
Olá, bichas deste país varonil…
Já me disseram que minhas mãos são delicadas. É verdade. Também já disseram que eu tenho mãos de quem sabe segurar um baralho de tarô, uma xícara de café, uma taça de espumante e, quando necessário, a própria dignidade.
Mas teve uma pessoa que me conheceu muito bem e dizia que minhas mãos não eram frágeis. Era o Sargento Julião. Ele dizia: “Jorgina, você não tem mãos frágeis. Você tem força. Só ainda não percebeu que sua força está justamente na suavidade dos seus dedos frágeis e delicados.”
Eu demorei para entender. Talvez porque a gente tenha aprendido que força precisa fazer barulho. Força é bater na mesa. É falar alto. É não chorar. É não pedir ajuda. É responder imediatamente. É mostrar que nada nos atinge. É entrar numa sala e fazer questão de que todo mundo saiba que chegamos.
Ora, minhas filhas… Eu já fiz isso. Já fui Top Drag. Já subi em palco. Já tive que transformar presença em espetáculo. Quem manda ser uma Drag inata?
Em primeiro lugar, sua personalidade de drag representa profundamente o papel de si mesma. Drag é uma pessoa que se cansa muito e que termina com um pouco de náusea de si, já que o contato íntimo consigo própria é, por força, prolongado demais.
A gente passa horas construindo uma imagem. A maquiagem precisa estar certa. A roupa precisa estar certa. O cabelo precisa estar certo. A postura precisa estar certa. Até o jeito de olhar precisa parecer espontâneo depois de horas de preparação.
E depois ainda tem gente que pergunta por que uma Drag fica cansada. Minha filha… experimente passar algumas horas sendo uma versão ampliada de você mesma e depois me conte.

Com o tempo, porém, descobri uma coisa curiosa. A gente pode passar muitos anos tentando parecer forte e, ainda assim, estar morrendo de medo por dentro. Porque existe uma diferença enorme entre força e armadura. A armadura protege. Mas também pesa. E, se você passa tempo demais usando uma, pode esquecer como é viver sem ela.
Tenho pensado muito sobre isso quando observo as pessoas que chegam até mim para uma consulta de tarô ou para uma leitura de borra de café. Algumas chegam querendo respostas. Outras chegam querendo certezas. Outras chegam querendo saber quando determinada coisa vai acontecer.
Mas, muitas vezes, o que existe por baixo da pergunta é apenas uma pessoa cansada de não saber. E eu compreendo. Porque não saber também é uma forma de vulnerabilidade.
E vulnerabilidade, minhas filhas, não é exatamente uma palavra que faça sucesso neste país. A gente gosta mesmo é de parecer bem.
“Estou ótima!”
“Está tudo sob controle!”
“Não aconteceu nada.”
“Já superei.”
“Nem estou ligando.”
Às vezes, a pessoa está um caco por dentro e manda um “kkkk” no WhatsApp para provar que está tudo bem. Eu mesma já fiz isso. Aliás, se o “kkkk” fosse um diagnóstico, metade do país estaria internada.
Mas a vulnerabilidade não aparece apenas quando estamos sofrendo. Ela aparece também quando estamos felizes. E isso é mais curioso ainda.
Tem gente que recebe uma coisa boa e imediatamente procura onde está a tragédia. Consegue uma promoção e pensa: “Tem alguma coisa errada.” Conhece alguém maravilhoso e pensa: “Esse homem deve ter algum defeito.” Acorda com a família bem, o trabalho funcionando, a casa em ordem e a saúde tranquila e pensa: “Calma. Alguma desgraça deve estar chegando.”
Minha filha… Às vezes, a felicidade bate à porta e a gente olha pelo olho mágico para descobrir se pode abrir. Isso também é vulnerabilidade. Porque ficar feliz significa admitir que existe alguma coisa que podemos perder.
E então algumas pessoas preferem não se entregar completamente à alegria. É uma espécie de ensaio permanente para a tragédia.
“Está tudo muito bom.”
“Isso não vai durar.”
“Daqui a pouco acontece alguma coisa.”
E assim a pessoa vai se protegendo tanto da tristeza que começa também a se proteger da felicidade. Só que existe um problema. Se você passa a vida inteira tentando não sofrer, corre o risco de também não viver.

Por isso que eu aprendi a prestar mais atenção nas coisas pequenas. O café quente. Uma conversa que dura mais do que deveria. Uma música que aparece no momento certo. Uma mensagem inesperada. Uma gargalhada no meio de uma tarde comum. Uma pessoa que segura sua mão sem perguntar o que aconteceu.
A alegria, minhas filhas, não costuma chegar de limousine. Às vezes ela vem de chinelo. E entra sem avisar. Por isso comecei a desconfiar que gratidão não é simplesmente dizer “obrigada”. Gratidão é perceber. Perceber que existe alguma coisa boa acontecendo enquanto ela acontece. Não depois. Não quando acabar. Não quando virar fotografia. Agora.
Porque vida não é amanhã. Vida é o processo. Você vive tijolinho por tijolinho, até notar que adquiriu experiência e autoconhecimento.
É justamente nesse processo que a gente descubre que não precisa ser forte o tempo inteiro. Pode ser cansada. Pode ser confusa. Pode mudar de ideia.
Pode pedir ajuda. Pode chorar. Pode rir de uma coisa boba. Pode dizer “não sei”. Pode dizer “não consigo”.
E também pode dizer: “Estou feliz.” Sem pedir desculpas. Sem procurar imediatamente o desastre escondido atrás da felicidade.
Tenho o maior respeito pela gramática e pretendo nunca lidar conscientemente com ela. Em matéria de escrever certo, escrevo mais ou menos de ouvido. Por intuição. Pois o certo sempre nos soa melhor. E cada vez mais, tenho vivido assim também. Mais ou menos de ouvido. Por intuição. Prestando atenção no que soa certo dentro da gente.
Nem sempre funciona. Às vezes a gente desafina. Às vezes entra no ritmo errado. Às vezes insiste numa música que já acabou. Mas também é assim que aprendemos.
A verdadeira força não é conseguir permanecer sempre de pé. Penso que é saber que podemos cair sem que isso nos torne menos dignas. Talvez seja aceitar que o corpo muda. Que a vida muda. Que as relações mudam. Que nós mudamos. E que não precisamos transformar cada mudança numa derrota.
Porque existe uma delicadeza enorme em aceitar aquilo que não podemos controlar. E existe uma força ainda maior em continuar vivendo apesar disso.

Hoje olho para minhas mãos e vejo coisas que antes não percebia. Elas carregam marcas. Elas já seguraram tantas coisas: cartas, xícaras, roupas, microfones e maquiagem. Tenho mãos de palco. Mãos de café. Mãos que já abraçaram. Mãos que já soltaram. Mãos que já tremeram. E mãos que, mesmo tremendo, continuaram fazendo o que precisava ser feito.
Talvez seja isso que Sargento Julião queria me dizer. Que força não é ausência de delicadeza. Que delicadeza não é ausência de força. Uma coisa pode morar dentro da outra.
Aliás, as coisas mais fortes da vida são justamente aquelas que não fazem barulho. Uma semente. Um abraço. Uma lágrima. Uma palavra dita na hora certa. Uma pessoa que permanece. Uma pessoa que sabe partir. Um café preparado com cuidado. Um amor que não precisa gritar para existir. Uma mulher que, depois de tudo, ainda consegue olhar para o mundo e dizer: “Vamos tentar mais uma vez.”
Minhas filhas, eu já fui muito mais preocupada em parecer forte. Hoje estou mais interessada em ser inteira. E ser inteira inclui minhas fragilidades, minhas dúvidas, minhas rugas e meus exageros. Sem falar também de meus medos.
Acho que amadurecer seja parar de gastar tanta energia escondendo nossas rachaduras e começar a perceber que alguma luz também entra por elas.
E, se existe uma coisa que eu gostaria de deixar para vocês hoje, é esta: Não tenha vergonha daquilo que é delicado em você. Não transforme sua sensibilidade em defeito. Não confunda suavidade com fraqueza.
Não tenha medo de sentir alegria. Não estrague um momento bom imaginando a tragédia que pode vir depois. A vida já nos dará problemas suficientes. Não precisamos fabricar alguns por antecipação.
Receba o que for bonito enquanto estiver acontecendo. Agradeça. Respire. Preste atenção. E, quando a vida colocar alguma coisa boa diante de você, não pergunte imediatamente: “Quanto tempo isso vai durar?” – Pergunte: “Como posso estar presente enquanto isso acontece?”
Até que um dia olhamos para trás e percebemos que, sem perceber, construímos alguma coisa. Uma história. Uma pessoa. Uma vida.
Força não me parece ter que apertar o mundo com as duas mãos. Acho que tem mais haver com saber segurá-lo com delicadeza.
E, principalmente, em saber quando abrir as mãos e deixar alguma coisa partir.
Madame Jorgina, sua criada.
#FicaLokaMasNãoFicaBurra





