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Vícios Modernos — quem escolhe o que pensamos que escolhemos?




Olá, bichas deste país varonil…

Outro dia me perguntaram qual carta do tarô representa melhor os algoritmos. Respondi que nenhuma. Tarô serve para ampliar perguntas. Algoritmo costuma fazer o contrário. Ele tenta respondê-las antes mesmo de você formulá-las. E talvez seja justamente aí que comece um dos grandes vícios modernos. Não o algoritmo. Mas a ilusão de que continuamos escolhendo tudo sozinhas. Na verdade, escolhemos cada vez menos. Achamos que escolhemos. Mas apenas reagimos.

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Uso o tarô como linguagem e o café como ritual. Mas o assunto continua sendo gente. E gente, minhas filhas, tem uma capacidade extraordinária de entregar o volante da própria vida sem perceber.

Conheci uma mulher que nos anos 60, dizia que um dos grandes vícios modernos era olhar apenas as fotografias das revistas. Ela estava certa. Naquela época, o problema não era a revista. Era a preguiça de aprofundar o olhar.

Hoje, o equivalente não é mais a fotografia. É o scroll infinito. Deslizamos o dedo para cima como quem acredita estar caminhando pelo mundo. Mas, muitas vezes, estamos apenas atravessando um corredor construído para nós. O problema não é existir algoritmo. O problema é entregar a ele o volante.

Existe uma diferença enorme entre procurar uma música e esperar que uma plataforma decida qual será a próxima.
Existe uma diferença enorme entre escolher um colunista e consumir apenas quem apareceu primeiro na sua tela.
Existe uma diferença enorme entre visitar um lugar e simplesmente ser levado até ele.

Perceba como a palavra “escolha” foi ficando silenciosa. A música aparece e o filme também. A notícia aparece. Um vídeo salta na sua frente. Um influenciador oferece uma resposta pronta. A indignação contamina. A polêmica ocupa espaço.  Tudo aparece sem nossa atuação e, pouco a pouco, deixamos de perguntar por que aquilo apareceu para nós.

Até nossos silêncios começaram a ser sugeridos.

Não existe almoço grátis. Também não existe feed inocente. Os algoritmos não são perversos, são sim fontes comerciais. Eles não foram criados para ampliar seu repertório. Foram criados para ampliar seu tempo de permanência.

O algoritmo não quer formar seu pensamento. Quer formar seu próximo clique. Quanto mais você reage as sugestões dele, mais ele acredita que está acertando. É justamente aí que mora o perigo para nós: Você começa a acreditar que o mundo inteiro pensa daquele jeito. Que todo mundo está indignado com o mesmo assunto. Que toda música importante é aquela que apareceu para você. Que todo mundo já viu aquele vídeo.

Quando, na verdade, foi apenas aquilo que decidiram mostrar para você. E isso não vale apenas para política. Vale para cultura, arte, humor, comportamento e para os afetos.

Até nossos silêncios começaram a ser sugeridos. Por isso insisto numa ideia que considero quase um exercício de higiene da alma. Toda bicha esclarecida precisa cultivar pequenos “jardins na internet”. Lugares para onde ela vai porque escolheu ir.

Pode ser um podcast ou uma newsletter que você realmente segue. Um jornalista ou um site que você confia consultar. Um músico. Um canal. Uma colunista. Um café onde sempre encontra as mesmas boas conversas.

Esses lugares são importantes porque devolvem uma coisa que nenhuma plataforma consegue oferecer automaticamente: A intenção. Você não chegou ali porque alguém empurrou. Você chegou porque decidiu entrar. E isso muda tudo.

Toda escolha que você deixa de fazer acaba sendo feita por alguém. E não falo só de internet. Eu falo de vida.
Quando você deixa de escolher o que lê… Alguém escolhe.
Quando deixa de escolher o que escuta… Alguém escolhe.
Quando deixa de escolher quais ideias merecem sua atenção… Alguém escolhe.

Toda bicha esclarecida precisa cultivar pequenos “jardins na internet”. Lugares para onde ela vai porque escolheu ir.

E, de escolha em escolha, pode chegar um dia em que você já não saiba distinguir aquilo que realmente pensa daquilo que apenas aprendeu a repetir.
Não estou sugerindo que você abandone a tecnologia. Muito pelo contrário. Continue usando streaming. Continue usando redes sociais. Continue assistindo vídeos. Continue ouvindo playlists. Mas, de vez em quando… Escolha o que consumir.

Escolha um disco inteiro. Escolha ler uma boa reportagem. Escolha um livro ou um audiolivro. Escolha um filme sem precisar da recomendação do algoritmo. Escolha visitar aquele site que você gosta. Escolha aquela colunista que sempre lhe faz pensar. Escolha voltar. Porque voltar também é uma escolha.

Vivemos numa época em que quase tudo disputa nossa atenção. Mas quase nada disputa nossa profundidade. E talvez a verdadeira liberdade moderna não seja consumir mais. Seja escolher melhor.

Porque, veja… A liberdade nunca esteve na quantidade de conteúdos disponíveis. Ela sempre esteve na capacidade de decidir quais deles merecem morar dentro da gente.

Bicha… Quem escolhe tudo no piloto automático acaba esquecendo para onde queria ir. Então, fica lôka. Mas não entrega o volante.

Madame Jorgina, sua criada.

#FicaLokaMasNãoFicaBurra

Madame Jorgina

Madame Jorgina é cronista das pessoas, dos afetos e das pistas de dança. Ex-top drag, cartomante aposentada e leitora de borra de café, escreve sobre comportamento, música e as pequenas filosofias do cotidiano. Madame Jorgina acredita que toda pessoa pode ser uma bicha esclarecida. O resto é só conversa de quem ainda não tomou um bom café. Nota: Madame Jorgina é um alter ego de Mauro Galasso, que é de verdade, mas não cabia numa persona só.




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