
Eu sempre gostei de viajar de trem. Mas não é qualquer viagem. São aquelas viagens que têm vagão-restaurante. Talvez porque, para mim, viajar assim nunca foi só sobre ir de um lugar ao outro era sobre tudo o que acontecia no caminho.
Quando eu era pequena, vinha com a minha família para Santos. Eu não parava quieta. Tudo me chamava a atenção, tudo parecia mais interessante do que ficar sentada. E era então que meu pai me levava para o vagão-restaurante. A ideia era simples: tomar um chá, comer alguma coisa… e, claro, me fazer ficar sentada por alguns minutos.
Mas, sem perceber, ele estava me ensinando outra coisa.
Ali, entre uma xícara e outra, entre o balanço do trem e o barulho dos trilhos, a viagem ganhava outro ritmo. Não era mais só deslocamento. Era expectativa. Era pausa. Era um tempo que não tinha pressa.
E talvez seja por isso que, até hoje, viajar de trem me traz uma sensação difícil de explicar uma mistura de memória com descoberta. Como se cada viagem carregasse um pouco daquilo que ficou e, ao mesmo tempo, abrisse espaço para o novo.
Eu lembro da primeira vez que chegamos a Santos.
A estação, o movimento, o cheiro do mar chegando antes mesmo de aparecer. E, depois, a orla. Tanta coisa para olhar que eu não conseguia escolher um ponto só. Era como se tudo chamasse ao mesmo tempo. E, de alguma forma, eu soube ali que aquele lugar ficaria comigo.
Ficou.
Até hoje, quando eu quero sentir um certo “quentinho” no coração, eu faço uma pausa, fecho os olhos e volto para aquela viagem. Para o som do trem, para o vagão-restaurante, para o olhar curioso de quem estava descobrindo tudo pela primeira vez.
Talvez o Dia Nacional do Turismo seja, no fundo, sobre isso.
Não sobre destinos, nem sobre roteiros perfeitos. Mas sobre essas memórias que a gente carrega sem perceber. Sobre os momentos que não estavam planejados e que, ainda assim, se tornam os mais importantes.
Porque turismo também é memória.
E existe um tipo de experiência que não aparece em guia nenhum. Ela não está nas listas de “imperdíveis” e dificilmente vira foto. É aquela que acontece no detalhe. No tempo que desacelera. No lugar que, por algum motivo, faz sentido mesmo que a gente não saiba explicar por quê.
Hoje, a gente viaja mais. Vai mais longe. Vê mais coisas. Mas, às vezes, sente menos.
Existe uma pressa que atravessa tudo. Uma necessidade de aproveitar ao máximo, de registrar, de não perder nada. Como se viajar fosse cumprir um roteiro invisível. E, no meio disso, aquilo que realmente importa acaba ficando de lado.
A gente não viaja para tirar fotos. Mas, às vezes, parece que esqueceu disso.
Em cidades como Santos, onde o mar está ali, ao alcance dos olhos, é curioso perceber como até aquilo que deveria ser rotina pode virar cenário e não experiência. Quantas vezes a gente passa pelos mesmos lugares sem realmente estar neles? Quantas vezes olha…, mas não vê?
Quem já observou uma criança que vê o mar pela primeira vez? Ela quase nem acredita no que vê: a imensidão do mar ali na frente, fica sem saber para onde olhar, sente medo num primeiro momento, até os olhos se acostumarem e ela correr para pular as ondas, e com certeza essa sensação vai acompanhá-la por anos e talvez sempre que ela voltar vai sentir da mesma forma como da primeira vez, porque essa lembrança está na sua memória e é isso que vir a praia significa para ela: a memória de um lugar que marcou sua infância.
Porque as melhores viagens não são feitas só de lugares.
São feitas de sensações.
São feitas de momentos que a gente revisita anos depois, sem precisar de foto, sem precisar de prova. Basta lembrar.
Talvez o turismo que realmente importa seja esse: o que permanece.
O que volta com a gente.
O que, de alguma forma, ajuda a gente a entender quem é e o que faz sentido.
E talvez por isso algumas viagens nunca terminem.
Elas continuam existindo dentro da gente.
Como aquele trajeto de trem.
Como aquele primeiro olhar para o mar.
Como a certeza, ainda que silenciosa, de que certos lugares não são apenas destinos. São parte da nossa história.
E para mim é o verdadeiro sentido de viajar, fazer um estoque de lembranças boas, de lugares incríveis que me tragam sensações, saudades de algo bom que basta fechar os olhos e consigo revisitar na memória o que vi e vivi naquele local sempre que quiser!
Um excelente final de semana a todos!
Grande abraço 😊





