
No último artigo, falei sobre a crise do masculino em nossas sociedades ocidentais. Hoje, quero ir à raiz dessa crise: de onde vem essa síndrome coletiva de Peter Pan? A resposta é mais simples do que parece. Em grande parte, ela nasce da perda dos ritos de passagem.
Em muitas culturas — e até na nossa, no passado — o jovem masculino não chegava à vida adulta por acaso. Havia rituais, cerimônias, separações e provações que o guiavam. Em algumas tradições nativas dos Estados Unidos, por exemplo, o adolescente partia sozinho em uma jornada de busca, isolando-se até receber uma visão que definisse seu papel como adulto na sociedade. Esse processo marcava a transição.
Na Nova Guiné, os meninos Sambia eram raptados pelos homens da vila, sob protestos dramáticos (muitas vezes encenados) das mães e iam viver em “casas masculinas” para aprenderem a ser homens.
E nós? Onde estão nossos ritos de passagem? Infelizmente perdemos isso. Com a revolução industrial, pais foram para fábricas. Guerras sucessivas também levaram embora muitos homens. Muitos morreram nos conflitos do século XX. Filhos ficaram órfãos de referência masculina. Sem tempo, sem presença, sem rito. Criados apenas pelas mães, aprenderam a ser filhos, mas não homens.
Neste contexto, esse conceito de “filho” acaba sendo uma deturpação do arquétipo masculino. Você sabe o que é um arquétipo? Os arquétipos são moldes da experiência humana, padrões de potencialidades. O arquétipo masculino é um desses moldes, presente em homens e mulheres, que se manifesta em características como responsabilidade, capacidade de ação, estabilidade emocional, respeito pelos outros, integridade, resiliência e propósito.
Mas nem sempre esse potencial se realiza. Quando imaturo, o arquétipo pode se manifestar de formas negativas, com características como dispersão, impulsividade, irresponsabilidade, arrogância, egocentrismo, e por aí vai.
Assim, fica claro (pelo menos para mim) que o problema atual está, em grande parte, nas distorções desses potenciais legítimos. Em vez de autorreferência, egocentrismo. Em vez de autonomia, dependência. Em vez de firmeza, agressividade. Em vez de confiança, medo.
Nos grupos terapêuticos de agressores em casos de violência doméstica, trabalhamos com a dinâmica chamada power over: indivíduos que procuram dominar porque têm medo das parceiras. Indivíduos que projetam a própria sombra no outro. Isso cria uma dependência, e essa dependência cria uma relação imatura: uma relação entre mãe e filho.
Aqueles que amadurecem no programa passam a agir com uma nova dinâmica, power with, baseada em colaboração e compartilhamento. Uma relação entre parceiros; entre homem e mulher adultos.
A boa notícia é que mudanças como essas estão acontecendo. Homens e mulheres sentem o peso dessa herança e buscam amadurecer. Esse é o nosso rito de passagem moderno: atravessar o desconhecido guiado por quem já passou, encarar a própria imaturidade e expô-la diante de outros para que possa ser transformada, integrada.
Começar a se conhecer, enfrentar suas próprias sombras e buscar maturidade não é apenas um presente para si mesmo/a. Também é algo valioso para passar às crianças que estão crescendo agora, mostrando que amadurecer e assumir responsabilidades vale a pena. E a melhor parte é que isso pode ser feito em qualquer idade. Antes tarde do que nunca.





