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Terapia como dieta, epílogo: mente sobre matéria



matéria

A cultura ocidental é, em grande parte, baseada na crença de que vivemos em um mundo material e que tudo nele deriva da matéria, incluindo a consciência. Essa crença advém de uma suposição não questionada, tomada como óbvia pela maioria das pessoas. Mas é apenas isso — uma suposição.

Eu poderia criar uma perspectiva alternativa e argumentar, por exemplo, que somos instâncias individuais ilusórias de um campo de consciência (como ondas que parecem surgir do mar) que se manifesta por meio da atividade sensorial. Isto significa que, do ponto de vista da onda (o único possível), o “mundo” é individual e só existe quando há atividade sensorial. Além, é claro, da consciência dessa atividade. Assim, quando fecho os olhos, tapo os ouvidos, etc., o (meu) mundo some. Quando abro os olhos, ele é recriado. O materialista dirá que o mundo ainda está lá e existe independentemente da minha consciência.

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Mas afinal, o mundo está lá ou não?

Fiz essa introdução um pouco mais metafísica justamente para responder a essa pergunta. A resposta é: depende. Depende da interpretação. E a interpretação é invariavelmente baseada em uma ou mais crenças. Até aí, tudo bem. O problema surge quando crença vira fundamentalismo.

Já falamos um pouco disso em outro post. O pensamento científico contemporâneo, essa engrenagem aparentemente tão sólida, é baseado em castelos de areia—postulados do tipo “a distância mais curta entre dois pontos é a linha reta” ou “penso, logo existo”. A linha reta não faz mais sentido em uma física moderna que interpreta o espaço como curvo. De fato, nem espaço é mais só espaço. Agora é “espaço-tempo”, uma dimensão. E quanto ao “penso, logo existo”… uma falácia mental criada pelo próprio pensamento. Mente vazia, a inegabilidade absoluta da existência ainda está lá—ou melhor, aqui. Aqui e agora.

Não me entenda mal. Postulados como esses são boas aproximações, especialmente em aplicações práticas. Mas são aproximações, não verdades absolutas. Assim como qualquer pensamento, explicação ou interpretação. São como “traduções” da realidade dos sentidos; esta, apesar de inegável, é inerentemente inenarrável. Em outras palavras, nada que você diga para explicar a cor vermelha fará com que sua explicação seja igual à experiência da cor = atividade sensorial + consciência dela.

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As psicologias contemporâneas estão excessivamente preocupadas em ser baseadas em evidência. O termo em inglês é evidence-based (vou usar o termo propositalmente para enfatizar a artificialidade da coisa). De cara, isso pode ser problemático, porque separa teorias, práticas e ferramentas psicológicas em boas e más. O que é bom é válido; o resto é simplesmente descartado. Não só descartado, mas muitas vezes também ridicularizado.

Além disso, no paradigma evidence-based, o que exatamente é considerado evidência? Sim, aquilo que é baseado em observação, replicável, etc., etc.—aquele velho e bom blá-blá-blá que vem desde não importa quando. O que importa é que foi aleatoriamente criado por alguém que achava que as coisas deveriam ser assim. Se hoje achamos que as coisas são assim, como eu disse, somos fundamentalistas: acreditamos que uma opinião é verdade absoluta.

Achar que a psicologia deve ser considerada uma ciência exata não é novidade. Na minha opinião, isso cria uma faca de dois gumes. Por um lado, há a busca de legitimidade (um complexo de inferioridade?); por outro, a falta de reconhecimento, por parte dos próprios psicólogos, da abrangência da psicologia acaba por denegrir e diminuir algo muito mais vasto do que as simples aproximações da ciência.

Quando penso nisso, me vêm à mente histórias como O Patinho Feio e Cinderela.

Terminarei o post de hoje com um exemplo. O mindfulness vem ganhando tração nos meios psicológicos, especialmente nas terapias cognitivo-comportamentais. Por algum motivo—talvez por viés de autoridade, por habilidade de seus proponentes nas explicações ou simplesmente porque estava na hora certa, no lugar certo—o mindfulness foi adotado e hoje faz parte do que chamam de terceira onda. Digo isso sem levar em conta o fato de que o mindfulness (assim como outras ferramentas menos afortunadas) simplesmente “funciona”, mesmo que a ciência ainda não consiga explicar exatamente porquê. Mas funciona. Por isso, é engraçado ver os inúmeros estudos quantitativos feitos para tentar encaixar o mindfulness na visão estreita da ciência, assim como adeptos medindo palavras para terem certeza de que estão sendo “científicos” o bastante em suas comunicações.

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Contudo, o mais engraçado nessa história é que o mindfulness nada mais é do que consciência: a mesma consciência subestimada por aqueles que querem ver a psicologia “materializada”. Eles tentam a todo custo enquadrar o mindfulness em seu sistema, como os Necromongers nas Crônicas de Riddick, que absorvem tudo que encontram. Mas, desta vez, podem estar dando um tiro no pé. Não seria interessante se o mindfulness se infiltrasse nessa fortaleza a ponto de ruir as muralhas aparentemente sólidas do materialismo e causar sua extinção?

Ronny Lemos

Terapeuta, escritor e professor, Ronny Lemos oferece uma abordagem integrativa que une sabedoria oriental e pensamento psicológico ocidental contemporâneo. Seu trabalho cria um espaço seguro para transformação profunda e consciente, inspirando os outros por meio de seu próprio compromisso contínuo com o autoconhecimento.




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