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A epidemia de filmes natalinos




filmes natalinos
© 2025 Netflix, Inc.

Olá meus queridos leitores. Todo ano, quando novembro dá as primeiras caras, acontece um fenômeno curioso nas plataformas de streaming. Não é exatamente uma tradição ancestral, tampouco um rito sagrado. É apenas o momento em que somos inundados por uma avalanche de filmes natalinos que parecem ter sido produzidos dentro de uma mesma fábrica. Histórias iguais, cores iguais, conflitos iguais, elencos quase intercambiáveis. Chega dezembro e já estamos anestesiados, assistindo àquilo como quem observa um ventilador girar. Confortável. Repetitivo. E absolutamente previsível.

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Mas por que, afinal, esses filmes são tão fracos? Por que abandonamos a era dos grandes clássicos natalinos e abraçamos a fase atual, onde tudo parece ter sido escrito às pressas, como um trabalho escolar feito no recreio? Para responder a isso, é preciso observar o ecossistema onde esses produtos são criados. Sim, produtos. É aqui que mora a diferença fundamental entre os filmes de antes e os de hoje.

Os clássicos natalinos antigos tinham histórias que iam além do próprio Natal. Milagre na Rua 34 falava de crença e inocência numa sociedade cética. A Felicidade Não Se Compra tratava de desespero, propósito e esperança, usando o Natal como cenário emocional. O Grinch discutia consumo, pertencimento e redenção. Esses filmes eram narrativas completas, com estrutura, ambição e intenção. Eles não dependiam apenas do vermelho e verde das decorações. Usavam o Natal como porta de entrada, não como destino final.

Já os filmes natalinos modernos funcionam como doces industrializados. Bonitos por fora, doces por dentro e praticamente sem valor nutricional. Não são criados para emocionar. São criados para reter. Os roteiros existem apenas para sustentar o algoritmo. E o algoritmo existe apenas para manter o usuário dentro da plataforma, como um hóspede de hotel que já não sabe se está lá por vontade ou por inércia.

É claro que podemos culpar os roteiristas, que muitas vezes trabalham em prazos impossíveis. Também podemos culpar os produtores, que enxergam o Natal como uma mina de ouro sazonal. Mas a verdade é que o problema é estrutural. O modelo de negócios do streaming não premia ousadia. Ele premia quantidade. Quanto mais títulos lançados, maior o catálogo. Quanto maior o catálogo, maior a chance de você clicar em algo. É quase um jogo de probabilidades emocionais.

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Os filmes são feitos em série. Custam pouco. Envolvem histórias que cabem num parágrafo. Uma executiva estressada volta para sua cidade natal e reencontra um amor antigo. Um escritor em crise aceita cuidar de uma pousada. Uma confeiteira tenta salvar o negócio da família. Em todos eles existe um cachorro simpático, um avô sábio, uma praça iluminada e neve que claramente não é neve. O conflito nunca é profundo. No máximo, um mal entendido que pode ser resolvido com uma conversa de cinco minutos. E o beijo final é sempre guardado para a última cena, como se fosse uma recompensa ao espectador por ter resistido bravamente até ali.

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Minka Kelly e Tom Wozniczka em Borbulhas de Amor (2025) | © 2025 Netflix, Inc.

É impressionante como esses filmes se repetem. É como assistir a um mesmo prato sendo servido todos os dias, apenas com o tempero ligeiramente modificado. Às vezes, trocam a protagonista de uma cidade pequena por um protagonista viúvo. Às vezes, mudam a profissão. Às vezes, adicionam um pequeno mistério. Mas a estrutura é sempre a mesma. E o mais curioso é que isso não acontece por incompetência. Acontece porque funciona. Esse é o ponto mais surpreendente.

As pessoas assistem. Assistem muito. Maratonam. Repetem. E fazem disso uma espécie de trilha sonora emocional do fim do ano. Enquanto em outubro gostamos de terror e suspense, em dezembro buscamos conforto e previsibilidade. O mundo real já é complicado o suficiente. Não queremos mais nada que nos desafie emocionalmente. Queremos abraços, luzes piscantes e um final feliz que nunca falha. E como as plataformas sabem disso, não têm a menor intenção de mudar.

O comportamento do público é uma peça central dessa engrenagem. O cinema sempre foi moldado pelo gosto coletivo. Quando o público valoriza obras profundas, elas surgem. Quando o público quer espetáculo visual, ele aparece. Quando o público deseja narrativas fáceis, simples e doces, a indústria entrega. No caso dos filmes natalinos modernos, a demanda é claríssima. Eles não são pensados para serem memoráveis. São pensados para serem confortáveis. Não exigem atenção total, não exigem reflexão e não exigem lealdade. São o equivalente cinematográfico de um chá quente: algo que simplesmente acompanha o ambiente.

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Com isso, chegamos ao ponto mais delicado. Não adianta reclamar que os filmes de Natal são ruins se continuamos assistindo todos os anos. E assistimos. Falo aqui como observador, não como acusação. É como naquela célebre frase de Tropa de Elite. Quem financia essa merda? Pois é. No caso dos filmes natalinos, somos nós mesmos. Cada clique, cada play automático, cada noite de maratona com cobertor no sofá alimenta o ciclo. As plataformas só fazem aquilo que é lucrativo. E se o repetitivo vende mais do que o inventivo, adivinha quem vai ganhar?

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Mark Wahlberg, Michelle Monaghan e Zoe Colletti em Plano em Família 2 (2025)

Talvez exista algo poético nisso tudo. No fundo, buscamos histórias que nos façam sentir seguros. Mesmo que sejam frágeis, bobas ou rasas. Mesmo que soem escritas por inteligência artificial com pressa. Mesmo que possam ser previstas do primeiro ao último minuto. Não buscamos o inesperado em dezembro. Buscamos o reconfortante. E os filmes natalinos atuais abraçam essa demanda com uma devoção quase religiosa.

Se calhar, daqui a alguns anos, alguma plataforma decidirá investir em um novo grande clássico. Algo que recupere o espírito dos antigos, com profundidade e intenção artística real. Talvez vire moda. Talvez inaugure uma nova era. Mas por enquanto, seguimos consumindo as histórias padronizadas que chegam em fila, como presentes empilhados sob uma árvore brilhante demais para ser real.

Se quiser dividir algum favorito de fim de ano, mesmo que seja desses, deixe nos comentários. Aproveite para curtir o texto, pois isso ajuda muito o colunista aqui. Até a próxima!

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Ricardo

Olá. Meu nome é Ricardo Reis, empresário, ex-professor e (ainda) entusiasta de cinema.




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