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Amizade também se cultiva



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Olá, gente bicha deste país varonil…

Minha filha, eu estou perigosamente feliz. E quando uma bicha esclarecida diz uma coisa dessas, convém prestar atenção. Porque felicidade demais também pode ser sintoma de amizade.

Acabei de passar um fim de semana cercada de gente que conheço há muitos anos. Alguns há quinze. Outros há vinte. Outros já estão chegando perigosamente perto dos vinte e cinco. E eu fiquei pensando que, existe alguma coisa muito bonita em olhar para uma pessoa depois de tanto tempo e perceber que ainda temos histórias para contar, assuntos para discutir, lugares para conhecer e, principalmente, vontade de continuar juntos.

Porque amizade também é isso: tempo. Tempo compartilhado. Tempo regado. Tempo cuidado.

A gente costuma falar de amizade como se ela simplesmente acontecesse. Como se duas pessoas se conhecessem, gostassem uma da outra e pronto. Mas não é bem assim.

Amizade, minha filha, dá trabalho. Só que é um trabalho daqueles que a gente agradece ter. Tem que aparecer. Tem que perguntar. Tem que ouvir. Tem que perdoar algumas bobagens. Tem que respeitar algumas diferenças. Tem que saber rir junto e, de vez em quando, ficar sério.

E tem que sobreviver às fases da vida. Porque ninguém permanece exatamente igual durante vinte anos. Nós mudamos de emprego, de casa, de opinião, de corpo, de planos. Perdemos pessoas. Ganhamos outras. Ficamos mais velhos. Mais cansados. Às vezes mais sábios. Às vezes apenas mais teimosos. E os amigos vão conhecendo todas essas versões.

Talvez essa seja uma das maiores delicadezas da amizade: alguém que conheceu quem você era, continua interessado em descobrir quem você está se tornando.

amizade

Neste último fim de semana tivemos conversas sérias, risadas, passeios por São Paulo, aquela cidade que aprendemos a desbravar juntos. Shows, teatro, cinema, exposições. Cafés da manhã, almoços e jantares em casa. Histórias antigas reaparecendo. Histórias novas começando.

E, entre uma conversa e outra, fiquei pensando na quantidade de vida que cabe dentro de uma amizade longa. Uma cidade inteira pode caber ali. Uma música. Uma peça de teatro. Uma mesa de jantar. Um café tomado sem pressa. Uma piada que ninguém mais entende. Um olhar que dispensa explicação.

Eu tenho uma frase que uso há tantos anos que já deveria estar registrada em cartório: “Sem café e amigos eu não vivo.”

E depois deste fim de semana, minha filha, tenho provas. Café mantém a criatura funcionando. Amigo mantém a criatura humana. Talvez porque amizade seja um dos lugares onde a gente pode baixar a guarda.

Não precisamos parecer interessantes o tempo inteiro. Nem inteligentes. Nem fortes. Nem resolvidos. Podemos simplesmente chegar. Podemos dizer que não sabemos. Que estamos cansados. Que alguma coisa deu errado. Que estamos com medo. Que precisamos de ajuda. E, principalmente, podemos ser nós mesmos sem precisar apresentar currículo.

Isso me faz pensar que amizade tem muito a ver com vulnerabilidade. Porque só existe intimidade verdadeira quando alguém pode aparecer sem a armadura.

E talvez seja justamente por isso que amizades longas sejam tão preciosas. O amigo não conhece apenas a nossa melhor versão. Conhece também a criatura que já fez bobagem, que tomou decisões questionáveis, que se apaixonou pela pessoa errada, que teve medo, que chorou, que mudou de ideia. E continua ali.

Minha querida Clarice tinha uma maneira muito particular de olhar para a amizade. Em Uma amizade sincera, ela nos lembra, de um jeito muito delicado e nada confortável, que até uma amizade verdadeira pode chegar a um ponto em que a convivência se torna difícil. A sinceridade não transforma as pessoas em criaturas perfeitas.

E isso é bonito. Porque amizade verdadeira não é aquela que nunca muda. Tem haver com aquela que não precisa fingir que nada mudou. Algumas amizades permanecem próximas durante toda a vida. Outras se afastam. Algumas voltam. Outras ficam guardadas em algum lugar especial da memória.

Nem toda amizade precisa durar para sempre para ter sido verdadeira. Mas aquelas que conseguem atravessar o tempo… Ah, minha filha. Essas merecem um café demorado.

Porque amizade não pede documento. Não pergunta gênero. Não exige sobrenome. Não quer saber com quem você dorme. Não precisa de certidão de nascimento. Ela simplesmente acontece entre pessoas que, por alguma razão misteriosa, decidem cuidar umas das outras.

Um filho pode ser amigo da mãe. Uma mãe pode ser amiga do filho. Irmãos podem se tornar grandes amigos. Um colega de trabalho pode virar amigo. Uma pessoa que você conheceu numa festa pode continuar na sua vida vinte anos depois.

Amizade não é uma categoria fechada. É uma possibilidade humana. Por isso eu gosto tanto daquela ideia de que certos encontros são benditos. Tem encontro que a gente vive. Tem encontro que a gente agradece. E tem encontro que vira amizade.

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A música Podes Crer, do Cidade Negra, me veio várias vezes à cabeça neste fim de semana. Não apenas pela lembrança da amizade como algo forte, mas por essa sensação bonita de conhecer alguém suficientemente bem para reconhecer suas alegrias e suas dores.

Amigo de verdade não conhece apenas aquilo que você gosta. Conhece também aquilo que machuca. E isso faz bem para a vida. Há uma coisa ainda mais bonita: a amizade cria uma espécie de rede. Quando uma pessoa está mal, quase nunca existe apenas uma pessoa sustentando aquela criatura.

E talvez a gente nunca saiba quantas vezes foi sustentado por essa rede sem sequer perceber. Por isso, minha filha, cuide dos seus amigos. Não espere uma emergência para lembrar que eles existem.

Mande mensagem. Convide para um café. Faça almoço. Vá ao teatro. Assista a um show. Pergunte como a pessoa está. Apareça. Diga que ama. Porque amizade também precisa de manutenção. Algumas das melhores coisas que a vida nos dá precisam ser regadas para continuar crescendo.

E por isso que eu voltei desse fim de semana tão feliz. Não foi apenas porque estivemos juntos. Foi porque, depois de tantos anos, ainda existe vontade de estarmos juntos. Isso, minha filha, é uma riqueza que não cabe em conta bancária.

Então hoje eu quero agradecer aos meus amigos. Aos que estavam comigo neste fim de semana e aos tantos outros que, de perto ou de longe, fazem parte dessa rede invisível de afeto, escuta, presença e cuidado. Aos que já me viram em dias maravilhosos e aos que me encontraram em dias em que eu não tinha a menor condição de parecer maravilhosa.

E até aos que, de vez em quando, tiveram a delicadeza de me dizer uma verdade que eu não queria ouvir. Porque amigo não é apenas quem concorda. É quem conhece você o bastante para dizer a verdade e gosta de você o bastante para continuar ali depois dela.

No fim das contas, penso que amizade seja uma das formas mais bonitas de aprender que ninguém precisa atravessar a vida sozinho.

A gente vai vivendo, mudando, errando, acertando, envelhecendo. E, no caminho, algumas pessoas vão ficando. Não por obrigação. Não por contrato. Não porque precisam. Ficam porque aprenderam, junto com a gente, a cultivar aquilo que existe entre nós.

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E agora, depois de tanta conversa, tanta risada e tanto café, minha casa voltou ao silêncio. Mas ficou uma coisa bonita espalhada por aqui. Algumas xícaras para lavar. Algumas histórias para lembrar. Alguns planos para o próximo encontro.

E aquela sensação boa de saber que, em algum lugar desta cidade imensa, existem pessoas com quem eu posso simplesmente ser Jorgina. Sem explicação. Sem defesa. Sem armadura.

Minha filha, se isso não for uma das melhores definições de amizade, eu não sei mais o que é.

Madame Jorgina, amiga da bicha esclarecida.

#FicaLokaMasNãoFicaBurra

Madame Jorgina

Madame Jorgina é cronista das pessoas, dos afetos e das pistas de dança. Ex-top drag, cartomante aposentada e leitora de borra de café, escreve sobre comportamento, música e as pequenas filosofias do cotidiano. Madame Jorgina acredita que toda pessoa pode ser uma bicha esclarecida. O resto é só conversa de quem ainda não tomou um bom café. Nota: Madame Jorgina é um alter ego de Mauro Galasso, que é de verdade, mas não cabia numa persona só.




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