
Olá, bichas deste país varonil…
Eu sei que não sou exatamente uma colunista. Estou descobrindo o que significa essa coisa de colocar palavras numa página e depois deixar que elas saiam andando por aí, encontrando pessoas que nunca vi, entrando em casas onde jamais estive e, quem sabe, fazendo companhia a alguém que tomou um café enquanto lia alguma coisa que escrevi.
É uma responsabilidade danada. Antes disso, eu escrevia cartas de amor, receitas culinárias, alguns projetos acadêmicos, formulários de requisição no Poupatempo e outras pequenas obras-primas da burocracia brasileira.
Mas coluna? Coluna é outra coisa. Quando Leollo Lanzone me convidou para fazer parte do time do Conteúdo & Mais, disse: — Escreva qualquer coisa que lhe passe pela cabeça. Mesmo tolice.
Achei curioso. Segundo ele, as coisas sérias eu já falava com quem vinha consultar meu tarô ou a minha leitura da borra de café. Só que eu não queria escrever tolices. As que escrevi, e imagino que tenham sido muitas, foram provavelmente sem perceber.
O problema é que escrever para uma coluna é diferente de conversar com alguém que está sentado diante de você. Na minha mesa de cartas e café, existe uma pessoa. Uma pessoa com uma história. Eu olho para ela. Ela olha para mim. Às vezes embaralhamos cartas. Às vezes servimos café. Às vezes ficamos em silêncio. E o silêncio, minhas filhas, também é uma forma de conversa.
Aqui não. Existe um leitor. Ou vários. E eu não sei quem são e nem onde estão. Não sei se estão tomando café, esperando o ônibus, lendo no metrô, escondidos no banheiro do trabalho ou deitados na cama depois de uma semana particularmente ordinária.

Então comecei a me perguntar: O que é escrever uma coluna? É um relato? É uma conversa? É um resumo de um estado de espírito? É uma tentativa de compreender alguma coisa? Ou será que escrever é justamente isso: procurar alguma coisa sem saber exatamente o que estamos procurando? Talvez seja.
Tenho pensado muito numa ideia que me acompanha há algum tempo: estar sempre à procura da própria coisa. A própria voz, o próprio jeito, sua própria pergunta. A própria maneira de olhar para o mundo.
Porque eu já fui muitas. Fui Jorge. Fui transformista. Fui Top Drag. Hoje sou Madame Jorgina. E continuo sendo todas elas, de algum modo. Passei boa parte da vida tentando descobrir quem eu era.
Hoje desconfio que talvez a vida seja menos sobre descobrir uma resposta e mais sobre aprender a fazer melhores perguntas. É aí que começo a entender que gosto de escrever, porque escrever me obriga a perguntar.
O fundo de todo sonho, talvez seja justamente uma certa lucidez. Uma vontade de enxergar alguma coisa que ainda estava escondida.
Mas existe uma coisa que descobri escrevendo para vocês: eu também estou sendo transformada pelo leitor. Não sei quem está do outro lado. E por não saber, preciso imaginar.
Talvez seja uma pessoa que concorda comigo. Talvez seja uma que discorda. Talvez seja uma bicha esclarecida. Talvez seja alguém que ainda esteja descobrindo que pode ser. Talvez seja uma pessoa que só veio procurar uma história leve e acabou encontrando alguma pergunta dentro dela.
E eu gosto disso. Gosto de não saber. Porque há uma liberdade enorme em não ter todas as respostas.
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Outro dia, por exemplo, eu estava num carro de aplicativo. E, como vocês já devem imaginar, eu converso com os motoristas. Não consigo evitar. Tenho curiosidade. E curiosidade, minhas filhas, é uma espécie de doença que eu não tenho a menor intenção de curar.
O motorista era espanhol. Ainda moço. Tinha um bigodinho, um olhar triste e aquele jeito de quem parece carregar uma história no banco de trás. Conversamos. Ele perguntou se eu tinha filhos. Perguntei se ele tinha. Disse que não era casado e que jamais se casaria. Aí veio a história.
Há catorze anos, na Espanha, ele havia amado uma jovem chamada Clarita. Moravam numa cidade pequena. Poucos médicos e poucos recursos. Clarita adoeceu e ninguém descobriu exatamente do quê. Três dias depois, morreu. Nos braços dele.
Depois disso, ele passou três anos quase sem conseguir se alimentar. O povoado inteiro sabia de seu grande amor e tudo ali o fazia lembrar de Clarita. Então veio para o Brasil. Aqui enriqueceu. Teve uma fábrica de sapatos. Vendeu. Abriu um restaurante. Vendeu também. Nada parecia importar muito. Até transformar seu carro particular em carro de aplicativo e começar a trabalhar como motorista.
Ele me disse que, em catorze anos, não conseguiu amar mais ninguém. Tinha casos. Conhecia mulheres. A vida continuava. Mas amor… Amor, nunca mais.
Fiquei ouvindo. E talvez tenha sido justamente isso que ele encontrou em mim: alguém disposto a escutar sem tentar consertar sua história. Ele ainda me contou sobre negócios. Sobre desfalques. Sobre dinheiro. Sobre outras coisas que, sinceramente, já não lembro direito. A viagem era longa. O trânsito estava daquele jeito que São Paulo sabe produzir bem numa sexta-feira no fim da tarde.
Mas, entre uma avenida parada e outra, alguma coisa daquela história ficou comigo. Não sei se foi o amor. Não sei se foi a morte. Talvez tenha sido a maneira como ele conseguiu continuar vivendo sem transformar a própria saudade numa prisão.
Porque muita gente gostaria que aquela história fosse diferente. Gostaria que o amor de catorze anos tivesse parado a vida dele. Seria mais bonito, romântico e cinematográfico. Mas a vida não tem obrigação de terminar como uma história que agrada quem escuta.
E eu não posso mentir para vocês apenas para deixar uma história mais bonita. Acho justo que aquele homem continue vivendo. Mesmo que não consiga amar novamente. Já basta o drama de não conseguir amar ninguém mais além de Clarita.
Penso que eu tenha aprendido com aquela viagem foi que algumas pessoas não precisam de conselhos. Precisam de alguém que permaneça alguns minutos em silêncio enquanto elas contam.
Isso também é escrever. Talvez escrever seja uma forma de escutar. Talvez uma coluna seja isso. Uma pessoa contando alguma coisa e outra pessoa dizendo, sem dizer: eu ouvi.
E há algo ainda mais curioso. Enquanto conversava com aquele espanhol, eu não estava pensando em coluna. Eu estava apenas ali. Distraidamente atenta.
E talvez seja assim que algumas coisas importantes chegam até nós. Sem anúncio. Sem tarô ou pela borra de café. Sem algoritmo. Sem sequer pedir licença. A vida simplesmente passa pelo nosso lado e conta uma história.
Cabe a nós decidir se vamos continuar rolando a tela ou se, por alguns minutos, vamos levantar os olhos. Escutar. E deixar aquela história morar dentro da gente.

Tenho cada vez mais a impressão de que tudo é uma questão de paciência. De amor criando paciência. E de paciência criando amor. Acho agora que escrever seja isso também. Ter paciência para encontrar a própria coisa. A própria voz. A própria pergunta. E, depois, ter coragem de entregá-la aos outros.
Eu ainda sou uma colunista novata. Ainda me atrapalho escolhendo os assuntos. Ainda não sei exatamente onde termina a conversa e começa a crônica. Mas acho que eu tenha finalmente entendido uma coisa: Eu não preciso saber exatamente o que estou fazendo. Preciso apenas continuar procurando e escutando.
Porque, no fundo, talvez seja isso que uma bicha esclarecida faça. Não sabe tudo, não tem resposta para tudo. Não entende o mundo inteiro. Mas continua curiosa, continua perguntando e por isso continua aprendendo. Continua procurando a própria coisa. E, quando encontra uma história no caminho… Para. Escuta. E conta.
Madame Jorgina, sua criada.
#FicaLokaMasNãoFicaBurra





