
Olá meus queridos leitores. Nos últimos dias, uma história curiosa tomou conta das redes sociais, dos sites especializados e até das rodas de conversa sobre cinema. A rede Cinemark passou a exibir a animação brasileira Zuzubalândia em uma quantidade gigantesca de sessões espalhadas pelo país. Em alguns casos, eram mais de cem sessões por dia. Sim, cem. Quase parecia que o Brasil havia finalmente encontrado seu próprio Vingadores: Ultimato. Mas havia um pequeno detalhe. As sessões aconteciam, em grande parte, em horários de baixíssima procura. Muitas delas praticamente vazias.
A internet, como sempre, fez sua parte. Teve gente chamando de “sessões fantasma”. Outros disseram que era um drible inteligente. Alguns enxergaram um escárnio contra o cinema nacional. E teve também quem simplesmente achou engraçado imaginar uma criança entrando sozinha na sala enquanto o lanterninha perguntava se ela realmente queria assistir Zuzubalândia às 10h40 de uma terça-feira.
Mas por trás do meme existe uma discussão séria. E ela vai muito além de um desenho infantil.
O episódio expôs um debate antigo sobre a chamada cota de tela. Para quem não acompanha o setor, funciona assim. O Estado determina que as redes de cinema exibam uma quantidade mínima de filmes nacionais durante o ano. A justificativa é proteger o audiovisual brasileiro da concorrência esmagadora de Hollywood.
Na teoria, parece simples. Na prática, virou uma das discussões mais polêmicas da cultura brasileira.
Os defensores da medida afirmam que sem proteção o cinema nacional desapareceria das salas. Afinal, competir contra gigantes americanos não é fácil. Estamos falando de estúdios que investem centenas de milhões de dólares em produção e marketing. Filmes que chegam acompanhados de brinquedos, fast food, campanhas globais, influenciadores, comerciais e uma máquina de divulgação tão grande que às vezes parece impossível escapar dela. Você abre a geladeira e talvez encontre um copo promocional da Marvel olhando para você.
Sob esse ponto de vista, a cota de tela seria uma forma de garantir espaço mínimo para o produto nacional respirar.
E aqui existe um argumento legítimo.
O cinema não é apenas entretenimento. Ele também é linguagem cultural. Países como França e Coreia do Sul usam mecanismos parecidos de proteção ao audiovisual local. Muitos defendem que, sem esse tipo de política, o mundo inteiro consumiria apenas produtos americanos, criando uma espécie de monocultura cinematográfica.
Até aí, tudo bem.
O problema começa quando a teoria bate de frente com a realidade.
E a realidade é que o cinema nacional não produz poucos filmes. Produz muitos. Basta olhar o espaço Conteúdo e Mais em Cartaz. Sempre existem vários títulos nacionais em cartaz. O que normalmente não existe é público.
Esse talvez seja o ponto mais desconfortável da discussão.
Se a ausência de espaço fosse o verdadeiro problema, então bastaria colocar os filmes em cartaz para as salas encherem. Mas não é isso que acontece. Muitas produções estreiam e desaparecem quase sem deixar rastros. Algumas ficam uma semana em cartaz. Outras sobrevivem graças a sessões quase vazias. Algumas parecem existir apenas porque o edital saiu.
É duro dizer isso, mas em muitos casos o público simplesmente não demonstra interesse.
E aqui entra uma pergunta inevitável. Se o cinema nacional precisa de cotas obrigatórias depois de décadas de incentivo, será que o problema realmente está na falta de espaço?
A pergunta incomoda porque existem exemplos que contradizem completamente a tese de que o brasileiro rejeita filmes nacionais.

Cidade de Deus virou fenômeno internacional. Tropa de Elite entrou no imaginário popular. As comédias de Paulo Gustavo lotavam salas. O Auto da Compadecida atravessou gerações. Nosso Lar fez sucesso enorme. Ainda Estou Aqui chamou atenção dentro e fora do país.
Ou seja, quando o filme desperta interesse real, o público comparece.
As redes de cinema não odeiam filmes brasileiros. Elas odeiam salas vazias. Existe diferença.
Cinema é um negócio de risco. Cada sessão ocupando uma sala precisa gerar receita. Se um filme vende ingresso, pipoca e refrigerante, ele ganha mais horários. Isso vale para qualquer produção, brasileira ou estrangeira.
É justamente por isso que o caso da Cinemark chamou tanta atenção. Porque ele parece ter mostrado uma espécie de esgotamento silencioso do próprio sistema.
Ao invés de apostar em sessões competitivas de filmes nacionais, a rede aparentemente concluiu que era mais econômico cumprir a obrigação regulatória da forma mais burocrática possível. Resultado. Um oceano de sessões em horários mortos apenas para preencher tabela.
E isso levanta outra questão delicada.
Quando uma política pública começa a incentivar comportamentos artificiais, talvez exista algo errado na própria política.
Os críticos da cota de tela argumentam justamente isso. Para eles, obrigar empresas privadas a reservar espaço comercial para determinados produtos é uma distorção do mercado.
Imagine uma padaria sendo obrigada pelo governo a vender um pão específico, independentemente da procura dos clientes. Parece estranho. Pois é exatamente essa comparação que muita gente faz com as salas de cinema.

E aqui entramos no aspecto econômico da discussão.
Manter cinemas funcionando no Brasil já é caro. Existe tributação elevada, custos operacionais altos, aluguel, energia, funcionários, segurança, manutenção e ainda a famosa meia-entrada, que reduz a arrecadação média do setor. Some isso ao crescimento do streaming, à mudança de hábitos pós-pandemia e ao preço absurdo da pipoca, que já está quase entrando na bolsa de valores.
Nesse cenário, qualquer obrigação extra pesa.
Os críticos afirmam que a cota de tela aumenta o custo do setor e reduz eficiência. Além disso, argumentam que as leis de incentivo também usam dinheiro que poderia estar em outras áreas.
Muitos defensores do modelo respondem dizendo que a Lei Rouanet e mecanismos semelhantes operam via renúncia fiscal. Tecnicamente, isso é verdade. Mas o argumento contrário também é simples. Se o dinheiro deixaria de entrar nos cofres públicos, ele continua sendo dinheiro que saiu da atividade econômica e que teria outro destino.
A discussão então deixa de ser apenas cultural e passa a ser ética.
O contribuinte deveria financiar filmes que talvez ele nunca assistiria voluntariamente?
Não existe resposta fácil para isso.
Os defensores do sistema dirão que cultura não pode ser medida apenas por bilheteria. Nem toda obra precisa ser blockbuster. E isso também é verdade. Cinema autoral tem direito de existir. Filmes experimentais também. Obras políticas igualmente.
Mas existe uma diferença importante entre permitir que uma obra exista e obrigar o mercado a absorvê-la.
Talvez seja exatamente aí que mora o coração dessa discussão.
Outro ponto curioso é que o cinema brasileiro parece preso em um ciclo estranho. Quando se fala em grandes sucessos nacionais, quase sempre citamos os mesmos filmes. Cidade de Deus. Tropa de Elite. Paulo Gustavo. O Auto da Compadecida.
Isso revela uma certa dificuldade estrutural em criar sucessos populares recorrentes.
Parte do setor parece muito voltada para festivais, editais e reconhecimento institucional. Enquanto isso, o público médio continua procurando histórias simples, envolventes e emocionalmente fortes. Não existe problema em fazer filmes políticos ou artísticos. O problema surge quando o setor inteiro parece esquecer que cinema também depende de audiência.
O espectador comum não compra ingresso por obrigação cívica. Ele compra porque quer se divertir, se emocionar ou se interessar por uma história.
No fim das contas, talvez o caso Zuzubalândia tenha sido importante justamente porque revelou uma verdade desconfortável. O atual modelo parece desagradar quase todo mundo.
Os exibidores reclamam das regras.
O público reclama dos preços.
Os produtores reclamam da falta de espaço.
E o governo tenta equilibrar interesses incompatíveis.
Enquanto isso, as salas continuam lutando para sobreviver em um mundo dominado por streaming, redes sociais e vídeos curtos.
Talvez esteja na hora de repensar algumas coisas.
Talvez o cinema brasileiro precise menos de proteção e mais de conexão real com o público.
Talvez precise investir mais em boas histórias, gêneros populares, marketing eficiente e diversidade temática.
Talvez o caminho não seja obrigar o espectador a consumir cinema nacional, mas fazer com que ele queira consumir cinema nacional.
Porque, no fim, nenhuma cota substitui interesse genuíno.
E nenhum decreto consegue transformar sessão vazia em fenômeno cultural.
E se você gostou desse texto, ou detestou, deixe no seu comentário. Isso meu ajuda muuuuito. Até algum dia.





