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Uma pessoa “Bicha de Alma” não nasce pronta.



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Olá, bichas deste país varonil…

Uso o tarô apenas como linguagem. Uso o café apenas como ritual. Pois meu verdadeiro assunto sempre será o mesmo: gente.

Não sou exatamente uma especialista. Estou mais para uma sábia popular. Uma ex-Top Drag Queen que, depois de tantos anos sob os holofotes, decidiu trocar parte do brilho pela sabedoria. Não que eu tenha abandonado completamente o glamour (pois ninguém precisa exagerar na modéstia, minha filha), mas descobri que existe uma elegância muito maior do que qualquer figurino de palco: compreender as pessoas.

E isso leva tempo. Muito tempo. Às vezes uma vida inteira. Por isso envelheço tentando preservar duas coisas que considero fundamentais: a elegância e o humor. A primeira porque ninguém precisa ficar desleixada só porque ficou mais velha. A segunda porque, sem humor, a vida vira uma reunião de condomínio que nunca termina.

E minha finada joanete discorda, mas às vezes uma pista de dança é tudo o que uma bicha precisa. Uma boa música. Um corpo que ainda responde. Um grupo de amigas e amigos. Um pouco de suor. E a deliciosa sensação de que, por algumas horas, ninguém precisa explicar absolutamente nada.

Mas há uma coisa que aprendi depois de tantos anos observando gente: bicha é um estado de espírito. E talvez esteja na hora de explicar isso melhor.

A palavra “Bicha” deixou de ser, para mim, apenas um marcador de orientação sexual. É uma palavra que ganhou outra dimensão.

Bicha é alguém curioso. Alguém afetuoso. Alguém que não perdeu a capacidade de rir de si mesmo. Alguém que pensa. Alguém que luta por uma vida digna. Alguém que sabe celebrar.

Bicha é quem ainda consegue olhar para o mundo e dizer: “Eu não entendi. Mas quero entender.” Penso que é aí que mora a verdadeira bicha esclarecida.

Porque a verdadeira bicha esclarecida não é aquela que sabe tudo. É aquela que continua aprendendo. Por isso acredito que toda pessoa pode ser uma pessoa bicha de alma.

Pode ser um executivo. Uma professora. Um caminhoneiro. Uma drag queen. Uma aposentada. Um estudante. Uma mãe. Um músico. Um empreendedor. Qualquer pessoa. Desde que tenha curiosidade suficiente para não acreditar que já sabe tudo sobre a vida. E coragem suficiente para descobrir quem é sem precisar copiar quem quer que seja.

Aliás, isso me lembra uma conversa antiga. Muito antiga. Porque houve um tempo em que as pessoas não tinham Instagram para dizer como deveriam ser atraentes. Não havia algoritmo escolhendo a roupa, o corpo, o corte de cabelo, o café da manhã ou o tipo de felicidade que você deveria desejar.

Mas a angústia era parecida. As pessoas já queriam saber como ser desejadas. Como ser admiradas. Como ser atraentes.

E Clarice, minha querida Clarice, já nos lembrava de uma coisa muito simples: você não vai agradar todo mundo. Ainda bem. Imagine o trabalho.

Você ficará realmente desnorteada se imaginar que uma pessoa atraente precisa atrair todas as pessoas. Não creia que seu encanto tenha obrigação de sensibilizar morenos, morenas, louros e louras, sarados e saradas, boêmios e boêmias, românticos e românticas, modernos e moderníssimos.

Você tem seu público. E isso deveria ser suficiente. Porque não adianta copiar o sex appeal de outra pessoa. Você precisa descobrir o seu. O seu jeito. O seu corpo. A sua voz. O seu humor. A sua maneira de entrar numa sala. A sua maneira de amar. A sua maneira de dançar. A sua maneira de existir.

O que você pode começar a fazer é examinar-se metodicamente. Não para encontrar defeitos. Mas para descobrir as características que você pode e talvez deva acentuar. Faça a descoberta de si mesma. Ou de si mesmo.

E, aos poucos, você descobrirá que é muito mais seguro e compensador valorizar-se do que passar a vida inteira sendo um carbono manchado de algum influencer de vida saudável.

Hoje você copia um, amanhã copia outra. Hoje é o corpo perfeito. Amanhã é o homem perfeito. Depois é a mulher perfeita. Depois é o empreendedor perfeito. Depois é o relacionamento perfeito. Depois é a rotina perfeita. E, quando percebe, está exausta de tentar ser uma pessoa que nunca existiu.

Para azamigas digo sempre: Livre-se da obsessão do “control + copy”. Porque o maior ato de rebeldia dos nossos tempos seja justamente esse: descobrir quem você é sem pedir autorização ao algoritmo.

Eu sei. Parece simplista demais. Mas não é. A gente passa uma vida inteira tentando descobrir quem é. E, quando finalmente começa a descobrir, percebe que ainda vai levar algum tempo para aprender a apresentar essa pessoa ao mundo.

Foi assim comigo. Eu fui Jorge. Fui transformista. Fui Top Drag Queen. Fui Madame Jorgina. E continuo sendo muitas outras coisas que ainda estou aprendendo a nomear.

Como diria meu falecido Sargento Julião, “a arte de continuar curioso talvez seja uma das formas mais bonitas de permanecer vivo.”

E é por isso que eu digo: Fica lôka. Ame. Dance. Sonhe. Arrisque. Recomece. Celebre. Mas, pelo amor de todas as madames desta galáxia… não abra mão de pensar.

Porque ser uma bicha esclarecida não significa ter todas as respostas. Significa ter coragem para fazer perguntas. Significa não aceitar que alguém pense por você. Significa olhar para si mesma e dizer: “Eu ainda não sei quem sou completamente.”

E, em vez de ter vergonha disso, sentir uma enorme curiosidade para descobrir. É assim que a gente fica livre. Um pouco de cada vez. Um tijolinho por vez. E, quando a vida derruba tudo, a gente começa de novo. Porque, minha filha… Ninguém nasce livre. A gente vai ficando livre pelo caminho. Tijolinho por tijolinho.

E se, no meio do caminho, você encontrar uma pista de dança, entre. Se encontrar um café, sente. Se encontrar um amor, cuide. Se encontrar uma pergunta, não tenha pressa de respondê-la.

E se alguém aparecer dizendo que descobriu a fórmula definitiva para você ser feliz… Desconfie. Talvez seja apenas mais um carbono manchado.

Madame Jorgina, sua criada.

#FicaLokaMasNãoFicaBurra

Madame Jorgina

Madame Jorgina é cronista das pessoas, dos afetos e das pistas de dança. Ex-top drag, cartomante aposentada e leitora de borra de café, escreve sobre comportamento, música e as pequenas filosofias do cotidiano. Madame Jorgina acredita que toda pessoa pode ser uma bicha esclarecida. O resto é só conversa de quem ainda não tomou um bom café. Nota: Madame Jorgina é um alter ego de Mauro Galasso, que é de verdade, mas não cabia numa persona só.




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