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Quem cuida de quem



Devo confessar que minha imersão no reino da psique não começou por motivos nobres. Eu era um jovem adulto, na casa dos vinte, perdido, emocionalmente desregulado. Comecei no desespero mesmo. Preso entre a cruz e a espada: condenado a repetir relacionamentos codependentes e doentios ou a enfrentar a solidão, a carência e a depressão. Na época, meu único recurso era a marijuana, que usava diariamente para tentar abafar o som ensurdecedor das neuras dentro de mim.

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Ainda bem que o destino me trouxe às portas de uma faculdade de psicologia…

A verdade é que, ao longo dos meus muitos anos acadêmicos, não só aprendi muito, mas também acabei encontrando minhas próprias patologias. Sim. Nada de suavizar, nada de sugar coating: patologias mesmo. Olha, não foi nada fácil estar na sala de aula inúmeras vezes e pensar: “Ei, eu tenho esse sintoma” —ou, pior ainda, esse conjunto de sintomas. Quantas vezes ia para casa pensativo, confuso, por vezes quase desenganado, até poder turvar as mágoas no fiel baseado de cada dia.

A psicologia aos poucos me trouxe uma alternativa. Aos poucos, em vez de me rodear com uma névoa densa, comecei a ver uma luz no fim do túnel. Não. Peraí. Primeiro vi o túnel. A luz veio depois 🙂

Na psicologia, o primeiro passo foi dar nome aos bois. Antes, estava entre a cruz e a espada. Agora, me via entre fobias e depressões. Em verdade, esse foi um passo enorme. Me fez perceber que eu não era aquela bagunça toda, mas que estava com uma bagunça dentro de mim; estava doente, e doença tem cura.

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Assim, logo me vi diante do segundo passo. Aqui não havia muita escolha. Ou eu fingia—como a maioria dos psicólogos—que era imune às aflições da psique e continuava me entorpecendo, ou encarava de frente meus problemas debilitantes. Felizmente, escolhi a segunda opção. Felizmente, o encontro com a sombra.

Como eu disse, não foi fácil, mas eventualmente acabou sendo extremamente produtivo; não apenas porque, ao tomar consciência das minhas “perturbações”, pude me tratar, mas também porque hoje sinto que meu conhecimento vem menos dos livros, das palestras e dos workshops do que da minha própria experiência. Como dizem em inglês: been there, done that.

Agora, enquanto batalhava contra meus demônios, a maioria dos meus colegas passava alheia às explicações, ignorando seus próprios sinais de patologia. É. Sinto dizer isso, mas depois de anos de estudo acadêmico na área psi, posso afirmar que grande parte da classe profissional de psicólogos é formada por indivíduos bastante problemáticos. E o pior de tudo é que acreditam que não são e estão por aí “tratando” as pessoas. Ai, ai, ai.

Lembro-me de um episódio lamentável durante meu trabalho em uma clínica psiquiátrica no Rio, onde supervisionava uma equipe de psicólogos junto com uma fulana. Certo dia, estávamos todos no pátio com os pacientes, quando um deles a viu e começou a se masturbar à vista de todos. Se você estivesse na rua e alguém começasse a se masturbar, você provavelmente reagiria de forma drástica. Isto porque você não recebeu anos de treinamento psicológico, além de estar em um ambiente público, onde se espera que as pessoas não se comportem desta forma. Mas esse tipo de coisa não seria nenhuma surpresa em uma situação como aquela, não é mesmo? Pois bem. Assim que viu o paciente—que por sinal estava bem longe dela—a dita cuja teve um ataque de nervos, surtou mesmo, a ponto de não sabermos quem deveríamos conter: o rapaz doente mental (que, diante desta reação, havia passado da masturbação para uma crise de agitação intensa) ou a dra. supervisora…

Enfim. Cada um com suas limitações.

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Moral da história: da próxima vez que for procurar um(a) psicólogo(a), pesquise direitinho para saber se esse indivíduo está engajado em seu próprio processo de autoconhecimento. Não é necessário ser um mestre zen, impecavelmente consciente, mas é fundamental ter um entendimento mais do que básico de seus próprios padrões e processos. Afinal, você não vai querer que alguém em posição de autoridade use você como saco de pancadas emocional e ainda receba por isso, não é? Just saying

Até a próxima!

Ronny Lemos

Terapeuta, escritor e professor, Ronny Lemos oferece uma abordagem integrativa que une sabedoria oriental e pensamento psicológico ocidental contemporâneo. Seu trabalho cria um espaço seguro para transformação profunda e consciente, inspirando os outros por meio de seu próprio compromisso contínuo com o autoconhecimento.




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