
Em algum momento da vida, a gente percebe que não dá mais para continuar tocando a mesma música. O cenário mudou, nós mudamos, as relações mudaram, os desejos ganharam outras formas. Às vezes a mudança chega porque escolhemos. Em outras, porque o mundo simplesmente nos empurra para fora do lugar onde estávamos.
Escrevi aqui sobre “Mudança e Transformação: a música como bússola durante o caos” (abril.2024). Naquele momento, pensava sobre como atravessar períodos turbulentos sem perder completamente a capacidade de encontrar algum sentido no caminho. Afinal, mudar é cíclico, orgânico e impositivo. O mundo muda o tempo todo, queiramos ou não.
A mudança em movimento / O sentimento em uma canção / De coração pra coração / De grão em grão / Não esperava por isso / Mas foi bom à beça / Recomeça e não se estressa / Sem pressa, junta as peças – trecho de Ciclos | Madayati, Mayah
Mas existe uma pergunta que vem agora: Depois que você muda e se transforma, vem o quê? Acho que uma coisa muito menos cinematográfica do que imaginávamos: aprender a viver a nova versão de nós mesmos, agora sem turbulência.
Depois de atravessar mares bravios, não precisamos necessariamente procurar outra tempestade. Podemos simplesmente aprender a navegar. É aí moram duas palavras que considero importantes nessa fase: autocuidado e autoconfiança.
Autocuidado como a capacidade de perceber o próprio limite (seus novos limites), respeitar o próprio tempo e reconhecer aquilo que nos faz bem. Autoconfiança para confiar em nós mesmos porque já sabemos que, mesmo quando não conseguimos controlar o mundo, conseguimos encontrar maneiras de atravessá-lo.

E a música continua sempre por perto, só que agora ela ganha outra função. Se durante o caos ela foi bússola, depois da transformação ela possa ser marcador de ritmo.
Afinal viver também é encontrar ritmo e compasso. Aprendi isso muitas vezes em pistas de dança. Em diferentes lugares deste mundo, em pistas grandes e pequenas, em ambientes quase paradisíacos ou em cenários que pareciam saídos de algum futuro distópico, existe um momento em que o corpo simplesmente entende.
O grave chega, o beat encontra o nosso peito. A música atravessa os ouvidos, desce pelo corpo e parece encontrar algum lugar que a gente nem sabia que precisava ser alcançado. A nuca arrepia e você pensa: que bom estar aqui. Sem vergonha de estar feliz e sem necessidade de explicar ou achar uma justificativa intelectual para aquele instante. É apenas o corpo dizendo que está vivo. É isso que mais gosto na música: ela consegue conversar com partes nossas que não precisam de tradução.
E então acontece algo que considero precioso: a ansiedade aquieta o facho (como diria Madame Jorgina). Exatamente o que precisamos algumas vezes, é parar de alimentar a urgência. Nem tudo precisa acontecer agora. Nem tudo precisa ser resolvido hoje. Nem toda pergunta precisa de uma resposta imediata. Quando a ansiedade diminui o volume, a felicidade íntima consegue finalmente aumentar o seu tom.
Disciplina de trem, virtuose na vida, tem / Maioria tem, maioria contida tem – trecho de O Fininho da Vida | O Rappa
Aprendi que o oposto de escassez é a gente entender o suficiente. Afinal, depois de tantas mudanças, podemos finalmente alcançar uma espécie de velocidade de cruzeiro. Pouca variação, menos turbulência e mais previsibilidade. Disciplina de trem: o suficiente para nos manter no curso, sem perder o ritmo e o prazos cotidianos.
E confesso: às vezes pode até parecer tédio. Mas é preciso tomar cuidado com essa interpretação. Pois, quem passou muito tempo navegando em mares revoltos, pode estranhar quando o mar fica calmo. Pode achar que alguma coisa está errada simplesmente porque, dessa vez nada está dando errado. Afinal, você alcançou o resultado de tudo aquilo que foi transformado e a calmaria seja parte da cura. Há uma beleza enorme em construir uma rotina que não nos adoeça.
Depois de mudar e reconstruir o cenário, precisamos aprender a morar nele. Precisamos descobrir como sustentar as novas estruturas e para isso, talvez seja necessário reaprender a desfrutar da paz.

Não menospreze o dever que a consciência te impõe / Não deixe pra depois, valorize a vida / Resgate suas forças e se sinta bem / Rompendo a sombra da própria loucura – trecho de Pontes Indestrutíveis | Charlie Brown Jr
E a música continua ali. Não necessariamente para nos tirar do lugar, mas para nos lembrar do nosso próprio compasso: “Sou uma mas não sou só”.
Há dias para acelerar e outros onde vamos desacelerar. Noutros momentos, iremos dançar até amanhecer, mas também haverá aquela gostosa sensação de ouvir música deitado no sofá. Por vezes buscamos aquele beat poderoso, mas sempre mereceremos uma melodia delicada e que nos abrace.
O importante é reconhecer aquilo que nosso corpo está pedindo. Autocuidado tem o sentido de aprender o que ouvir. Enquanto autoconfiança nos leva a confiar no que estamos sentindo.
Durante muito tempo pensei que transformar a vida significava chegar a algum lugar definitivo. Hoje desconfio que não existe esse ponto final. Existem fases, ciclos, mudanças de andamento e novas versões de nós mesmos.
Desafiando de vez a noção / Na qual se crê que o inferno é aqui / Existirá / E toda raça então experimentará / Para todo mal, a cura – A Cura – trecho de A Cura Lulu Santos
A transformação não termina quando o caos acaba, ela continua quando aprendemos a viver bem depois de toda turbulência. Por isso, se você passou por uma grande mudança, atravessou um período difícil, reorganizou sua vida ou simplesmente percebeu que já não cabe mais na pessoa que era, talvez exista uma pergunta esperando por você: Qual é o ritmo da sua vida agora?
Nessa hora, você não precisa acelerar. Não precise provar nada. Apenas colocar uma boa música, respirar fundo, sentir o beat tocando a pele e reconhecer que você chegou até aqui. E isso já é uma baita conquista.

Como tudo que eu vivo vira playlists, trago aqui uma que formei para me achar em mim: Em Busca Do Eu (link para Spotify) – que essas canções reunidas sejam um bussola para mente, como ainda são para mim.
Felicidade sustentável talvez não é aquela que nos faz voar o tempo inteiro, mas sim a que nos permite finalmente pousar. Seu corpo não vive mais em caos, agora ele está novamente sintonizado com sua vida.
Vida longa ao som que nos ensina a pousar em nós mesmos – Leollo Lanzone





