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Beecha, não tenha medo de mudar de ideia




A pessoa esclarecida não é aquela que tem certezas. Mas sim, aquela que continua aberta a rever o que pensa.

Olá, pessoas bichas deste país varonil…

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Hoje eu vim dar uma bronca. Mas é bronca de amiga. Daquelas que a gente dá tomando café, olhando bem nos olhos e dizendo: beecha, não tenha medo de mudar de ideia.

Mudar de opinião não é fraqueza. Às vezes, é apenas sinal de que finalmente aprendemos alguma coisa.

Minhas filhas, eu já mudei de ideia tantas vezes que, se tivesse guardado todas as minhas versões anteriores, hoje precisaria de um apartamento de quatro quartos só para armazenar minhas certezas vencidas.

E não tenho vergonha nenhuma disso. Já achei que algumas pessoas seriam para sempre. Não foram. Já pensei que determinados trabalhos eram o caminho da minha vida. Não eram. Já defendi ideias que, olhando hoje, me fazem perguntar: “Jorgina, meu amor… onde estava sua cabeça?” Já tive certezas tão absolutas que hoje parecem pequenas peças de museu.

E ainda bem. Porque a pessoa esclarecida não é aquela que tem certezas. Mas sim, aquela que continua aberta a rever o que pensa.

Tenho percebido isso muito nas pessoas que chegam até mim para uma consulta de tarô ou para uma leitura de borra de café. Há alguma coisa acontecendo por aí. Um movimento. Um ritmo universal que parece empurrar projetos, relações e desejos para lugares novos.

Ouvi algo que me impactou: “A vida é um mar de forças tempestuando e ondulando em si próprias.”

Tem gente chegando com um projeto que finalmente ganhou impulso. Tem gente encontrando uma nova oportunidade profissional por meio de uma relação construída há anos. Tem gente descobrindo que aquele contato antigo pode abrir uma porta para uma demanda que nunca havia imaginado.

Construímos relações comerciais durante anos com tempo, empatia e confiança. E, de repente, aquela mesma relação muda de natureza. O vínculo continua, mas o projeto é outro. A necessidade é outra. O desafio é outro.

E nós também precisamos ser outros. Me parece que é isso que mais nos assusta. A mudança não pergunta se estamos preparados. Ela simplesmente chega. E mudar está profundamente ligado à nossa vulnerabilidade humana.

Existe uma vulnerabilidade do corpo – a doença, a cura, o envelhecimento, aquilo que acontece organicamente e nos lembra que não temos controle sobre tudo.

Mas existe também uma vulnerabilidade pessoal – aquela que mexe com nossa autoestima. Com a maneira como percebemos quem somos. Com a necessidade de sermos aceitos. Com o medo de não cabermos mais naquele lugar onde passamos tanto tempo tentando caber.

Essa segunda, minhas filhas, dá trabalho. Porque mudar de ideia significa admitir que a pessoa que pensava diferente ontem talvez não soubesse tudo. E o ego detesta essa conversa, pois prefere dizer: “Eu sempre soube”, mesmo que não soubesse.

Se você percebe que está numa estrada errada, continuar caminhando só porque já andou muito, isso é teimosia com quilometragem.

Outro dia, uma bicha que atendi me contou uma história que me fez pensar muito sobre isso. Vou chamá-la de Sra. Sensata.

Ela é uma mulher madura, experiente, profissionalmente estabelecida e emocionalmente bastante consciente. Tem um talento natural para atrair pretendentes mais jovens. Alguns chegam a ter vinte anos de diferença.

Não que ela procure isso. Mas talvez alguns desses novinhos enxerguem nela justamente aquilo que ainda estão tentando construir: estabilidade, segurança, experiência, uma bicha esclarecida que já atravessou algumas tempestades sem afundar o barco.

E, às vezes, minha filha, aquilo que parece amor também pode carregar um pedido de socorro.

A Sra. Sensata se envolveu recentemente com um rapaz de 23 anos. Aqui vou chamá-lo de Sr. Retrógrado.

E, antes que alguém venha me perguntar se o problema era a diferença de idade, já adianto que não era.

O problema era a diferença de mentalidade. O Sr. Retrógrado vive seus dilemas entre o desejo de viver livremente e os valores antiquados da família. Quer experimentar o mundo, mas continua preso a expectativas que vinham de casa. Queria autonomia, mas esperava que alguém o resgatasse das consequências de suas próprias escolhas.

E esse alguém, aparentemente, era a Sra. Sensata. Jurava devoção a ela e cobrava a mesma devoção. Como se amar alguém significasse entregar a essa pessoa a responsabilidade de salvar a nossa vida.

Até que, depois de mais uma mensagem, a Sra. Sensata respirou fundo, pegou o telefone e disse: “Escuta, se você vai continuar projetando em mim a responsabilidade de resgatar sua vida, melhor pararmos por aqui.”

Achei essa frase de uma lucidez quase indecente. Porque ela não estava abandonando o rapaz por ele ser jovem. Estava recusando um papel de salvadora. E existe uma diferença enorme entre amar alguém e aceitar ser responsável pela vida dessa pessoa.

Você pode amar e ainda assim dizer não. Pode gostar e ainda assim ir embora. Pode reconhecer a importância de alguém e compreender que aquela relação não cabe mais na pessoa que você se tornou.

E isso não apaga o que existiu, apenas reconhece que o tempo passou. Penso que a maturidade seja isso: aprender que algumas coisas não precisam ser consertadas. Precisam ser encerradas. Outras precisam ser transformadas. E outras precisam apenas de tempo.

Tenho cada vez mais a impressão de que mudar de ideia exige uma combinação curiosa: Humildade para reconhecer: eu posso ter entendido errado + Coragem para dizer: agora que entendi diferente, vou fazer diferente.

Ora… se você percebeu que a estrada está errada, continuar caminhando só porque já andou muito não é perseverança. É teimosia com quilometragem.

E tem uma música que chegou aos meus ouvidos esses dias, em que Fafá de Belém canta sobre aquele momento em que a gente acredita que já entendeu tudo, mas na verdade, ainda não sabia de nada. E então vem uma provocação que eu adoro: Respira /  Aprende a respirar / Se tu só pira, mas não respira / Não vai dar.”

Tem gente querendo resolver a vida inteira enquanto ainda está sem ar. Quer decidir tudo. Quer entender tudo. Quer controlar tudo. Quer saber imediatamente para onde a relação vai, se o projeto vai funcionar, se a carreira vai dar certo, se aquela pessoa vai ficar, se aquela escolha foi correta.

Respira, beecha. Nem toda resposta precisa chegar hoje. Às vezes, respirar é criar espaço para mudar de ideia amanhã. E por isso que eu gosto tanto do tarô. Não porque as cartas me entreguem respostas definitivas, mas porque elas me obrigam a olhar novamente para uma pergunta.

Uma boa pergunta pode mudar uma vida. E uma nova pergunta pode fazer uma antiga certeza perder a validade.

Então, minhas filhas, se alguma coisa dentro de você está dizendo que é hora de rever uma escolha, não tenha medo. Você não está necessariamente perdida. Talvez esteja apenas crescendo.

Se aquela relação não faz mais sentido, olhe novamente. Se aquele projeto precisa mudar, mude. Se aquela opinião já não representa quem você é, abandone-a. Se você descobriu que estava errada, minha filha… parabéns. Você acabou de aprender alguma coisa.

A vida não é um documento que precisa ser protocolado no Poupatempo e depois permanecer igual para sempre.

Eu, Madame Jorgina, já mudei de roupa, de profissão, de amor, de opinião, de sonho e de caminho. E continuo aqui. Às vezes, mudar é justamente parar de insistir em ser quem já não somos.

Beecha… não tenha medo de mudar de ideia. A pior coisa que pode acontecer quando você muda é descobrir que aprendeu.

E a melhor? Descobrir que ainda tem muito para aprender.

Beijinhos.

Madame Jorgina, sua criada.

#FicaLokaMasNãoFicaBurra

Madame Jorgina

Madame Jorgina é cronista das pessoas, dos afetos e das pistas de dança. Ex-top drag, cartomante aposentada e leitora de borra de café, escreve sobre comportamento, música e as pequenas filosofias do cotidiano. Madame Jorgina acredita que toda pessoa pode ser uma bicha esclarecida. O resto é só conversa de quem ainda não tomou um bom café. Nota: Madame Jorgina é um alter ego de Mauro Galasso, que é de verdade, mas não cabia numa persona só.




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