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U2 aos 50 anos: O valor de uma obra que continua olhando para o mundo




O que faz uma banda permanecer na vida de alguém durante tanto tempo? Afinal, fazer sucesso é uma coisa. Construir uma obra é outra.

Meu irmão dizia, com a segurança de quem não admitia muita discussão, que os Rolling Stones eram a maior banda do mundo. Eu, adolescente, fazia uma conta bastante simples: se os Stones eram a maior banda do mundo, então o U2 devia ser a segunda.

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Não sei exatamente de onde vinha essa matemática. Mas suspeito que vinha da necessidade adolescente de encontrar um lugar para aquilo que a gente amava. Porque o U2, naquele momento, já parecia grande demais para caber apenas na categoria “banda que eu gosto”.

Décadas depois, a conta perdeu importância. O que me interessa agora é outra coisa: o que faz uma banda permanecer na vida de alguém durante tanto tempo? Afinal, fazer sucesso é uma coisa. Construir uma obra é outra.

O U2 começou em Dublin, em 1976, quando Larry Mullen Jr. colocou no mural da Mount Temple Comprehensive School aquele famoso anúncio procurando músicos para formar uma banda. Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry continuam juntos. Em 1980 veio o primeiro single, “11 O’Clock Tick-Tock”. Poucos meses depois, Boy. Em 1983, War já colocava o grupo no topo das paradas britânicas.

Mas talvez a história realmente interessante comece quando percebemos que o U2 nunca pareceu muito interessado em ficar parado no lugar onde tinha dado certo.

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A banda que se formou de maneira inusitada, trouxe identidade e um discurso coerente com a rebeldia que a sonoridade nos entregava.

Boy e War carregavam a urgência de uma banda jovem, ainda tentando entender o mundo e a própria voz. Depois vieram The Unforgettable Fire e The Joshua Tree (de longe o álbum mais vendido da banda), ampliando o campo de visão: espiritualidade, conflitos, política, identidade, América, fé, desejo, contradições.

Então o U2 resolveu fazer o que bandas muito estabelecidas raramente fazem sem algum risco: mudar. Achtung Baby (meu projeto preferido) rompeu expectativas. A turnê Zoo TV transformou tecnologia, televisão, excesso de informação e cultura pop em parte da própria linguagem do espetáculo. Veio Zooropa e nos levou ainda mais fundo nesse território estranho de um mundo cada vez mais conectado, acelerado e saturado de imagens.

E aí está uma das coisas que mais me interessa no U2: Eles sempre olharam para fora. Enquanto muita banda constrói sua carreira em torno da própria mitologia, o U2 soube usar a música para tentar entender o que estava acontecendo ao redor.

Guerras. Religião. Direitos humanos. Tecnologia. Globalização. Consumismo. Amor. Perda. Esperança. Liberdade. Até quando errava, havia uma tentativa de conversar com o tempo. Porque, evidentemente, uma obra de cinquenta anos também tem seus excessos, tropeços e momentos menos inspirados.

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O quarteto se mantém unido justamente pela diversidade de ideias.

Penso que é isso que faz uma obra envelhecer de maneira interessante. Não permanecer igual. Permanecer viva.

Eu fui mudando enquanto o U2 mudava. Alguns discos chegaram em momentos específicos da minha vida. Algumas músicas ficaram associadas a pessoas, lugares, fases, amores, descobertas. Outras perderam força. Algumas voltaram anos depois com outro significado.

É assim que a música funciona quando deixa de ser apenas música. Ela vira memória real. Por isso que celebrar os 50 anos do U2 seja mais interessante do que simplesmente fazer uma retrospectiva de sucessos. Esse quarteto continua nos deliciando com aquilo que uma banda veterana poderia perfeitamente ter deixado de fazer: um disco novo.

O projeto novo tem nome de Carnaval De Luz, com lançamento marcado para 13 de novembro, será o 16º álbum de estúdio da banda e o primeiro trabalho de material inédito em nove anos. São 12 canções produzidas por Jacknife Lee, com participações e colaborações que passam por Brian Eno, Martin Garrix, Daniel Lanois, Rosalía e Dolly Parton.

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Ainda não dá para falar do disco inteiro. E talvez seja bom que não dê. Mas temos três pistas: a) “Street of Dreams”, lançada em julho, e agora “Silencio”, apresentada em setembro; b) Silencio já me parece especialmente interessante e traz a clara inspiração brasileira já que a letra traz “Hey, Jesus of Rio?”; c) A faixa Fireflies, que saiu em julho, forma a parceria como DJ e Produtor Martin Garrix, mas não está indicada como integrante do projeto Carnaval de Luz.

E isso me faz pensar no próprio título do álbum. Carnaval De Luz não parece ser apenas uma referência festiva. O conceito do trabalho está ligado ao ciclo entre carnaval, Quaresma e Páscoa: celebração, recolhimento, reflexão, renascimento. É curioso que uma banda irlandesa de 50 anos esteja novamente trabalhando com essa mistura tão U2 de espiritualidade, excesso, política, dúvida e esperança.

Palco da turnê Zoo TV

O mais bonito, porém, está em outra ideia. Bono diz que a mesma imaginação que produz criatividade também pode produzir monstros. E, diante de um mundo mergulhado na escuridão, a resposta da banda parece ser aumentar o volume, fazer uma fogueira maior, contar histórias mais loucas, deixar as melodias mais doces.

Fazer a música brilhar. Isso me parece profundamente coerente com a história do U2. Não porque a banda tenha encontrado respostas para o mundo. Mas porque nunca deixou de fazer perguntas: “E agora?”

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Aos 50, o U2 poderia simplesmente viver de With or Without You, One, Sunday Bloody Sunday, Pride, Beautiful Day e tantas outras canções que já entraram na memória coletiva. Mas decidiu continuar procurando.

A gente não precisa escolher a “maior” banda. Precisamos sim, reconhecer aquelas que, em algum momento, ajudaram a construir nossa maneira de ouvir o mundo. E o U2 fez isso comigo.

Afinal, cinquenta anos depois daquele bilhete de Larry Mullen no mural de uma escola de Dublin, quatro músicos ainda parecem interessados em descobrir o que acontece quando entram juntos em uma sala com instrumentos nas mãos.

Para uma banda de 50 anos, isso talvez seja mais importante do que qualquer ranking. A vontade de descobrir o próximo som.

Vida longa ao som bom, que consegue envelhecer sem perder a vontade de descobrir o amanhã – Leollo Lanzone

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Leollo Lanzone

Aqui a música é a linguagem. O assunto sempre é o ser humano. Leollo é jornalista de formação, tem olhar objetivo e sensível. Mais por vício do que vontade, monta playlists para cada tipo de momento. Adora dançar eletrônico, sabe cozinhar, falar de amizade e tudo regado à café, mate e Tang. Traz opinião sobre quaaase tudo, daquilo que ele acredita somar, integrar e fazer bem. O que sobra, ele deixa para outra vida quem sabe. *Leollo Lanzone é o alter ego de Mauro Galasso, que é de verdade, mas não cabia numa persona só.




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