode dizer que não sabe, outra pode ensinar. Quando pode admitir que errou, pode aprender. Quando pode apresentar uma ideia sem medo de ser humilhada, pode criar. Quando pode conversar sem precisar se defender o tempo inteiro, pode se conectar.
E penso que seja isso que falta em muitos ambientes de trabalho: não mais ferramentas, não mais reuniões, não mais discursos sobre cultura. Gente. Gente de verdade. Com suas histórias, seus estilos, suas inseguranças, suas diferenças e aquela mania maravilhosa de não caber perfeitamente na descrição do cargo.

Eu penso muito nisso porque existe alguém que conheço há bastante tempo que parece ter escolhido fazer do trabalho, justamente esse lugar de encontro. Ele trabalha com educação, comunicação, desenvolvimento de pessoas.
E uma das coisas que mais admiro nele é que ele nunca pareceu muito interessado em simplesmente colocar informação dentro da cabeça dos outros. Ele gosta mesmo é de criar conversa. Juntar pessoas. Provocar pensamento. Fazer perguntas. Criar aqueles momentos em que alguém olha para o colega e percebe: “Ah… então não sou só eu que penso assim.”
Esse homem já apareceu muitas vezes diante da minha mesa. Às vezes para conversar. Às vezes para tomar cafés, no plural, porque determinadas pessoas não sabem brincar com a cafeína.
E, como acontece com quase todo mundo que passa por aqui, eu fui observando. As escolhas. Os medos. As ideias. As mudanças. As inquietações.
E também aquela coisa que eu acho muito bonita em algumas pessoas: a vontade de continuar aprendendo mesmo depois de já terem aprendido bastante.

O nome dele é Mauro. E hoje, dia primeiro de setembro, é aniversário dele. Pois é. Madame Jorgina também faz homenagem.
Mas não pensem que eu vou entregar um presente embrulhado em papel celofane. Meu presente é uma provocação.
Mauro, meu filho, você trabalha há muitos anos tentando ajudar pessoas a aprender, se comunicar melhor, se conectar e encontrar novos caminhos.
Então talvez você já saiba disso. Mas eu vou lhe dizer assim mesmo: não deixe que a experiência mate a curiosidade. Não deixe que o medo de errar faça você trabalhar apenas com aquilo que já conhece. Não deixe que a necessidade de parecer competente impeça você de continuar fazendo perguntas.
Porque a maior revolução que uma pessoa possa viver seja continuar cuidando de si enquanto ajuda outras pessoas a crescer. E cuidar de si também é reconhecer quando o ambiente está nos fazendo mal.
É entender nossos limites. É perceber nossa própria maneira de funcionar. É conhecer nosso estilo. É reconhecer nossos valores. É entender o que importa. Porque não existe muita autenticidade quando a gente passa o dia inteiro tentando representar uma versão profissional que não existe.
Eu já vi muita gente tentando construir uma carreira enquanto desmontava a própria pessoa. E isso, minha filha, não é sucesso. É apenas cansaço bem remunerado.
No fundo, trabalhar seja também aprender a não se perder de si mesmo. E portanto, acredito que liderar seja criar condições para que outras pessoas não precisem se esconder para fazer um bom trabalho.
Penso que ensinar seja isso. Que criar seja isso. Que inovar seja isso. E que viver também seja. Você aparece com uma ideia meio torta. Alguém ri. Você respira. Tenta de novo. Alguém escuta. Você melhora. Experimenta. Erra. Aprende. Muda. E, quando percebe, aquela coisa que parecia absurda já virou alguma coisa que existe.
É assim que o mundo muda. Não necessariamente com grandes discursos. Às vezes começa numa sala de reunião. Num café. Numa pergunta. Num “e se a gente tentasse de outro jeito?”. Ou simplesmente numa pessoa que teve coragem de dizer: “Eu não sei. Mas quero descobrir.”
Minha filha, isso é muito mais poderoso do que parece. O trabalho também precisa de resultado, claro. Mas precisa de gente para produzir resultado. E gente precisa de espaço para pensar, sentir, experimentar, aprender e, principalmente, continuar sendo gente.
Então, Mauro, feliz aniversário. Que você continue criando encontros. Que continue fazendo perguntas. Continue acreditando que aprender não é acumular respostas, mas ampliar a capacidade de olhar. E que nunca perca essa coisa meio inconveniente que algumas pessoas chamam de inquietação. Eu chamo de vida.
Quanto a mim, sigo aqui. O café sendo servido. A borra acumulando histórias. As pessoas chegando com suas certezas e saindo com algumas perguntas a mais.
Madame Jorgina, ainda aprendendo a escutar.
#FicaLokaMasNãoFicaBurra





