
Olá, bichas deste país varonil…
Hoje eu estou brava. Não é uma braveza de bater porta. É pior. É aquela braveza silenciosa de quem já ouviu certas coisas tantas vezes que começa a pensar: minha filha, você realmente está escolhendo viver assim?
Então sente. Tome seu café. E escute a sua amiga Jorgina.
Beecha, fica lôka. Mas não fica burra. Porque tem gente confundindo opinião com sentença, passado com destino. Confundindo vergonha com identidade, crueldade com sinceridade e, pior ainda, confundindo a própria ignorância com personalidade forte.
Vou começar por uma coisa que considero libertadora: nada em nós é sentença. Somos mapas que se redesenham. Histórias em movimento, feitas de possibilidades. Você não é obrigada a continuar sendo a pessoa que foi aos vinte anos. Nem aos trinta. Nem ontem.
A cada mudança fica um pedaço da sua versão anterior. E está tudo bem. Algumas versões nossas merecem ser guardadas com carinho. Outras merecem apenas um enterro discreto, sem missa de sétimo dia.
Aceitar que quase toda escolha da vida funciona assim: ela funciona por um tempo, depois cansa e a gente ajusta. Só que, para não parecer derrota, inventamos uma palavra nova.
Não deu errado. “Foi um aprendizado.”
Não quero mais. “Estou ressignificando.”
Não sei. “Estou em processo.”
Não aguento mais essa pessoa. “Estou estabelecendo limites.”

Minha filha, às vezes é exatamente isso mesmo. Mas às vezes é só uma maneira elegante de não admitir que alguma coisa acabou. E eu não estou dizendo que devemos sair por aí contando tudo para todo mundo. Deus me livre. Privacidade também é uma elegante inteligência.
Mas uma coisa é preservar a própria intimidade. Outra é transformar a mentira em decoração da vida. Porque ninguém mente exatamente. Só escolhe a palavra que deixa a história mais apresentável do que ela realmente foi. E isso acontece o tempo inteiro. Na vida pessoal, nos relacionamentos e no trabalho. Nas redes sociais, nas empresas e nas famílias.
A pessoa fala “mudança de ciclo” quando queria dizer “não aguentei mais”. Fala “novo desafio” quando queria dizer “me mandaram embora”. Fala “estou priorizando minha paz” quando talvez ainda esteja furiosa. E tudo bem.
O problema começa quando a palavra bonita deixa de ser uma maneira de organizar a experiência e passa a ser uma maneira de fugir dela. E aqui entra uma palavra que muita gente adora falar, mas pouca gente pratica: consciência.
A comunicação muda. O vocabulário muda. Os ambientes profissionais mudam. As relações sociais mudam. As palavras que usamos para explicar quem somos também mudam. Isso é orgânico e pode ser muito positivo.
Quando aprendemos palavras novas, também aprendemos maneiras novas de pensar. Quando ampliamos nosso vocabulário, ampliamos nossa percepção. E quando mudamos a maneira de conversar, podemos elevar o nível da conversa. Mas tem gente usando a boca como arma.
Minha filha, tem pessoas que parecem ter sido derivadas de uma piscina rasa de DNA. Crápulas. Manipuladores sociais. Gente que sabe exatamente onde colocar uma palavra para diminuir alguém, provocar vergonha, criar culpa ou fazer o outro duvidar de si mesmo. E depois ainda dizem: “Eu só fui sincero.”
Não, beecha. Você foi cruel. Sinceridade sem responsabilidade é apenas grosseria usando roupa social. E eu já estou cansada dessa história de que ser agressivo é sinal de força. Não é. Às vezes é apenas insegurança fazendo barulho.
Aliás, tenho aprendido que coragem e vulnerabilidade andam juntas. A gente costuma imaginar uma pessoa corajosa como alguém que não sente vergonha, não tem medo, não se abala. Bobagem.
A resiliência à vergonha nasce de uma prática contínua. É reconhecer a vergonha e compreender seus mecanismos. É desenvolver consciência crítica. É permitir-se ser acessível. É conseguir falar sobre aquilo que nos envergonha.
Porque vergonha cresce no escuro. Ao colocarmos alguma coisa em palavras, ela começa a perder parte do poder que tinha sobre nós. E isso vale para muita coisa.
Portanto, exibir nossa arte. Publicar um texto. Mostrar uma fotografia. Apresentar uma ideia. Abrir um projeto. Dizer que estamos apaixonados. Começar alguma coisa nova. Tudo isso é vulnerabilidade.
Você coloca alguma parte de si no mundo sem nenhuma garantia de que será aceita. E isso exige coragem. Talvez por isso tanta gente prefira criticar antes de criar. É mais seguro apontar defeitos na obra alheia do que colocar a própria obra na mesa. Mais fácil dizer que alguém é ridículo do que admitir: eu tenho medo de tentar.

E existe ainda outra vulnerabilidade que quase ninguém gosta de discutir: a vulnerabilidade de estar feliz. Já falei disso aqui. Mas vou repetir porque algumas bichas parecem ter memória seletiva.
A vida tem vulnerabilidade física: doença, cura, envelhecimento, aquilo que acontece no nosso corpo e nos lembra que não controlamos tudo. E tem a vulnerabilidade pessoal: autoestima, percepção, adequação, pertencimento.
Essa última é danada. Porque ela faz a gente perguntar: Será que eu ainda sirvo para isso? Será que ainda pertenço aqui? Será que posso mudar? Será que posso começar de novo?
Pode. Pode tudo isso. E deveria. Aliás, o mais fundo do meu sonho é uma lucidez. É conseguir olhar para si mesma e perceber: isso aqui já não funciona para mim. E então mudar.
Estar na moda, minhas filhas, não é copiar o que todo mundo está fazendo. Estar na moda é saber sublinhar a própria personalidade, marcando-a com a data de hoje. Porque se você passa a vida inteira tentando ser uma versão aceitável para os outros, corre o risco de ficar muito bem adaptada a uma vida que não é sua.
E eu não quero isso para vocês. Quero que vocês aprendam a mudar. Quero que aprendam a reconhecer quando uma palavra já não serve. Quando uma relação já não cabe. Quando uma profissão já não faz sentido. Quando uma pessoa precisa ser perdoada. Quando outra precisa ser mandada para aquele lugar.
Entendam uma coisa que levei muitos anos para aprender: A liberdade tem expediente. Ninguém nos avisa isso quando fala de liberdade. Liberdade tem que lavar roupa. Tem que preparar comida. Tem que cuidar do orçamento. Pagar imposto. Resolver documento. Escolher onde morar. Escolher com quem conviver. Arcar com as consequências das próprias escolhas.
Liberdade é maravilhosa, mas não vem com assessora exclusiva 24 horas. E talvez seja por isso que tanta gente prefira que alguém escolha por ela. Dá menos trabalho. Só que, quando você entrega todas as suas escolhas para outra pessoa, depois não adianta reclamar da vida que recebeu. Isso vale até para a velocidade com que vivemos.
Agora inventaram o slowmadismo, essa ideia de permanecer mais tempo em cada lugar, em vez de viver pulando de cidade em cidade como se a vida fosse uma sequência de check-ins. E eu acho interessante. Não porque devamos todos virar nômades lentos.
Mas porque existe uma pergunta escondida aí: será que o problema sempre foi a velocidade? Talvez não. Talvez o problema seja nunca permanecer tempo suficiente para conhecer alguma coisa. Nem uma cidade. Nem uma pessoa. Nem um trabalho. Nem nós mesmos.
Queremos novidade o tempo inteiro e depois reclamamos que não temos profundidade.
Minha filha, profundidade exige permanência. Relacionamento exige presença. Aprendizado exige repetição. Autoconhecimento exige silêncio. E silêncio, convenhamos, é uma coisa que algumas bichas de alma precisam reaprender a suportar.
Porque ficar cinco minutos sem estímulo já parece uma emergência nacional. É telefone. É vídeo. É mensagem. É notícia. É gente falando. É gente brigando. É gente vendendo curso para ensinar você a viver a vida que ela mesma não sabe viver. Beecha, você precisa dar sua opinião em tudo?
Respira. Pensa. Escolhe. E, principalmente, não tenha vergonha de rever aquilo que você pensava. Porque mudar de ideia não é fracasso. É movimento. E movimento é vida.

Eu mesma já mudei de nome, de roupa, de profissão, de amor, de opinião e de caminho. Algumas mudanças foram planejadas, outras empurradas pela vida. Algumas doeram outras deram um alívio danado. Mas todas deixaram alguma coisa. Uma versão anterior de mim. Uma palavra nova. Uma cicatriz.
Agora, minhas filhas, antes que alguém diga que esta coluna ficou séria demais, vou terminar como toda bicha esclarecida deveria terminar uma bronca: com um pouco de humor.
Clarice Lispector, certa vez, ensinou uma receita para lidar com baratas. A receita levava açúcar, farinha e gesso, em doses iguais. As baratinhas, atraídas pela iguaria, faziam o que qualquer criatura gulosa faria: comiam. E o gesso fazia o resto. Na manhã seguinte, madame, dezenas de baratas durinhas enfeitarão como estátuas a vossa cozinha.
Não vou entrar aqui em detalhes sobre a biologia do assunto porque não sou especialista em baratas e tenho uma reputação a preservar. Mas fiquei pensando que, algumas ideias funcionem exatamente assim: chegam doces, parecem inofensivas. A gente engole porque alguém falou com convicção. E depois endurecem dentro da gente. Ficam difíceis de remover.
Então, antes de engolir qualquer coisa que alguém lhe ofereça (uma opinião, uma certeza, uma culpa, uma vergonha, uma verdade absoluta ou até uma receita de vida), mastigue com cuidado, pois você pode ter a chance de cuspir antes de engolir.
Por favor, melhorem. Eu não vou viver para sempre.
Madame Jorgina, sua criada.
#FicaLokaMasNãoFicaBurra





