
Num passado distante, sonhei com Clarice (a Lispector). E há sonhos que não pedem licença para parecer verdade.
Lembro que estava na frente da Confeitaria Colombo, no Rio de Janeiro. As janelas altas deixavam entrar uma luz mansa de fim de tarde. Não havia música. Havia o som das xícaras pousando sobre os pires, o tilintar das colheres, os garçons atravessando o salão com a elegância de quem conhece o caminho de cada mesa. O lugar tinha perfume de café. E isso, hoje em dia, já parece um luxo.
No sonho, eu ainda não era Madame Jorgina. Chamava-me Jorge. Tinha dezenove anos. E carregava aquela coragem tímida que só os muito jovens possuem: a coragem de entrar num lugar sem saber se pertencem a ele.
Foi então que a vi. Clarice Lispector. Sentada sozinha, como quem nunca esteve sozinha.
Pensei em voltar. Quem era eu para interromper uma mulher que parecia conversar até com o silêncio?
Foi quando ela levantou os olhos. Sorriu. E perguntou: “Você vai ficar em pé até o café esfriar?”
Sentei. Não porque tivesse coragem. Mas porque alguns convites parecem acontecer antes da nossa vontade.
Falei muito. Contei quem eu era. Contei quem eu imaginava ser. Contei quem eu tinha medo de me tornar.
Disse que lia suas crônicas como quem procura uma janela aberta. Que, às vezes, tinha a impressão de que ela escrevia olhando diretamente para um lugar dentro de mim que eu mesmo ainda não conhecia.
Clarice quase não interrompia. Escutava como poucas pessoas sabem escutar: sem preparar respostas.

Foi então que chegou o café. Ela pegou o bule e nos serviu devagar. Cada gesto parecia ter um motivo. Cada pausa parecia necessária. Era como se fazer café fosse outra maneira de escrever.
Enquanto mexia a colher, disse com uma serenidade que ainda hoje me acompanha: “O café não muda quem o bebe. Só ajuda a diminuir o barulho para que a pessoa escute quem sempre esteve ali” – Fiquei em silêncio. Às vezes uma frase não pede resposta. Pede apenas lugar para pousar.
Depois de algum tempo, contei que havia um texto seu que me perseguia havia anos: “Mulher Esclarecida”. Disse que nunca conseguira esquecê-lo.
Ela sorriu daquele jeito discreto que apenas aumenta o mistério das pessoas. Tomou um gole de café. E respondeu: “Meu bem… eu escrevi sobre uma mulher esclarecida”. Fez outra pausa. Como se escolhesse as palavras enquanto observava a fumaça subir da xícara. Depois completou: “Você resolveu ampliar a ideia” – Não entendi imediatamente.
Ela continuou: “Talvez toda pessoa tenha o direito de ser esclarecida. Independentemente do nome que o mundo lhe deu.”
Nunca me disse o que eu deveria fazer. Nunca me disse quem eu deveria ser. Clarice fazia outra coisa. Ela autorizava perguntas. E, às vezes, isso basta para uma vida inteira começar a mudar.
Foi naquele instante que nasceu uma imagem que me acompanha até hoje. Não uma resposta. Uma imagem. A de que toda pessoa poderia ser uma bicha esclarecida.
Não por orientação. Mas por permissão. Permissão para pensar. Para sentir. Para mudar. Pra ser espontânea. Para existir sem pedir desculpas.
Os sonhos costumam terminar antes da melhor parte. Esse não. Anos se passaram dentro daquele mesmo sonho. Vi Jorge desaparecer aos poucos. Vi surgir uma transformista. Depois uma Top Drag. Depois uma mulher chamada Madame Jorgina, que aprendeu que um café bem servido pode abrir mais caminhos do que muitos discursos.
Foi então que acordei. A xícara ainda estava quente sobre o criado-mudo.
Nunca mais encontrei Clarice. Nem na Colombo. Nem em sonho. Mas, desde aquela manhã, toda vez que preparo um café para alguém, tenho a impressão de que continuo terminando aquela conversa iniciada naquela mesa.
Foi naquele sonho que aprendi uma coisa que nunca mais desaprendi: algumas pessoas entram na nossa vida porque respondem perguntas. Outras entram porque fazem nascer perguntas novas.
Clarice fez a segunda coisa. E talvez por isso eu tenha passado tantos anos preparando café para desconhecidos. A gente nunca sabe em qual mesa uma vida resolve mudar de rumo.
Anos depois, já em São Paulo, descobri que nem todas as grandes conversas começam com uma palavra. Algumas começam com um olhar.

Conhecendo Sargento Julião
São Paulo. A boate NostroMondo. A casa estava cheia. As luzes dançavam sobre o palco. Eu também. Ria. Contava histórias. Recebia aplausos. Era uma noite como tantas outras. Ou pelo menos parecia.
Entre as mesas, um homem observava tudo em silêncio. Vestia-se de maneira impecável. Os cabelos e a barba pareciam desenhados com cuidado. Havia nos poucos gestos uma disciplina que lembrava a vida militar. Mais tarde eu descobriria seu nome. Sargento Julião.
Ele não olhava para o figurino. Não olhava para a maquiagem. Não olhava para o espetáculo. Olhava para a mulher que existia ali. E, sem saber por quê, pensou apenas: “É ela.”
Naquela noite não nasceu apenas um amor. Nasceu algo muito mais raro. Alguém enxergou a pessoa antes da personagem. E isso talvez seja a forma mais delicada de amar alguém.
Talvez seja por isso que eu nunca sirva uma única xícara. O café sempre pede companhia. E algumas conversas… demoram uma vida inteira para esfriar.
Madame Jorgina, sua criada.
#FicaLokaMasNãoFicaBurra




