
]Tem música que a gente escuta. E tem música que escuta o nosso corpo. Exatamente por isso que o Jungle me comove tanto.
A banda britânica formada por Josh Lloyd-Watson, Tom McFarland e Lydia Kitto construiu, ao longo de mais de uma década, uma linguagem musical muito particular. Existe ali funk, soul, disco, neo-soul, vocais em falsete, grooves dançantes e uma aura retrô que parece visitar os anos 1970 sem jamais ficar presa a eles. A música é sofisticada, mas não perde a capacidade de fazer o corpo responder.
Desde o começo, o Jungle parece ter entendido uma coisa que considero fundamental: o corpo também é instrumento. Quando a banda surgiu, em 2013, J e T chegaram a esconder suas próprias identidades nos primeiros trabalhos, deixando que os dançarinos protagonizassem muitos de seus videoclipes, vários deles realizados em plano-sequência. O movimento já estava ali antes mesmo de percebermos que ele seria parte fundamental da linguagem do grupo.
Por isso gosto de pensar que, no Jungle, o corpo é o quarto integrante da banda. E isso fica ainda mais evidente agora, com Sunshine, quinto álbum do grupo. Depois de Volcano, lançado em 2023 e descrito por Tom McFarland como um trabalho intenso e um pouco caótico, Sunshine chega mais relaxado e confiante. A banda continua fazendo aquilo que sabe fazer muito bem: música que nos convida a mexer o corpo.
E isso conversa diretamente com uma pergunta que deixei num texto recente do Balaio, O Ritmo Depois do Caos (link): depois que você atravessa a tempestade, o que faz com a calmaria?
Vejo que o álbum Sunshine poderia ser uma bela resposta musical para isso. Não é um álbum que abandonou a pista de dança. Pois continua dançante, sensual e cheio de groove. Mas parece menos interessado em provar alguma coisa.
Há mais confiança, mais espaço para respirar e uma percepção de que nostalgia, memória, dor e perda não precisam necessariamente nos colocar para baixo. Podem também nos empurrar para frente.
A própria banda fala sobre isso ao explicar que Sunshine revisita a saudade de um tempo em que eram mais felizes, mas sem transformar essa lembrança em lamento. A ideia é fazer da nostalgia um impulso para viver melhor o presente.
E aí acontece uma coisa deliciosa: a música brasileira entrou pela porta da memória. Tom conta que algumas de suas primeiras lembranças musicais envolvem ouvir em vinil nomes como Stan Getz, Gal Costa, Marcos Valle, Cassiano e Sérgio Mendes. Para ele, essas músicas eram quase uma passagem imediata para uma praia brasileira. Em Sunshine, essas referências aparecem especialmente na mistura de ritmos e nas emoções calorosas que a banda procura provocar, como acontece na faixa “The Wave”.
Isso é muito bonito porque mostra como a música viaja. Uma sonoridade ouvida décadas atrás pode atravessar uma casa em Londres, entrar na memória de uma criança e reaparecer muitos anos depois transformada em outra obra, em outro país, por outros artistas. É assim que a música continua circulando pelo mundo.

Mas Sunshine não para no áudio.
O álbum chega acompanhado de um filme formado por videoclipes coreografados por Will West e Kaycee Rice. Cada uma das 11 faixas ganhou uma história audiovisual, incluindo a participação do bailarino brasileiro Igor Martins. A banda decidiu manter essa tradição de criar vídeos para todas as músicas, mesmo reconhecendo que é um processo caro e trabalhoso. Para eles, fazer arte parece justificar o esforço.
Para acessar os onze videoclipes, é necessário pagar “um ingresso” de US$ 6.99 (através de plataforma com o conteúdo da banda). Mas, pelo Youtube no perfil da banda (link) , temos 04 vídeos disponibilizados – Sunshine, Move Like You Do, Wave e Someday, Somewhere. Todos numa qualidade de captação de imagem e sintonia entre música e dança. Um tesouro.
Cada canção ganha uma tradução corporal. O som deixa de ser apenas ouvido e passa a ser visto, interpretado, respirado. No Jungle, a música não termina quando começa a dança. Ela continua através dela.
Gostei muito da declaração de Tom que diz que dançar é algo muito importante. Para ele, reunir pessoas no mesmo espaço, cantando, dançando e suando juntas é uma experiência comunitária e profundamente humana. Algo especialmente precioso em uma época marcada pelo individualismo digital.
Isso me fez pensar que estamos precisando menos de músicas que nos façam esquecer a vida e mais de músicas que nos devolvam a ela.

Dançar pode ser uma forma de reconexão. Com o outro. Com o ambiente. Com o próprio corpo. E também com aquilo que fomos. Sunshine fala de esperança e amor, mas também de dor e perda. Fala de memória e saudade. Só que escolhe uma saída que me parece muito bonita: dançar para frente, para avançar.
Depois de tanta tempestade, talvez ainda exista groove. E isso, na minha parva opinião, é uma das maneiras mais bonitas que encontramos para continuar.
Vida longa ao som que faz a memória dançar — Leollo Lanzone





