Your request was blocked.
> COLUNAS

Será Frankenstein um filme vazio?



frankenstein

O CONTEÚDO E MAIS ESTÁ NO WHATSAPP!

Junte-se a nós para ficar atualizado de todas as novidades!

O CONTEÚDO E MAIS ESTÁ NO WHATSAPP! Junte-se a nós para ficar atualizado de todas as novidades!

Olá, meus queridos leitores. Faz muito tempo que não apareço por aqui, eu sei. As coisas estão difíceis, a vida anda uma bagunça digna de roteiro de terror psicológico, e eu quase já estava me sentindo aquele colunista fantasma que só assombra o portal quando dá vontade. Mas no último domingo, vencido pela curiosidade e precisando respirar um pouco fora do caos, parei para assistir a Frankenstein, a nova adaptação de Guillermo del Toro. E, meus queridos, não deu outra. Terminei o filme e pensei: “Ok, acho que já passeei demais longe de vocês. Está na hora de voltar à coluna.”

Então sente-se, pegue um café, e vamos conversar sobre esse filme que, para o bem ou para o mal, merece ser discutido com calma.

Frankenstein
Oscar Isaac e Mia Goth em Frankenstein (2025)

Guillermo del Toro tem muitas marcas registradas. Criaturas trágicas, relações entre monstros e homens, mundos sombrios e belas deformidades, e tudo isso embalado em estética quase artesanal. Mesmo quem não segue o diretor de perto reconhece seu estilo na hora. E em Frankenstein, ele parece ter decidido colocar tudo o que sabe fazer numa só panela, mexer com carinho e servir quente.

O uso de efeitos práticos, maquetes, texturas táteis e uma paleta de cores que oscila entre o gótico e o fabuloso transforma o filme em uma pintura viva. Os sets são tão detalhados que parecem estar sempre um passo de roubar a cena; os figurinos, sobretudo, dão aquela sensação de que alguém passou meses costurando cada mínimo detalhe com devoção. Pode até soar fantasioso demais em certos momentos, afastando o realismo, mas convenhamos: del Toro nunca prometeu realismo. Ele prometeu poesia visual, e isso ele entrega com generosidade.

PUBLICIDADE | ANUNCIE

Se existe um ponto onde o diretor nunca tropeça é na construção de atmosferas. Em Frankenstein, há algo de melancólico que flutua por toda a narrativa, como se o mundo estivesse sempre prestes a desabar, o que combina perfeitamente com a tragédia central. Um espetáculo estético? Sem dúvida. Talvez o mais refinado do diretor até agora.

Frankenstein
Oscar Isaac em Frankenstein (2025)

O elenco é um caso à parte. Oscar Isaac, no papel de Victor Frankenstein, assume uma trajetória complexa. Começa como um jovem sedento pelo conhecimento, movido por ideais e pela clássica obsessão de vencer a morte — e termina como alguém de quem não gostamos tanto assim. Aos poucos, o brilho nos olhos do personagem dá lugar a um narcisismo crescente, a um descolamento moral que vai mostrando o Victor mais cruel, mais soberbo e, por vezes, mais covarde.

Isaac conduz essa transformação com uma precisão assustadora. Há momentos em que sua frieza é tão calculada que a própria criatura, com toda sua força física, parece menos ameaçadora do que seu criador. Como sempre, Isaac entrega nuances sutis nos olhares, nas pausas, nos silêncios desconfortáveis. Ele domina a tela sem esforço.

Mas, ironicamente, apesar de o elenco inteiro ser muito bem escolhido, ninguém realmente tem espaço para brilhar ao lado dos dois protagonistas. Não por falta de talento — e sim por falta de participação efetiva na trama. É aqui que começamos a entrar no território dos problemas do filme.

PUBLICIDADE | ANUNCIE

Frankenstein
Jacob Elordi em Frankenstein (2025)

O maior destaque da produção é Jacob Elordi. E aqui não estou falando apenas pela surpresa de vê-lo se afastar dos papéis mais modernos e egoístas que costuma interpretar. Em Frankenstein, ele dá vida ao Monstro de forma impressionante — física e emocionalmente.

Ele começa como uma espécie de criança enorme e desajeitada, alguém para quem o mundo é novidade, luz, som, calor e dor em doses iguais. O olhar curioso, os gestos inseguros, a dificuldade de articular sentimentos — tudo isso compõe uma criatura que, mesmo com aparência grotesca, é profundamente humana em sua inocência inicial.

À medida que a história avança e a criatura amadurece, Elordi vai transformando a interpretação com uma delicadeza rara: o corpo continua pesado, mas a postura muda; a expressão endurece um pouco; a ingenuidade cede espaço à dor e à revolta. É um arco impecável. E mais: a oscilação entre o delicado e o ameaçador nunca parece forçada.

Se havia espaço para um único personagem brilhar plenamente neste filme, esse espaço foi dele.

PUBLICIDADE | ANUNCIE

Frankenstein
Oscar Isaac em Frankenstein (2025)

Aqui chegamos ao ponto mais fraco do filme — e, infelizmente, ele pesa bastante.

Del Toro faz algo que já é comum em sua obra: questiona nossa percepção de “monstro”. Ele adora inverter expectativas, mostrar que a verdadeira monstruosidade frequentemente está nos humanos, no abuso, na crueldade, na arrogância. Essa abordagem sempre rendeu reflexões interessantes, como em O Labirinto do Fauno ou A Forma da Água.

Porém, em Frankenstein, essa releitura acaba indo longe demais.

O roteiro altera a obra original de Mary Shelley — que, confesso, ainda não li (sim, que vergonha…), de modo que a criatura perde parte de suas terríveis ações. Não que ela seja um anjo, claro. Mas as atrocidades cometidas em nome da vingança, que deveriam gerar conflitos morais e afetivos no espectador, são suavizadas. Algumas nem aparecem.

PUBLICIDADE | ANUNCIE

Assim, o monstro torna-se quase um coitadinho eternamente injustiçado, enquanto Victor vira a personificação do vilão narcisista. Isso gera um desequilíbrio incômodo. Ao tentar humanizar demais a criatura e condenar demais o criador, o filme cai em uma espécie de maniqueísmo simplista, algo que empobrece profundamente a força dramática da história.

E como os personagens coadjuvantes possuem pouco tempo de tela e praticamente nenhuma profundidade, o universo moral da narrativa se resume a três figuras:
– o monstro injustiçado,
– o criador cruel,
– e um mundo vazio em volta deles.

É pouco para uma obra que sempre explorou dilemas humanos complexos e profundos.

Frankenstein

A ironia de tudo é que, embora eu tenha gostado muito do filme, senti que faltou coragem para lidar com a verdadeira pergunta que sempre acompanhou Frankenstein: quão responsável é cada um pela tragédia que se forma?

Se o monstro não é mostrado cometendo seus piores atos, como cobrar dele mais autocontrole? Se Victor se transforma quase num vilão clássico, como discutir nuances de culpa, arrependimento ou humanidade? Se os outros personagens não têm relevância, para que serve a sociedade que deveria contrastar as duas figuras centrais?

PUBLICIDADE | ANUNCIE

Tudo fica restringido, simplificado, empobrecido. E isso impede o filme de alcançar algo maior, talvez de se tornar o melhor título do ano.

Ainda assim, vale dizer: mesmo com esses tropeços, é um filme belíssimo, potente e emocional. E, visualmente, talvez seja o mais impressionante Frankenstein já filmado.

Mas se for para escolher minha versão favorita, fico com a adaptação de Kenneth Branagh, com Robert De Niro como a criatura, ainda reina absoluta, pelo drama bruto, pela intensidade emocional, pela ambiguidade moral e pelo equilíbrio entre poesia e horror.

Frankenstein
Robert De Niro em Frankenstein de Mary Shelley (1994)

Frankenstein, de Guillermo del Toro, é um filme que fascina pelo que tem de melhor e decepciona pelo que escolhe não explorar. É como uma obra de arte incompleta: deslumbrante à primeira vista, mas que, ao olhar mais atento, revela lacunas importantes.

PUBLICIDADE | ANUNCIE

Ainda assim, é um filme que vale a experiência, sobretudo se você, como eu, estava precisando de algo capaz de arrancar da rotina e fazer lembrar porque amamos cinema.

Se ficou alguma dúvida, meus queridos leitores, deixem nos comentários que eu respondo com prazer.
E, por favor, não deixem de curtir este texto, isso ajuda muito este colunista que finalmente decidiu ressuscitar por aqui.

PUBLICIDADE | ANUNCIE

Até a próxima!

Ricardo

Olá. Meu nome é Ricardo Reis, empresário, ex-professor e (ainda) entusiasta de cinema.




CRIE SUA CONTA GRÁTIS E ENTRE NA CONVERSA!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


TRAGA A SUA VOZ PARA O CONTEÚDO E MAIS!

Escreva, compartilhe e influencie! Torne-se um colunista e publique suas opiniões, experiências e ideias em nossa plataforma.


Scroll to top