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Explorando Sonoridades 20 – Brazuka Beat




Brazuka Beat
A tecnologia permite que produtores brasileiros dialoguem com pistas de dança de diferentes continentes, mas existe algo que nenhum software consegue instalar automaticamente em um computador: IDENTIDADE.

 

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Realmente, o BraZil tá na moda. Escrevo com Z porque parece que foi assim que descobrimos que nós, brasileiros, agora somos o “cool” que o mundo estava precisando.

Somos os bambas. Os gringos parecem estar descobrindo aquilo que nós convivemos diariamente: nossas cores e ritmos, nossa comida, nossa maneira meio caótica de juntar coisas que, em princípio, não deveriam estar juntas e que, misteriosamente, funcionam.

O mundo talvez não esteja descobrindo um Brasil novo. Está finalmente prestando atenção em um Brasil que há muito tempo produz sua própria mistura.

Até o termo Brazuka carrega uma história interessante. Surgido em Portugal com caráter depreciativo, em contraposição ao termo “portuga”, acabou apropriado pelos próprios brasileiros e transformado em símbolo de identidade. Aquilo que poderia ser usado para diminuir virou nome de pertencimento. Isso diz muita coisa sobre nós.

Nossa cultura é resultado de um gigantesco encontro, muitas vezes violento e desigual, entre povos originários, africanos, europeus, asiáticos e tantos outros que chegaram depois. Um verdadeiro coquetel de histórias, referências, idiomas, crenças, sabores, corpos e sonoridades. Somos mistura pura de DNAs e culturas. Sem dúvida, uma das maiores consequências dessa mistura esteja justamente na música brazuka.

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Porque nossas sobreposições de estilos formaram um balaio sonoro difícil de explicar e ainda mais difícil de reproduzir por quem não é dessa terra. O Brasil consegue colocar lado a lado samba, funk, MPB, disco, forró, soul, pagode, maracatu, axé, rock, música eletrônica e uma infinidade de outras referências sem necessariamente pedir licença umas às outras.

A gente mistura, depois dançamos e de algum jeito, funciona. Dessa capacidade de misturar que nasce uma parte importante do chamado Brazuka Beat.

Brazuka Beat
… “tecnologia não dá talento para ninguém.” E é verdade, pois tecnologia oferece ferramentas.

Na playlist Explorando Sonoridades 20 ed. Brazuka Beat (link para Spotify), que montei para esta edição, trago um recorte dessa produção que venho pesquisando há algum tempo: a música eletrônica brasileira e suas tantas possibilidades de conversar com o mundo.

Deep house, disco, tribal, afro house, latin house e outras vertentes tornam-se ferramentas para construir uma linguagem global. A tecnologia permite que produtores brasileiros dialoguem com pistas de dança de diferentes continentes, mas existe algo que nenhum software consegue instalar automaticamente em um computador: identidade.

Tempos atrás ouvi uma frase que ficou comigo: “tecnologia não dá talento para ninguém.” E é verdade, pois tecnologia oferece ferramentas. O que fazemos com elas depende de repertório, criatividade, sensibilidade e, principalmente, da capacidade de imaginar novas combinações.

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O computador pode até produzir o beat. Mas não sabe sozinho de onde você veio. É aí que gosto de perceber a sensibilidade do Brazuka Beat. Ele não precisa necessariamente tocar uma cuíca sobre um sintetizador para ser brasileiro. Não precisa colocar uma referência óbvia de samba ou carnaval para provar sua origem. Às vezes, a brasilidade está justamente na maneira como o produtor organiza os elementos, escolhe uma textura, cria uma cadência ou entende o corpo de quem está dançando.

É uma identidade menos literal e mais sensorial. E penso que é justamente por isso que esteja funcionando tão bem fora daqui.

Nesta edição, reuni artistas que considero importantes para observar esse movimento. Na nova geração, nomes como Brunn, Tato, Antdot, Maz, Dubdogs, Curol (essa mulher tem um repertório sensacional), Bakka, Groove Delight (projeto da paulista Ké Fernandes que tem ingredientes de rock), Victor Alc, KVSH, André Moret, Cat Dealers, Tropic, FatSync (a melhor adaptação do funk ao eletrônico), illuzione, Quant (goiano saiu daqui e foi morar em Lisboa; parace que foi prá lá, remixar nosso tica tica boom mais uma vez com nossas raízes lusitanas e africanas) e Malive mostram como essa produção continua se renovando.

Ao lado deles, artistas já consolidados como Bruce Leroys, Vizcaya, Dennis, Dre Guazelli, Sarah Stenzel, Rick Bonadio, os irmãos Bhaskar e Alok, o alfaiate da música Gui Boratto, o menino prodígio Vintage Culture, Renato Ratier (o melhor eletrônico gospel que você poderia desejar), Mochakk e o gigante DJ Meme que colocou a panela no fogo para essa feijoda sonora virar coisa séria). Essa patota toda ajuda a contar uma história que já deixou de ser apenas promessa. É uma cena em movimento.

Brazuka Beat
É uma identidade menos literal e mais sensorial. E penso que é justamente por isso que esteja funcionando tão bem fora daqui.

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E essa talvez seja a palavra mais importante aqui: movimento. Porque música eletrônica é movimento, é corpo, é repetição que nunca é exatamente igual. É uma mesma batida capaz de reunir pessoas completamente diferentes durante algumas horas em uma pista.

E nisso o Brasil tem uma experiência enorme, pois é um fato que sabemos fazer festa. Sabemos transformar dificuldade em celebração (e dificuldades o mundo tá cheio). Sabemos criar dança em lugares improváveis. Sabemos colocar alegria onde aparentemente não havia espaço para ela.

Me parece que o mundo esteja interessado nisso. Não apenas na nossa música, mas na maneira como conseguimos transformar mistura em linguagem.

Por isso, quando digo que o Brasil está na moda, não penso apenas em uma tendência passageira. Penso na possibilidade de que o mundo esteja finalmente prestando atenção em uma característica que sempre esteve aqui.

O Brasil não inventou a mistura, mas fez dela uma maneira de existir. E agora esse mix de ideias sonoras está chegando às pistas do mundo inteiro em forma de beat.

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Então coloque os fones, aumente o volume e deixe o corpo decidir. A playlist está aí para isso.

Algumas coisas não precisam ser explicadas. Elas precisam ser sentidas. Aí é o exato momento que começa o nosso Brazuka Beat.

Vida longa ao som que transforma nossa mistura em movimento – Leollo Lanzone

Leollo Lanzone

Aqui a música é a linguagem. O assunto sempre é o ser humano. Leollo é jornalista de formação, tem olhar objetivo e sensível. Mais por vício do que vontade, monta playlists para cada tipo de momento. Adora dançar eletrônico, sabe cozinhar, falar de amizade e tudo regado à café, mate e Tang. Traz opinião sobre quaaase tudo, daquilo que ele acredita somar, integrar e fazer bem. O que sobra, ele deixa para outra vida quem sabe. *Leollo Lanzone é o alter ego de Mauro Galasso, que é de verdade, mas não cabia numa persona só.




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