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A Escuta em Tempos de Excesso



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Como algoritmos, playlists infinitas e a velocidade digital estão mudando nossa relação com a música.

Outro dia abri o Spotify sem procurar uma música específica. Não queria um artista, um álbum ou uma época. Apenas abri o aplicativo para descobrir o que a plataforma acreditava que eu gostaria de ouvir naquele momento.

Poucos segundos depois já existia uma trilha sonora pronta para mim. Confesso que gostei da seleção. Mas a pergunta ficou martelando pelo resto do dia: quem estava ouvindo aquela música? Eu ou o algoritmo que aprendeu quem eu sou?

Vivemos uma época em que nunca tivemos tanta música disponível. Estima-se que dezenas de milhares de novas faixas sejam lançadas diariamente nas plataformas de streaming. Uma abundância que, há vinte anos, pareceria um sonho para qualquer apaixonado por música como eu. Hoje carregamos no bolso um catálogo maior do que qualquer loja de discos do planeta jamais conseguiu reunir.

As plataformas descobriram algo muito valioso: nós gostamos da sensação de conforto. Gostamos quando a próxima música parece conversar perfeitamente com a anterior. Gostamos quando tudo flui sem esforço. Justamente aí que entram os algoritmos, que oferecem uma experiência quase sem atrito, construída para que permaneçamos ouvindo por mais tempo.

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Não há nada de errado nisso. Pelo contrário. Graças ao streaming conheci artistas de todo o Brasil, da Colômbia, da África do Sul, de Portugal, da Islândia, da Indonésia, do Japão e de tantos outros lugares que talvez nunca chegassem até mim pelas antigas rádios comerciais. Minha própria série Explorando Sonoridades nasceu desse impulso quase arqueológico de escavar novidades escondidas em um oceano de lançamentos.

O problema talvez não seja o algoritmo. O problema começa quando deixamos que ele substitua nossa curiosidade.

Recentemente, o Spotify deu mais um passo nessa transformação ao lançar a função DJ. Para mim essa função se apresenta como “DJ Dani”, com uma voz feminina calma e amigável. Não se trata apenas de uma playlist inteligente, mas de uma espécie de apresentadora musical virtual.

A inteligência artificial passa a conversar conosco, contextualiza algumas escolhas, recupera músicas da nossa própria história e ainda aceita pedidos por voz ou texto para alterar o clima da audição. Confesso que a experiência é fascinante. Pela primeira vez, não estamos apenas diante de um algoritmo invisível, mas de uma figura que simula uma curadoria humana. É como se a plataforma dissesse: “deixe comigo, hoje eu escolho o que você vai ouvir”.

Sempre gostei da palavra “garimpar”. Ela exige movimento. Exige tentativa, erro, surpresa. É diferente de receber algo pronto. Garimpar um disco, ouvir um álbum inteiro, seguir uma indicação feita por um amigo ou descobrir uma banda desconhecida em um festival ainda produz uma alegria que nenhuma inteligência artificial consegue prever completamente.

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A música sempre foi descoberta. Agora ela corre o risco de virar apenas entrega. Essa transformação modifica também nosso corpo. Porque nenhuma inteligência artificial consegue prever completamente o arrepio que sentimos quando uma canção muda a nossa vida.

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Durante milhares de anos dançamos porque alguém começou um ritmo. Hoje, dançamos porque uma plataforma identificou qual batida aumenta nossa permanência na tela. Parece uma diferença pequena, mas ela muda completamente nossa relação com a escuta. O corpo deixa de responder apenas ao som e passa a responder ao desenho de uma experiência digital cuidadosamente construída.

Talvez por isso eu tenha escrito recentemente sobre Sanidade Sônica. Vivemos cercados por notificações, anúncios, podcasts, vídeos curtos, playlists automáticas, chamadas, alertas e músicas que começam antes mesmo de terminarmos a anterior. Nosso cérebro quase nunca experimenta o silêncio. E o silêncio sempre foi um dos maiores parceiros da boa escuta. Sem silêncio, não existe contraste. Sem contraste, tudo vira ruído.

Como continuamos humanos em um tempo em que até a nossa escuta pode ser automatizada?

Outro fenômeno que me chama atenção é a lenta perda do álbum como narrativa. Durante décadas, artistas organizaram suas ideias em sequências cuidadosamente pensadas. A primeira faixa apresentava um universo. A última encerrava uma história. Entre elas existia uma arquitetura emocional construída para ser atravessada.

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Hoje muitas músicas nascem já pensando em viver isoladas dentro de playlists. Não estou dizendo que os álbuns conceituais morreram. Eles continuam existindo. Mas talvez sejamos nós que tenhamos desaprendido a escutá-los. E isso me parece uma perda enorme.

Porque ouvir um álbum inteiro exige uma situação cada vez mais rara: tempo, atenção e disponibilidade emocional. Vivemos na economia da velocidade, mas a música continua pertencendo ao tempo. Talvez seja exatamente essa sua maior rebeldia.

Enquanto tudo ao nosso redor acelera, uma canção ainda nos pede quatro ou cinco minutos. Um disco nos pede cinquenta. Um concerto nos pede duas horas. Uma noite inteira de pista de dança nos pede o corpo inteiro. A música continua ensinando aquilo que o mundo digital parece esquecer: presença.

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Talvez o maior algoritmo da história sempre foi a curiosidade humana

Não acredito que exista um conflito entre tecnologia e arte (minha opinião). Muito menos entre streaming e descoberta. As plataformas democratizaram o acesso à música de uma maneira extraordinária e abriram portas para milhares de artistas independentes. Seria injusto ignorar uma revolução dessa proporção.

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Mas acredito que precisamos continuar exercitando nossa autonomia como ouvintes. Valorizar a sensibilidade que nos faz humanos. Desligar o piloto automático. Procurar um álbum antigo. Ouvir uma recomendação inesperada. Entrar em uma loja de discos. Conversar com alguém apaixonado por música. Assistir a um show sem conhecer a banda. Construir playlists próprias, música por música. E permitir que o acaso continue fazendo parte da nossa educação musical.

Percebo que escutar música é uma forma de habitar o mundo. Cada artista que descobrimos amplia nosso vocabulário emocional. Cada álbum ouvido com atenção nos ensina uma nova maneira de perceber o tempo. Cada pista de dança nos lembra que existem corpos pulsando no mesmo compasso.

Talvez a verdadeira revolução da escuta, em tempos de excesso, não esteja em ouvir mais músicas, mas em voltar a ouvir melhor. O algoritmo conhece o nosso passado. A curiosidade continua sendo a única capaz de inventar o nosso futuro musical. E essa ainda é uma inteligência que nenhuma máquina conseguiu reproduzir.

Vida longa ao som bom (em bom som)Leollo Lanzone

Leollo Lanzone

Leollo Lanzone é o alter ego de Mauro Galasso, que é de verdade, mas não cabia numa persona só. Tem olhar objetivo e sensível, tem o hábito de montar playlists, adora dançar eletrônico, sabe cozinhar, falar de amizade e tem opinião sobre quaaase tudo.




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