
Olá, bichas deste país varonil.
Antes de qualquer coisa, acho elegante me apresentar. Afinal, não é todo dia que uma ex-top drag, uma cartomante aposentada e uma atuante leitora de borra de café resolve trocar as apresentações e consultas por uma coluna digital. Embora, pensando bem, as duas profissões tenham muito em comum: em ambas a gente passa boa parte do tempo tentando entender pessoas.
Hoje, longe dos palcos, continuo encontrando brilho nos bastidores. Dedico parte do meu tempo a orientar drags em início de carreira, ajudando novas artistas a descobrirem sua própria identidade cênica. Não ensino apenas coreografias. Ensino presença, escuta, respeito à própria história e a coragem de ocupar espaços que durante muito tempo lhes disseram que não lhes pertenciam.
A cultura drag sempre foi muito mais do que entretenimento; ela é também uma forma poderosa de empoderamento, de expressão artística e de transformação social. Talvez seja por isso que eu nunca tenha deixado os palcos de verdade. Apenas troquei os refletores pelo privilégio de acender a luz de outras pessoas.
Sou natural de São Paulo, nasci na Vila Maria Alta, filha de pais ciganos e viúva do saudoso Sargento Julião, grande incentivador da minha carreira artística e responsável por boa parte das minhas melhores lembranças. Vivi muitos anos sob os refletores, entre montações, saltos altos e uma respeitável coleção de joanetes. Quando os palcos ficaram pequenos para as perguntas que a vida começou a me fazer, aceitei outro chamado: passei a ler cartas de tarô e borra de café.
Durante décadas ouvi histórias de amor, medo, coragem, vaidade, fracasso, recomeços e sonhos. Descobri que as cartas quase nunca revelam o futuro. Elas apenas ajudam as pessoas a enxergar aquilo que já carregam dentro de si.
Foi assim que conheci Leollo, quem me convenceu a assumir mais essa responsabilidade de ser colunista e me ajudará na edição de meus textos.
Cliente fiel, aparecia sempre que a vida lhe colocava diante de alguma encruzilhada. Terminada a consulta, dizia que o café era tão bom quanto as previsões. Eu passava outro coador, colocava a água para ferver e seguíamos conversando por horas. Num desses cafés nasceu o convite para escrever. Na época achei que não tinha jeito para isso. Hoje desconfio que eu apenas ainda não tinha encontrado as palavras.
E talvez seja justamente sobre isso que esta coluna exista: nos descobrirmos verdadeiramente.

Durante muito tempo ouvi a expressão “bicha” ser usada para diminuir pessoas. Nós, porém, temos um talento extraordinário: o de transformar palavras em abraços.
Por isso, permita-me dividir uma crença muito pessoal. Eu acredito que toda pessoa pode ser uma bicha.
Calma. Não estou falando de orientação sexual, identidade de gênero ou qualquer rótulo.
Estou falando de um estado de espírito.
Existe a bicha da alegria.
- Aquela que celebra.
- Que dança.
- Que ri de si mesma.
- Que encontra beleza até nos dias em que a vida parece desafinada.
Existe a bicha da coragem.
- Aquela que enfrenta dificuldades.
- Que recomeça.
- Que insiste.
- Que cai sem perder a elegância de levantar.
- Que continua acreditando quando o resto do mundo já desistiu.
E existe a bicha esclarecida.
- Aquela que pensa.
- Que aprende.
- Que faz perguntas.
- Que muda de ideia quando encontra razões melhores.
- Que cultiva curiosidade em vez de certezas.
Essas três bichas podem morar dentro de qualquer pessoa.
Num executivo.
Numa professora.
Num caminhoneiro.
Numa drag queen.
Numa aposentada.
Num estudante.
Numa mãe.
Num músico.
Numa empreendedora.
Em qualquer pessoa que escolha viver com inteligência, afeto, humor e dignidade.
É para todas essas pessoas que escrevo.
Ou melhor… É com elas que quero conversar.

Não espere encontrar aqui verdades absolutas. Prefiro boas perguntas.
Também não espere receitas para felicidade. Receita boa mesmo eu só tenho para café.
O que você encontrará nestas páginas serão histórias, reflexões, cultura, música, comportamento e aquelas pequenas epifanias que costumam aparecer quando duas pessoas se sentam sem pressa para conversar.
Há muitos anos carrego comigo um pensamento que continua servindo para quase tudo nesta vida:
#FicaLokaMasNãoFicaBurra – você até pode ficar uma pessoa LOKA, mas por favor, não se torne uma pessoa BURRA.
Não porque alguém precise saber tudo. Mas porque pensar continua sendo um dos atos mais bonitos de liberdade que existem.
Então entre. Puxe uma cadeira. O café está sempre fresco.
A conversa está apenas começando.
Madame Jorgina, sua criada.


