
Tenho uma teoria trivial. Antes de qualquer tentativa de comunicação oficial com uma civilização extraterrestre, antes de matemáticos, linguistas, cientistas ou diplomatas, deveríamos mandar música. Não qualquer música.
Viaja comigo: quatro cápsulas espaciais idênticas, lançadas da Terra em quatro direções diferentes do universo. Quatro objetos viajando pelo espaço profundo, carregando uma mensagem muito simples:
– Nós existimos. E somos muito mais interessantes do que parece.
Dentro de cada cápsula, um equipamento especialmente desenvolvido para a missão. Imagino algo como um tocador de MP3 marombado, gigantesco na capacidade de armazenamento, com caixas de som embutidas e uma bateria alimentada por energia solar.
Um aparelho capaz de atravessar décadas, séculos ou talvez milhares de anos, esperando que algum ser curioso, em algum lugar improvável dessa vastidão, pesque aquilo que enviamos.
Daí o extraterrestre apertar o botão de reprodução e passa a ouvir música. Me parece uma bela primeira tentativa de comunicação.
Por quê? Antes de começar qualquer guerra, melhor apresentar nossa humanidade mais criativa, espontânea e generosa. Nosso lado divertido. Nossa capacidade de criar beleza a partir de sons organizados no tempo.
De cara diríamos que somos diversos, contraditórios, emocionais, dançantes, melancólicos, apaixonados e, de vez em quando, até conseguimos produzir coisas extraordinariamente bonitas.
A cápsula não levaria um tratado diplomático ou manual de instruções sobre a humanidade. Eu mandaria um balaio musical global.
Talvez essa ideia venha de toda a ficção científica que sempre gostei. Das histórias que imaginam o momento em que finalmente encontramos alguém: uma nova espécie, uma nova civilização, um novo planeta, uma nova inteligência.

Em A Chegada, a linguagem se transforma em ponte entre mundos. Em Alien: Earth, a tecnologia e a inteligência artificial abrem possibilidades de diálogo com uma espécie que inicialmente parece apenas ameaçadora. Em O Problema dos 3 Corpos, comunicação, tecnologia e tempo ampliam as possibilidades — e também os riscos — do contato entre civilizações. Em O Devorador de Estrelas, compreender o outro se torna condição para a sobrevivência. E Star Trek talvez represente a grande fantasia de explorar o espaço não apenas para conquistar, mas para conhecer.
A tecnologia nos permite chegar até o outro. Mas é a linguagem que nos permite passar a compreendê-lo.
E se não tivermos uma linguagem em comum? Eu mandaria música.
A playlist Capsula Espacial (link para Spotify), que venho construindo há bastante tempo, já ultrapassa quatrocentas canções, nasceu dessa brincadeira séria. E não pretende parar de crescer.
Não quero enviar necessariamente as músicas mais famosas da Terra. Quero enviar aquelas que melhor explicam por que vale a pena conhecer os humanos (em minha opinião, claro).
Para uma canção entrar nessa cápsula imaginária, precisa ter uma sonoridade ritmada, gostosa, envolvente ou, no mínimo, curiosa. Precisa representar alguma expressão musical potente de um lugar do mundo. E, principalmente, precisa provocar alguma coisa: curiosidade, movimento, alegria, surpresa, vibração. Se possível, até vontade de dançar.
Porque, pensando bem, o instrumental talvez seja nossa melhor ferramenta para uma primeira conversa. As palavras podem não significar nada para quem estiver do outro lado. O idioma humano pode ser completamente inútil diante de uma civilização que não compartilha conosco sequer a mesma anatomia.
Mas o ritmo, talvez seja uma linguagem muito mais antiga do que qualquer idioma.
É por isso que essa cápsula imaginária abriga tantos universos musicais: Afro House, música eletrônica, sons étnicos, brasilidades, ritmos latinos, instrumentos tradicionais, batidas africanas, melodias orientais e tantas outras manifestações que encontrei pelo caminho.

O importante é revelar a diversidade. Talvez essa outra espécie escute uma batida eletrônica. Depois uma canção brasileira. Um instrumento indiano. Uma voz africana. Uma produção latina. E, em algum momento, duas criaturas extraterrestres reunidas diante daquele aparelho possam olhar uma para a outra e diga no seu próprio dialeto: — Essa turminha é mesmo divertida.
Gosto de imaginar que, antes de sermos compreendidos pelas palavras, podemos ser percebidos pelas sensações. Cantamos. Tocamos. Batemos palmas. Criamos ritmos. Dançamos. A música faz desconhecidos dançarem juntos sem que precisem saber seus nomes.
Enquanto a humanidade continua nos aproximando de responder uma das perguntas mais antigas da nossa espécie: Estamos sozinhos? Existe outra pergunta que vem logo depois: E, se não estivermos, o que vamos dizer?
Talvez a Capsula Espacial seja minha resposta. Não uma representação perfeita da humanidade; isso seria impossível. Somos também guerra, violência, desigualdade, intolerância e destruição. Mas, se alguém estiver nos observando de muito longe, talvez seja justo oferecer nossa capacidade de criar diversidade. Nossa curiosidade e nossa alegria. Nossa necessidade de dançar.
“Somos humanos. Não sabemos exatamente como conversar com vocês. Mas talvez possamos começar assim.”
Aperte o play. Escute. Se gostar, a linguagem concreta virá depois. Antes de tentar explicar quem somos, talvez devêssemos mostrar como dançamos. Nós estamos aqui. E sabemos imaginar futuro.
Vida longa ao som bom (em bom som) – Leollo Lanzone






