
A coluna Balaio do Leollo recebe hoje uma convidada mais do que especial: Madame Jorgina.
Amiga de longa data, conselheira em momentos decisivos e observadora atenta das pessoas, dos afetos e das pistas de dança, ela aceitou o convite para estrear neste espaço compartilhando suas impressões sobre uma das festas que movimentaram a Semana da Parada de São Paulo.
No último dia 6 de junho, o espaço Sonora Garden, localizado no complexo da Portuguesa, recebeu a festa Apogeu. No comando da trilha sonora estiveram os DJs Christian, Bruno Moutinho, Carola, Junyo, KVSH, Liu e Sandeville. Cada artista apresentou sua própria identidade musical, conduzindo uma pista que soube valorizar cada batida, cada construção e cada momento da jornada sonora.
Entre amigos, música e muitas horas de dança, Leollo e Madame Jorgina dividiram a mesma pista. Da experiência nasceu a ideia deste texto: um olhar sensível, divertido e provocador sobre a cultura de pista, o comportamento das pessoas e aquilo que realmente transforma uma festa em uma experiência memorável.
Com vocês, Madame Jorgina — a amiga da bicha esclarecida.

Festa APOGEU e outras formas de iluminação
Existe uma diferença importante entre uma festa e uma aglomeração de pessoas ouvindo música alta.
A primeira produz encontros. A segunda produz filas.
A Festa Apogeu, no último dia 06.junho me fez lembrar disso.
Cheguei sem grandes expectativas e saí de lá com aquela sensação rara de ter participado de alguma coisa que fez sentido. Não havia papagaiada. Não havia distrações excessivas. Não havia a necessidade desesperada de parecer importante.
Havia uma pista. E, às vezes, uma pista é tudo o que uma bicha precisa.
O som caminhava sem pedir licença. Grave bonito. Grave afinado. Grave daqueles que não atacam o corpo: conversam com ele. Durante horas, fomos conduzidos por uma sequência de músicas construídas por gente que claramente compreende que pista de dança não é lugar para exibição de ego. É lugar de serviço prestado à coletividade.

Vi muitas bichas esclarecidas naquela madrugada.
E não estou falando de orientação sexual.
Estou falando daquele estado de espírito que reconhece o valor de uma experiência compartilhada.
A bicha esclarecida sabe vibrar junto.
Ela entende que certas alegrias só existem quando são coletivas.
Ela sabe que um bom refrão, um grave bem encaixado ou um nascer do sol acompanhado por centenas de desconhecidos podem ser experiências quase espirituais.
Ali ninguém parecia interessado em disputar importância.
Talvez por isso a festa tenha funcionado tão bem.

Tenho uma implicância antiga com a ideia de áreas exclusivas em baladas: Setor VIP é um conceito ultrapassado e cafona.
Sempre me pareceu curioso que alguém pague para ficar distante justamente daquilo que torna uma festa interessante: a pista.
Afinal, quem produz a energia de uma celebração não é o cercadinho elevado, nem o acesso exclusivo, nem a pulseira colorida.
Quem faz a festa é a multidão.
É a massa suada.
É o bando de malucos que aceita passar horas dançando sem qualquer objetivo além de estar presente.
Uma pista cheia de gente feliz vale mais do que qualquer área reservada.
Porque felicidade não combina muito com isolamento.
Enquanto observava aquele povo dançando, pensei que talvez a vida funcione de forma parecida.
Passamos tempo demais tentando acessar áreas VIP imaginárias.
Status.
Validação.
Reconhecimento.
Privilégios.
E esquecemos de viver a pista.
A Apogeu me lembrou disso.
Às vezes, a experiência mais luxuosa disponível é simplesmente pertencer.
E lembrem-se por favor: Fica lôka. Mas não fica burra.
Obrigado Leollo pelo convite. Amei estar aqui e expressar como sinto a música e a pista. Beeijinhos.
Madame Jorgina, sua criada.






