
Olá, gente bicha deste país varonil… Eu acho que sou meio boba. Pronto. Falei.
E antes que alguma criatura mais apressada comece a interpretar essa declaração, deixe-me explicar: não estou dizendo que sou burra. Muito menos desinformada. Burra, aliás, é outra história. E eu não tenho idade nem paciência para explicar o óbvio.
Estou falando de ser boba mesmo. Daquelas que ainda param para ouvir uma história inteira. Que acreditam que uma conversa pode mudar alguma coisa. Que se emocionam com determinadas músicas. Que às vezes confiam. Que fazem perguntas mesmo correndo o risco de parecer que não sabem.
Hoje em dia, minha filha, até para pedir um café a gente precisa parecer que fez um MBA em café. Tem que saber a origem do grão, a altitude da plantação, o método de extração, a temperatura ideal da água, a torra, a moagem… Eu só quero café. E, de preferência, bastante.
Mas fico pensando se essa necessidade de parecer que sabemos tudo não está nos deixando um pouco cansados.
E se a gente estiver se esforçando demais para não parecer bobo?
Porque o esperto, minha filha, vive em estado de alerta. Não confia. Não se entrega. Não faz perguntas porque tem medo de parecer ignorante. Não experimenta porque pode dar errado. Não demonstra afeto porque pode ser rejeitado.
Não apresenta uma ideia porque alguém pode rir. Não admite que não sabe, só porque isso pode diminuir sua imagem. Está sempre calculando. Observando. Antecipando a próxima jogada.
E talvez exista uma ironia nisso tudo. Às vezes, aquilo que chamamos de esperteza é apenas medo, só que muito bem vestido.
Olha que coisa… A criatura passa a vida inteira tentando não ser enganada e acaba sendo enganada pela própria necessidade de controle.

Eu não estou defendendo ingenuidade, minha filha. Não estou dizendo para acreditar em qualquer criatura que mande “bom dia” no WhatsApp acompanhado de uma florzinha e depois peça dinheiro emprestado.
Também não estou falando daquela falta de discernimento que faz a pessoa cair em qualquer conversa. Não confundir boba com burra.
Ser boba, nesse sentido, é outra coisa. É preservar uma certa disponibilidade diante da vida. É conseguir parar. Observar. Ouvir. Ficar curiosa. Perguntar. Imaginar.
É conversar com alguém sem calcular o que você pode ganhar com aquela conversa. É fazer alguma coisa simplesmente porque aquilo lhe dá prazer. É, de vez em quando, deixar a vida surpreender você. E principalmente: não precisar transformar tudo imediatamente em vantagem.
Só que aí eu fui perceber que ser boba tem um problema sério. O mundo também pode machucar quem aparece sem armadura. E é aqui que entra uma palavra que muita gente conhece, mas pouca gente gosta de encarar: vergonha.
Estou falando daquela vergonha mais funda. Aquela que faz a gente esconder partes de nós mesmos. A vergonha é uma criatura muito esperta. Ela faz a gente acreditar que, se escondermos aquilo que somos, estaremos protegidos.
Só que, às vezes, para não sermos rejeitados, começamos a rejeitar a nós mesmos. E penso que coragem não é ser isento de sentir vergonha. Acredito que coragem seja aprender a atravessá-la.
Reconhecer aquilo que sentimos. Perceber as histórias que contamos para nós mesmos. Encontrar pessoas diante das quais possamos baixar a guarda. E, quando for possível, falar sobre aquilo que nos envergonha.
Porque tem coisa que diminui quando ganha palavra. Tem medo que fica menor quando encontra escuta. Tem vergonha que perde força quando descobre que não é só nossa.
E tem uma liberdade enorme em poder dizer:
“É isso que eu sou.”
“É isso que estou sentindo.”
“É isso que ainda não sei.”
Sem precisar transformar cada uma dessas frases em uma justificativa. Por isso que eu gosto tanto da ideia de uma pessoa plena. Não perfeita. Plena.
Uma pessoa capaz de ser autêntica, criativa, grata, flexível. Capaz de se envolver com aquilo que realmente importa. Uma pessoa que não precise passar o tempo inteiro representando uma versão melhorada de si mesma para merecer estar no mundo.

E aí eu comecei a pensar em outra coisa. Que o sentido da vida seja viver no amor. Não estou falando daquele amor de cartão de Dia dos Namorados. Estou falando de uma coisa mais simples.
Se você tem o dom da fala, fale para melhorar a vida dos outros. Se sabe ensinar, ensine. Se sabe acolher, acolha. Se sabe criar, crie alguma coisa que faça alguém enxergar o mundo de outro jeito. Se sabe servir, sirva. Se sabe ouvir, minha filha, então ouça.
Porque um talento que fica guardado, apenas para provar que somos bons ainda, não tem o menor cabimento.
O dom também é uma forma de responsabilidade. A gente recebe alguma coisa e, em algum momento, precisa decidir o que fará com ela. E isso também é uma forma de amor.
Porque saber viver não é apenas descobrir aquilo em que somos bons. Talvez seja descobrir para quem aquilo que somos bons pode fazer diferença.
É claro que ser boba pode ser perigoso. Você pode confiar em quem não deveria. Pode ser chamada de ingênua. Pode levar uma punhalada de quem menos esperava. Pode descobrir que aquela pessoa que você imaginava maravilhosa, era apenas uma criatura com excelente marketing pessoal. Acontece.
Mas existe uma outra espécie de perigo. Ficar tão esperta que você já não consegue mais viver. Não confiar em ninguém. Não experimentar. Não amar demais. Não criar. Não perguntar. Não se mostrar. Não oferecer aquilo que você tem de melhor. Passar tanto tempo protegendo o coração que, quando percebe, ele virou uma sala de espera.
Minha filha, eu prefiro correr o risco de algumas vezes parecer boba do que passar a vida inteira sendo esperta demais para viver. Porque os espertos podem até ganhar algumas disputas. Mas os bobos… Ah, os bobos ainda conseguem ganhar uma coisa muito mais difícil: A vida.
E talvez seja por isso que eu continue aqui, lendo a borra do café, ouvindo histórias, fazendo perguntas e acreditando que nem tudo precisa ter resposta imediata.
Algumas coisas precisam apenas de tempo. Outras, de coragem. E algumas, minha filha, precisam mesmo é de um pouco de bobagem.
Madame Jorgina, sua boba esclarecida.
#FicaLokaMasNãoFicaBurra





