
Quanto mais conteúdo disponível, maior a possibilidade de capturar atenção. Quanto mais barato produzir, maior a margem. Quanto mais músicas circulando, maior a quantidade de reproduções possíveis.
E aí chegamos ao streaming. Quem ganha quando todo mundo ouve? Plataformas digitais precisam de conteúdo. Muito conteúdo. E a inteligência artificial consegue produzir conteúdo em velocidade que nenhum compositor humano consegue acompanhar.
Não estou dizendo que as plataformas simplesmente “ganham dinheiro com músicas de IA”. Como se existisse uma única fórmula ou um único modelo de remuneração. Já que cada plataforma tem uma estratégia diferente para atrair ouvintes e também reter os produtores de música. A realidade é mais complexa.
O que acontece quando o custo para produzir música despenca e a quantidade de música disponível explode?
A própria indústria já começou a reagir. Um exemplo vem pelo Spotify, que anunciou em 2026 a remoção de dezenas de milhões de faixas consideradas spam ou conteúdo abusivo, em meio ao crescimento da produção musical automatizada e de catálogos produzidos em escala.
Isso não significa que toda música feita com IA seja lixo. Nem que todo artista que utiliza IA esteja enganando alguém. Significa que o ambiente musical está tentando descobrir como separar criação de fabricação. E essa será uma das grandes questões culturais dos próximos anos.

A inteligência artificial consegue sentir saudade?
Aqui eu volto para uma pergunta que gosto mais. A máquina consegue produzir uma música sobre saudade? Consegue, pois pode analisar milhões de músicas sobre saudade, identificar padrões harmônicos, palavras recorrentes, estruturas melódicas e características vocais associadas à emoção.
Pode criar uma canção que nos faça lembrar de alguém. Mas existe uma diferença entre produzir uma representação de uma emoção e ter vivido aquilo que está sendo representado. Uma máquina não perdeu minha mãe. Não terminou meu relacionamento. Não ficou acordada às três da manhã pensando em alguém. Não dançou sozinho numa pista de dança tentando descobrir quem era depois de uma fase difícil da vida.
Ela não carrega memória, mas sim carrega dados. E aqui chegamos onde a discussão fica mais bonita: Porque música não é apenas combinação de sons. É também experiência. É memória. É contexto. É identidade. É aquele disco que alguém ouviu durante uma separação. É a música que tocou no carro quando uma pessoa recebeu uma notícia que mudou sua vida.
É a canção que uma mãe cantava enquanto cozinhava. É o beat que alguém descobriu numa pista e que, anos depois, ainda consegue devolver aquele corpo para aquele momento. A música não carrega apenas som. Ela carrega vida.
Escrevi isso aqui no Balaio tempos atrás, mas vale repetir: Tecnologia não dá talento para ninguém. Ela amplia possibilidades. Facilita processos. Acelera experimentações. No caso da música, pode democratizar ferramentas antes restritas a grandes estúdios.
Pode ajudar um músico a testar uma ideia. Pode permitir que alguém transforme uma melodia imaginada em uma primeira experiência sonora. Pode ser maravilhosa. Mas também pode ser usada para copiar, imitar, enganar, explorar e fabricar.
A ferramenta não escolhe o caráter de quem a utiliza. Nós escolhemos. Por isso, talvez a pergunta não seja: “A inteligência artificial vai acabar com a música?” Não vai.
A música sobreviveu ao rádio, à televisão, ao videocassete, ao CD, ao MP3, ao download, ao streaming e a todas as previsões apocalípticas que apareceram pelo caminho. Ela provavelmente sobreviverá à inteligência artificial também.

A pergunta mais importante talvez seja outra: Que tipo de música queremos colocar no mundo quando podemos produzir música praticamente sem limites?
Porque, quando tudo pode ser criado rapidamente, talvez aquilo que realmente mereça nossa atenção seja justamente o que não pode ser produzido em segundos.
Uma história, uma experiência, uma identidade ou uma intenção. Também pode representar um corpo, um toque, a memória de um cheiro. Uma voz que não apenas reproduz emoção, mas carrega alguma coisa dentro dela.
Penso que é por isso que ainda precisamos saber quem está por trás do som. Não para rejeitar a tecnologia, mas para não esquecer que, antes de ser arquivo, faixa, stream ou algoritmo, música é uma forma humana de dizer: “Eu estive aqui. Eu senti isso. Eu vivi alguma coisa. E transformei em som.”
Relíquia contemporânea feita por I.A.
Um exemplo brazuka, me parece curioso e bonito nessa discussão. Nomeado como Vozes de Aruanda, esse projeto criado por Allan Souza, umbandista, nasceu do desejo de transformar em música conteúdos ligados à espiritualidade afro-brasileira. Souza começou a utilizar inteligência artificial para gerar músicas a partir de textos e discussões que surgiam no terreiro. O resultado é algo que vai muito além de simplesmente “fazer música com IA”: pensamentos, conselhos, referências à ancestralidade e conteúdos religiosos ganham melodias, vozes e arranjos sintéticos, transformando em experiência sonora aquilo que talvez jamais chegasse a ser musicado. É como se uma tecnologia contemporânea encontrasse uma tradição profundamente marcada pela oralidade e oferecesse uma nova maneira de preservar, compartilhar e fazer circular seus pensamentos.
E os números mostram que essa experiência encontrou público. O perfil de Vozes de Aruanda no Spotify registra atualmente cerca de 93 mil ouvintes mensais e uma discografia que já reúne diversos álbuns, EPs e singles. Uma de suas faixas mais populares, Força E Intuição, ultrapassa 1,1 milhão de reproduções, enquanto Céu da Gratidão já passa de 780 mil e O Que Te Faz Ser Você? supera 500 mil.
O álbum Fé E Axé!, lançado em junho de 2026, reúne 18 faixas e mais de uma hora de música. Não sei se devemos chamar isso de “música artificial”. Há inteligência artificial no processo, certamente. Mas existe também pesquisa, intenção, repertório cultural e, principalmente, alguém que decidiu correr atrás da tecnologia para transformar aquilo que escutava e vivia em seu ambiente religioso em outra forma de escuta.
Uma espécie de relíquia contemporânea: a tecnologia oferecendo uma nova forma de guardar e espalhar uma cultura oral, mas dependendo da criatividade e do empenho de um ser humano para existir.
No fim, talvez Fred Zero Quatro estivesse certo. Os computadores avançaram e os artistas pegaram carona. Só que agora a carona chegou a um lugar inesperado: a própria criação.
Cabe a nós decidir se vamos apenas consumir tudo o que uma máquina consegue produzir ou se continuaremos procurando aquilo que só uma boa história consegue colocar dentro de uma música.
Vida longa ao som bom: porque tecnologia pode produzir sons, mas histórias ainda precisam de alguém para vivê-las – Leollo Lanzone





