
Olá, nobres audiófilos.
Antes de falar de inteligência artificial, quero voltar no tempo. Em 2003, Fred Zero Quatro escreveu:
“Computadores fazem arte. Artistas fazem dinheiro.
Computadores avançam. Artistas pegam carona.
Cientistas criam o novo. Artistas levam a fama.”
A música foi gravada por Elza Soares no álbum Vivo Feliz (2003). Mais de vinte anos depois é necessário admitir: esse artista já tinha entendido alguma coisa sobre tecnologia e arte.
Naquela época, computadores ainda estavam longe de produzir uma música inteira com alguns comandos. Hoje, existem ferramentas capazes de criar melodias, harmonias, arranjos, vozes e até músicas completas a partir de instruções relativamente simples.
A tecnologia deixou de ser apenas instrumento de quem faz música. Agora ela também pode participar da criação. E aqui começa a conversa.
Imagine encontrar uma música nova em uma plataforma de streaming. A produção é impecável, a voz é bonita e o arranjo funciona. O refrão gruda na mente, a batida dá vontade de mexer o pé. Você gosta e salva direto em uma playlist. Talvez até compartilhe com alguém que você adora.
Mas quem fez? Será que foi alguém que escreveu meia dúzia de comandos para uma inteligência artificial e apertou o botão? E será que isso muda alguma coisa? Para mim, muda. Não porque uma música feita com inteligência artificial seja ruim. Aliás, essa seria uma discussão muito simplista. O problema não é a IA, mas sim o uso que fazemos dela.

A história da música sempre foi atravessada pela tecnologia. O microfone mudou a voz. A guitarra elétrica mudou o rock. Os sintetizadores mudaram a música eletrônica. A bateria eletrônica mudou o pop. O sampler transformou a produção musical. O computador colocou um estúdio inteiro dentro de uma sala. Muita produção nesse formato, salpicou nas redes, durante o período de confinamento dos tempos de pandemia de COVID-19. Ser Humano ocioso e tecnologia, combinam demais.
A tecnologia nunca deixou de participar da música. A questão é outra: o que acontece quando a ferramenta começa a ocupar o lugar de quem cria? Passamos então, a repensar o que é criação.
O ouvido percebe? Será que conseguimos identificar uma música feita por inteligência artificial? Às vezes, sim.
Aquela voz excessivamente perfeita. O arranjo que parece correto demais. A letra que diz coisas emocionalmente adequadas, mas não necessariamente vividas. Uma certa sensação de déjà vu sonoro.
Mas, muitas vezes, não saberemos diferenciar. Aqui nasce um dos pontos mais desconfortáveis da conversa: uma música não precisa ser criada por um ser humano para provocar uma reação humana.
Uma máquina pode produzir algo que nos faça dançar. Criar uma melodia bonita ou reproduzir uma determinada estética. Consegue simular uma voz, combinar referências que já existem e apresentar aquilo como algo novo. Seu ouvido pode gostar. Mas gostar não resolve a questão da autoria. E é aí que o Balaio fica mais interessante.
Imagine que alguém pega elementos reconhecíveis de uma obra existente, modifica estrutura, instrumentos, voz, andamento, acrescenta recursos digitais e apresenta o resultado como uma nova criação.
Onde termina a releitura e onde começa a apropriação? Quando uma referência vira cópia? Quando uma homenagem vira exploração? E, principalmente: quem ganha dinheiro com isso?
A discussão ganhou um exemplo bastante concreto na Austrália em 2026. A Australian Recording Industry Association (ARIA), decidiu excluir das paradas e das premiações nacionais, músicas predominantemente geradas por inteligência artificial. A entidade estabeleceu critérios para o uso de IA em funções secundárias, como determinadas etapas de produção. Mas preservando a participação humana na composição, nos vocais principais e nos instrumentos-base.
A decisão veio depois da repercussão de uma versão produzida por inteligência artificial pelo DJ Josh Fawaz, de Like a Prayer, grande hit de Madonna. Essa produção chegou a ocupar posição de destaque nas paradas australianas e provocou essa grande discussão sobre autoria, direitos e criação.
E olha que interessante: A discussão não é mais sobre uma possibilidade futura. Ela já está acontecendo na cena musical que ouvimos hoje.

Fábrica de músicas
Existe ainda outro problema. A inteligência artificial tornou possível produzir música em uma escala gigantesca. Rapidamente e muito barato. E, em determinados casos, sem que exista sequer um artista claramente identificável por trás daquele catálogo.
Estamos diante de novos artistas ou diante de novas formas de fabricar catálogo?
Porque uma coisa é um músico utilizar inteligência artificial como ferramenta criativa. Outra é alguém produzir centenas, milhares de faixas, colocá-las em plataformas digitais e disputar espaço, playlists, buscas e reproduções com artistas que passaram anos estudando, compondo, ensaiando, gravando e construindo uma identidade.
A música deixa de ser somente uma obra. Pode virar estoque. E, quando isso acontece, a lógica da indústria musical encontra uma velha conhecida: a escala (fazer mais e mais, de forma rápida e barata). Repete comigo: BUSINESS.
Audiófilos, o papo não acabou. Semana que vem trago a segunda parte desse babado musical, entre criação e fabricação.
Vida longa ao som bom, criado por quem ainda tem histórias para contar – Leollo Lanzone





