
Sou gay. E antes mesmo de compreender completamente quem eu era, algumas músicas já me compreendiam: “Qual quer maneira de amor vale amar.”
Muito antes das discussões sobre representatividade ganharem espaço na televisão, nas redes sociais ou nas políticas públicas, a música já nos oferecia algo precioso: acolhimento. Para muitas pessoas LGBT+, as canções chegaram primeiro. Vieram antes da coragem de se assumir, antes da primeira Parada do Orgulho, antes da sensação de pertencimento. Em muitos casos, foram elas que nos ajudaram a atravessar a solidão, o medo e a dúvida.
Talvez por isso a música ocupe um lugar tão especial em nossa comunidade. Ela não é apenas entretenimento. É memória, companhia e identidade. É um espaço simbólico onde aprendemos que existiam outras pessoas como nós, vivendo, amando, dançando e resistindo.
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A vida é uma pista de dança
Enquanto muita gente encontrava pertencimento em ambientes familiares, religiosos ou sociais, parte da comunidade LGBT+ precisou construir seus próprios territórios afetivos. E um desses territórios sempre foi a música. As pistas de dança, os clubes, as boates e os festivais transformaram-se em lugares onde era possível existir sem pedir licença.
Eu mesmo vivi parte dessa descoberta através desses espaços. Frequentando casas como Gents, ABC Bailão, Massivo, Mad Queen, Flex, The Week, Blue Space, A Lôca, D-Edge e tantas outras, aprendi que uma pista de dança pode ser muito mais do que um lugar para se divertir. Ela pode funcionar como um ponto de encontro entre histórias parecidas, onde diferenças são celebradas e não escondidas. Entre DJs, luzes e batidas, encontrei uma comunidade que me ajudou a compreender melhor quem eu era.
Ao som da DJ Glacia Mais Mais, aprendi sobre curtir uma pista diversa e conectada.
Ao som do DJ João Neto, vivi a pista alinhada numa mesma alma sonora.
E cada geração LGBT+ teve sua própria trilha sonora.
Alguns encontraram coragem nas palavras de Cazuza e Renato Russo. Outros se reconheceram na liberdade artística de Marina Lima e Ângela Rô Rô. Houve quem descobrisse novas possibilidades de existência ouvindo Daniela Mercury, Ana Carolina ou Lulu Santos. Mais recentemente, artistas como Liniker, Gloria Groove, Pabllo Vittar, Ludmilla e Jão passaram a ocupar esse papel de inspiração para uma nova geração que busca referências mais próximas de sua realidade.
O mais interessante é que essas músicas nem sempre falavam explicitamente sobre sexualidade. Muitas vezes, bastava que transmitissem liberdade, autenticidade ou coragem. Bastava ouvir uma letra, uma interpretação ou uma atitude artística para percebermos uma mensagem silenciosa, mas poderosa: você existe, você pertence, você não está sozinho.
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A rua convoca. A música também.
Neste fim de semana, milhões de pessoas ocuparão a Avenida Paulista para mais uma edição da Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo. Será uma celebração da diversidade, mas também um momento de reafirmação de direitos, memórias e conquistas.
Mas antes de aprendermos a ocupar as ruas, aprendemos a ocupar as pistas.
Antes de carregarmos bandeiras, carregamos refrões.
Antes de gritarmos palavras de ordem, cantávamos letras que nos ajudavam a existir.
A música sempre esteve presente nos momentos mais importantes da nossa trajetória coletiva. Ela embalou encontros, acolheu despedidas, celebrou amores, transformou dores em movimento e deu voz a sentimentos que nem sempre encontravam espaço em outros lugares.
Por isso, quando milhares de pessoas caminham juntas durante a Parada, existe algo invisível acompanhando cada passo: uma trilha sonora construída ao longo de décadas de resistência, afeto e liberdade.
Neste domingo, alguns irão pela festa.
Outros irão pela luta.
Muitos irão pelos dois motivos.
Mas suspeito que todos levarão consigo uma trilha sonora invisível.
Aquela música que ajudou a atravessar o medo.
Aquela voz que ensinou que viver com orgulho é possível.
Aquele refrão que serviu de abraço quando o mundo parecia pouco acolhedor.
Porque o orgulho também se canta.
E talvez seja por isso que a música continue sendo uma das formas mais bonitas de resistência que a nossa comunidade já criou.
Vida longa ao som bom (em um bom som).
#HappyPride prá todo o Mundo que é Orgulho — Leollo Lanzone
#FicaLokaMasNãoFicaBurra





