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A maternidade também é um lugar de liderança



liderança

Durante muito tempo, aprendemos a associar liderança a cargos, posições e ambientes formais. Líder era apenas quem conduzia equipes, tomava decisões estratégicas ou ocupava lugares de destaque. Mas, aos poucos, comecei a ampliar essa percepção e passei a enxergar que liderança não é apenas um papel profissional, é uma forma de estar no mundo. Ela acontece nas relações, nos bastidores da vida cotidiana, na maneira como reagimos, acolhemos, educamos, escutamos e influenciamos as pessoas ao nosso redor.

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A coluna Lidere-se, assim como outros conteúdos e projetos que desenvolvo, nasceu dessa nova compreensão sobre liderança, principalmente após o nascimento da Antonella, quando percebi que poucos lugares revelam a importância da liderança de forma tão profunda quanto a maternidade.

Por isso, a coluna entra agora em uma nova fase, na qual buscarei compartilhar alguns tipos de liderança e como eles funcionam na prática. Quero trazer reflexões, pontos de atenção e pequenos experimentos que cada pessoa possa observar e aplicar no próprio cotidiano. E vamos começar justamente pela maternidade.

No artigo anterior, contei que vivi uma experiência que me fez compreender isso com ainda mais clareza. Antonella viajou sem os pais pela primeira vez. Quando aceitou o convite dos tios com entusiasmo e segurança, fui pega de surpresa. Ela se sentiu pronta. E, naquele instante, percebi que eu também precisaria colocar em prática a liderança que tanto acredito e compartilho por aqui, não a liderança do controle, mas a liderança que inspira crescimento. A liderança que prepara alguém para o mundo, e não aquela que mantém o outro pequeno apenas para continuar cabendo dentro dos nossos medos, cuidados e necessidade de proteção.

Foi impossível não perceber o quanto lideramos nas pequenas situações da vida, muitas vezes sem sequer nos darmos conta disso. Lideramos quando sustentamos conversas difíceis, quando acolhemos emoções sem invalidá-las, quando escolhemos como reagir diante dos desafios e, principalmente, quando permitimos que alguém cresça sem transformar amor em controle.

Já compartilhei aqui que a liderança mais profunda não aparece em reuniões, títulos ou reconhecimentos externos. Ela acontece quando ninguém está olhando, nos bastidores silenciosos das relações, na forma como lidamos com nossos próprios sentimentos e nas escolhas internas que fazemos diante das pessoas que amamos. O que traz ainda mais sentido àquela máxima de que o exemplo começa em casa. Antes de liderar alguém, lideramos a nós mesmos.

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Naquele momento, enquanto Antonella preparava a mala e vivia a empolgação da descoberta, eu precisava administrar algo dentro de mim: o medo, a saudade antecipada, o vazio silencioso que a ausência dela despertaria. Eu poderia agir a partir da insegurança e tentar impedir, controlar ou limitar aquela experiência. Mas compreendi que liderar também é sustentar o próprio desconforto sem projetá-lo sobre o outro.

Daniel Goleman reforça que a base da liderança está na inteligência emocional, especialmente na capacidade de reconhecer emoções, regular impulsos e agir com consciência. E isso ficou muito evidente para mim naquela experiência. Minha filha talvez não precisasse apenas da minha autorização para viajar, ela precisava sentir a confiança emocional por trás da minha escolha. Precisava perceber que o amor dela não estava condicionado à minha necessidade de controle.

Ao mesmo tempo, Brené Brown fala sobre coragem como a disposição de permanecer presente mesmo sem garantias. E talvez exista uma vulnerabilidade muito específica na maternidade: amar profundamente alguém e, ainda assim, aceitar que essa pessoa precisa viver experiências próprias, desenvolver autonomia e descobrir o mundo além dos nossos braços.

Isso não significa ausência de medo. Significa fazer uma escolha consciente e optar pela maturidade emocional para não transformar o medo em prisão.

Também percebi algo importante sobre mim mesma. Por mais que eu cuide das minhas emoções, busque amadurecimento emocional e tente não sobrecarregar minha filha com dores, ausências ou expectativas que são minhas, ainda existem espaços internos que encontro preenchimento no maternar. E reconhecer isso, sem culpa ou negação, também é liderança. Essa experiência fortaleceu em mim a compreensão de que consciência emocional não é sobre perfeição, mas sobre disposição para se observar com honestidade, reduzindo ao máximo o julgamento e a culpa.

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Augusto Cury afirma que dirigir a própria mente é um dos maiores desafios humanos. E acredito que a maternidade revele isso de forma intensa, porque ela toca nossos afetos mais profundos, nossos medos mais silenciosos e nossas maiores vulnerabilidades. Por isso, liderar através da maternidade não é apenas cuidar de um filho, é revisitar constantemente a si mesma.

Talvez seja exatamente aí que a liderança mais humana aconteça. Não nos grandes discursos, mas nas pequenas escolhas cotidianas. Na capacidade de pausar antes de reagir. Na coragem de permitir o crescimento do outro. Na consciência de perceber quando estamos agindo por amor e quando estamos agindo por medo.

Essa reflexão não é importante apenas para mães, mas para todos nós. Exercemos liderança em diferentes papéis sociais, como pais, filhos, professores, parceiros, empreendedores, educadores ou líderes espirituais. Em todos esses espaços existe uma pergunta silenciosa acontecendo o tempo inteiro: estou conduzindo as pessoas a partir da consciência… ou das minhas próprias inseguranças?

Quero trazer cada vez mais essas situações cotidianas para a coluna, exemplos simples, humanos e reais de como exercemos liderança todos os dias, muitas vezes de forma automática e inconsciente. Porque acredito que liderar a si mesmo começa justamente quando trazemos luz para esses espaços invisíveis, transformando relações, escolhas e comportamentos a partir de mais presença, intenção e verdade.

Amar alguém o suficiente para preparar essa pessoa para o mundo, mesmo quando uma parte de nós gostaria de mantê-la sempre perto, pode ser uma das formas mais bonitas de exercitar o verdadeiro poder da liderança.

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Pergunta para reflexão
Nas relações mais importantes da sua vida, você tem liderado a partir do amor consciente… ou do medo de perder o controle?

Aline Gasparin

Aline Mendes Gasparin, comunicadora e gestora de projetos criativos, com foco em liderança consciente e desenvolvimento humano.




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