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Nem toda viagem cabe nas fotografias



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Tenho poucas fotografias de alguns dos lugares que mais me marcaram.

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Não porque não fossem bonitos. Muito pelo contrário. Talvez justamente porque fossem bonitos demais, interessantes demais, vivos demais para que eu me lembrasse o tempo todo de pegar o celular.

Isso acontece comigo com frequência. Viajo, caminho, converso, provo alguma coisa, entro em um lugar que não estava no roteiro, escuto uma história, observo pessoas, perco alguns minutos ou muitos contemplando uma paisagem. Quando percebo, o dia passou. E as fotografias são poucas.

Durante muito tempo achei que fosse apenas distração. Hoje penso que talvez seja também uma maneira de viajar.

Vivemos uma época em que registrar se tornou parte da experiência. E não há nada de errado nisso. Fotografias guardam momentos, contam histórias, aproximam pessoas e nos permitem revisitar lugares muitos anos depois. Algumas imagens se tornam verdadeiros documentos afetivos da nossa vida.

As redes sociais também transformaram a forma como compartilhamos viagens. Descobrimos destinos pelas fotografias de outras pessoas, encontramos restaurantes, paisagens, museus, pequenos negócios e experiências que talvez nunca conhecêssemos de outra maneira.

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O problema começa apenas quando a preocupação com o registro ocupa tanto espaço que quase não sobra tempo para a experiência.

Já observou como, diante de determinados atrativos turísticos, às vezes parece existir uma espécie de coreografia coletiva?

Chegar. Procurar o melhor ângulo. Fotografar. Conferir a fotografia. Repetir se necessário. Publicar. E seguir para o próximo ponto.

Tudo acontece rapidamente. O lugar, porém, continua ali.

Com sua história, seus sons, seus cheiros, suas pessoas, suas pequenas imperfeições e tudo aquilo que dificilmente aparece no enquadramento perfeito de uma fotografia.

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Talvez por trabalhar há tantos anos com turismo eu tenha aprendido a prestar atenção justamente nessas coisas.

Gosto de conversar com quem vive no lugar. Perguntar sobre uma comida, descobrir por que uma rua tem determinado nome, ouvir uma história que provavelmente não está no guia turístico. Gosto de observar o cotidiano, entrar em pequenos estabelecimentos, experimentar sabores e, algumas vezes, simplesmente sentar e olhar.

E nessas horas quase sempre esqueço da fotografia.

Volto para casa com poucas imagens e muitas lembranças.

Lembro da voz de alguém que me contou uma história. Do cheiro de um mercado. De uma música que estava tocando. Da textura de uma comida que experimentei pela primeira vez. De uma paisagem que me fez permanecer alguns minutos em silêncio.

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Nenhuma dessas coisas aparece completamente em uma fotografia.

Talvez seja justamente aí que esteja uma das grandes riquezas de viajar.

Turismo não é apenas deslocamento. É experiência. E experiência envolve sentidos, emoções, encontros e descobertas.

Uma fotografia consegue registrar a fachada de um café. Mas não registra completamente o aroma que sentimos quando entramos.

Consegue mostrar uma praia. Mas não guarda o vento daquele dia.

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Registra uma mesa bonita. Mas não reproduz a conversa que aconteceu ao redor dela.

Mostra uma praça cheia de pessoas. Mas dificilmente explica a sensação de estar ali.

Por isso talvez devêssemos pensar menos em escolher entre fotografar ou não fotografar e mais em permitir que as duas coisas convivam.

Registrar o que queremos guardar.

E também guardar algumas coisas sem registrar.

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Há uma liberdade interessante em simplesmente estar em algum lugar sem a obrigação de transformá-lo imediatamente em conteúdo.

Olhar antes de fotografar.

Experimentar antes de publicar.

Conversar antes de seguir para o próximo ponto.

Talvez até se perder um pouco.

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Porque algumas das melhores experiências de uma viagem acontecem justamente nos intervalos do roteiro: na conversa inesperada, no café encontrado por acaso, na rua que decidimos percorrer sem saber exatamente onde terminaria.

São momentos difíceis de planejar e quase impossíveis de reproduzir.

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Mas são justamente aqueles que, muitas vezes, permanecem conosco por mais tempo.

Continuarei fotografando minhas viagens. Provavelmente continuarei esquecendo de fotografar muitas coisas também.

E tudo bem.

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Porque algumas lembranças estarão na galeria do celular. Outras estarão guardadas em lugares que nenhuma tecnologia consegue acessar completamente.

No final, talvez viajar seja também isso: colecionar imagens, histórias, sabores, encontros e sensações.

Algumas cabem perfeitamente em uma fotografia.

Outras precisam de uma vida inteira para serem lembradas.

Um excelente final de semana a todos!

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Grande abraço 😊

Selma Cabral.

Selma Cabral

Selma Cabral- Diretora e Consultora de Turismo e Eventos na Empresa Turismo & Ideias e Colunista e Mentora para Negócios no portal Conteúdo e Mais.




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