
Ontem, apertei o play sem grandes expectativas. Não porque estivesse desinteressado, mas porque aprendi, ao longo dos anos, que alguns álbuns não se revelam na ansiedade da estreia. Eles pedem tempo, atenção e, principalmente, corpo disponível para escutar. Foi exatamente isso que encontrei em Confessions II. Antes mesmo da faixa onze, School, eu já estava completamente entregue à proposta sonora construída por Madonna. Não é apenas uma sequência de músicas. Enxerguei uma jornada.
Vivemos um tempo em que muitos discos parecem nascer para abastecer playlists. Faixas pensadas para sobreviver isoladamente, disputando alguns segundos da nossa atenção antes do próximo clique. Talvez por isso tenha me emocionado perceber que Madonna escolheu outro caminho. Confessions II parece reivindicar algo que defendo há algumas semanas aqui no Balaio do Leollo: a importância de voltar a ouvir um álbum como uma obra completa. Cada faixa existe porque a anterior a conduz até ali, e porque a seguinte amplia seu significado.
“Obrigada por vir / Eu gosto de simplesmente me esconder nas sombras / Criar uma nova persona / Uma identidade diferente / Eu posso ser quem eu quiser” – trecho: I Feel So Free
Importante destaque é a produção de Stuart Price, parceiro de Madonna em Confessions on a Dance Floor (2005). Sua assinatura aparece novamente na construção de uma narrativa sonora fluida, com transições elegantes, sintetizadores refinados e beats que fazem sentido dentro da obra como um todo. Mais do que produzir faixas para a pista, Price ajuda a transformar Confessions II em uma experiência de escuta que equilibra dança, emoção e contemplação.
O resultado é uma pista de dança bem desenhadinha e com enorme inteligência narrativa – impossível não associar a sabedoria sonora dos eternos Daft Punk. Os beats chegam lapidados, as transições acontecem com naturalidade e, pouco a pouco, o corpo deixa de apenas acompanhar o ritmo para passar a habitar aquele universo.
“As pessoas acham que a dance music é superficial / Mas elas estão completamente enganadas / A pista de dança não é apenas um lugar / É portal / Um espaço ritualístico / Onde o movimento substitui a linguagem” – trecho: One Step Away
É impossível não lembrar que Madonna sempre compreendeu a pista como um lugar de encontro. Mas aqui existe algo além da celebração. Penso que há uma intenção, um percurso. Existe uma história sendo contada através da música.
Cenas do curta metragem “Confessions II – The Film” – divulgação.
O que mais me surpreendeu foi a mudança de atmosfera nos momentos finais do disco. As últimas faixas desaceleram a pulsação e conduzem o ouvinte para uma espécie de chill out emocional. Depois da euforia, chega a contemplação. Depois do movimento, o silêncio interno. As mensagens tornam-se mais íntimas, apontando para uma espécie de reconstrução pessoal. Como se toda aquela energia compartilhada na pista preparasse o terreno para um reencontro consigo mesmo.
“Eu não estava perdida / Estava apenas despedaçada / Eles tentaram me derrubar / Eu não estou nem ai / Meus pecados são minha salvação” – trecho: My Sins Are My Savior
Foi impossível não lembrar do texto que publiquei na semana passada sobre A Escuta em Tempos de Excesso (link). Escrevi ali que talvez tenhamos desaprendido a ouvir álbuns conceituais. Confessions II parece responder exatamente a essa inquietação. Não é um disco para ser fragmentado. Ele convida à permanência, pede que atravessemos sua arquitetura sonora do começo ao fim. E, quando fazemos esse percurso, percebemos que dançar nunca foi apenas movimentar o corpo. Sempre foi uma forma de reorganizar a alma.
Talvez seja justamente essa a maior beleza deste novo trabalho. Ele não fala apenas sobre sair com amigos, ocupar uma pista de dança ou celebrar até o amanhecer. Fala sobre algo muito mais profundo: a necessidade que temos de criar espaços onde possamos aliviar o peso do mundo que insiste em nos endurecer. Há décadas Madonna entende que a música eletrônica nunca serviu apenas para divertir. Ela também acolhe, aproxima pessoas, dissolve fronteiras e oferece, por algumas horas, uma suspensão das durezas da vida cotidiana.
Ao terminar a audição, fiquei com a sensação de que o verdadeiro confessionário deste álbum não está nas letras, mas na própria pista de dança. É ali que deixamos nossas máscaras, nossos medos e nossas armaduras sociais. É ali que confessamos quem realmente somos sem precisar dizer uma única palavra. Talvez por isso Confessions II soe tão atual. Em um mundo que nos pede velocidade, produtividade e atenção fragmentada, Madonna responde oferecendo uma experiência que exige exatamente o contrário: presença.
Cenas do curta metragem “Confessions II – The Film” – divulgação.
O maior convite deste álbum não é apenas ouvir suas músicas, mas permitir que elas nos atravessem. Porque existem discos que entretêm. Outros emocionam. Alguns poucos, porém, nos lembram que dançar também pode ser um ato de cura. E quando isso acontece, já não estamos apenas diante de um novo lançamento. Estamos diante de uma obra que transforma a pista de dança em um espaço de reencontro com aquilo que existe de mais humano em nós.
Quero também trazer o já icônico “Confessions II – The Film” (link) – um curta metragem lançado em 05 de junho no Festival de Cinema de Tribeca e disponibilizado três dias depois no Youtube. Uma produção de Torso, propõe um história sobre seis das faixas lançadas no álbum, numa experiência imersiva forte e vibrante, recheada de participações especiais.
Vida longa às confissões feitas através da música – Leollo Lanzone





