
Meu caro empreendedor, vamos falar de um tema que todo mundo insiste em tratar como unanimidade, mas que, quando olhamos de perto, está longe de ser: a Black Friday. Você já deve ter sentido aquela pressão silenciosa , ou nem tão silenciosa assim , de que “precisa fazer alguma coisa”, porque, se não fizer, vai parecer que sua empresa ficou para trás, que perdeu o timing, que não entendeu o jogo. Mas será que essa lógica realmente se sustenta? Será que todas as marcas precisam entrar nessa corrida? E mais: será que entrar só para cumprir tabela não sai mais caro do que ficar de fora?
É aqui que começa a confusão. Porque, enquanto muitos empreendedores acreditam que a Black Friday é uma espécie de “carnaval universal do desconto”, na prática ela é antes de tudo um amplificador. E amplificador não cria nada do zero: ele só joga para longe aquilo que você já é. Se sua marca é bem posicionada, coerente e estruturada, a Black Friday pode reforçar sua autoridade. Se ainda está em construção, ou tem uma estratégia meio capenga, pode transformar falhas discretas em barulho ensurdecedor. Por isso, meu amigo empreendedor, participar ou não participar não é uma decisão simples, e definitivamente não deveria ser emocional.
E aí entra um ponto importante: muitas marcas não têm margem para dar descontos agressivos. Isso é um fato, não uma fraqueza. É comum encontrar empreendedores frustrados porque “todos os concorrentes estão dando 50%” e eles não conseguem passar de 10% sem perder a camisa. Mas quem disse que você precisa competir nessa corrida? Quem disse que o único jeito de participar da Black Friday é derrubando preço? A verdade, que poucos assumem, é que dar desconto quando a margem não comporta é sinal de desespero, não de estratégia. E desespero, você sabe, nunca foi uma boa ferramenta de branding.
Mas vamos supor que, ainda assim, você queira participar do movimento. E faz sentido querer. Afinal, em um período em que a atenção do consumidor está naturalmente aquecida, é compreensível querer aproveitar a onda. O grande segredo, no entanto, é participar sem colocar a identidade da sua marca em risco. Participar sem virar varejão, sem apagar o que você construiu o ano inteiro. Porque, no fim das contas, o seu maior ativo não é o faturamento de um dia, é a percepção que o mercado tem sobre você.
É nessa hora que muita marca acaba tropeçando. Empreendedor se sente pressionado, quer mostrar que está ali, ativo, presente. Acha que precisa acompanhar o movimento geral para não “parecer fraco”. Só que presença vazia não gera autoridade. E, pior ainda, criar desconto por obrigação é como pedir desculpas por existir: você comunica que o seu produto só vale a pena quando está mais barato. E, depois que esse vírus entra, recuperá-lo é difícil.
Por isso, quero te convidar a uma virada de chave: pense em valor, não em preço. Quando você entende que valor é percepção , e percepção é construída ,, você percebe que existem diversas maneiras de atrair interesse durante a Black Friday sem abrir mão da sua margem ou do seu posicionamento. Por exemplo, você pode trabalhar com brindes. Não é “ganhar um chaveiro genérico”; é entregar algo exclusivo, alinhado ao universo da marca, algo que só existe naquele momento e que reforça a sensação de que o consumidor está recebendo algo especial.
Outra forma inteligente é trabalhar com kits, bundles, pacotes combinados. Quando você cria uma composição que faz sentido, você não está “dando desconto”, está oferecendo uma solução completa. Isso não desvaloriza o produto individual e ainda aumenta o ticket, sem mexer no preço unitário. Kits são uma excelente forma de participar do momento promocional sem destruir margens, porque o cliente percebe vantagem , e você mantém coerência interna.
E se sua marca opera com serviços, existe a possibilidade de oferecer upgrades. Imagine oferecer, por um período limitado, uma versão premium pelo preço da padrão ou entregar uma consultoria extra gratuitamente. O custo real disso para você é baixo, mas o impacto percebido pelo cliente é enorme. E, veja, nada disso mexe no posicionamento da marca. Pelo contrário: reforça a ideia de que você é generoso na forma certa, sem cair na armadilha do “tudo pela metade do dobro”.
Agora, se você não quer mexer em preço, nem em produto, nem em pacote, ainda existe o poder da narrativa. A Black Friday não precisa ser sobre “promoção”; pode ser sobre celebração, sobre editorial, sobre curadoria. Você pode selecionar produtos ou serviços e criar um storytelling que os torne especiais para aquele momento. Você pode lançar algo novo. Pode transformar a data em palco para mostrar diferenciais. Às vezes, o simples fato de você conduzir a conversa já é o suficiente para se manter presente no radar do consumidor.
E, claro, sempre existe aquela alternativa ousada: a campanha anti-Black Friday. Só que, antes que você se empolgue, é preciso ter cuidado. Não funciona se for só bravata. A frase “não damos desconto porque prezamos qualidade” precisa vir acompanhada de ações que realmente reforcem esse posicionamento. Pode ser conteúdo de altíssimo valor, pode ser um workshop, pode ser consultoria, pode ser uma ação social honesta. Sem isso, fica apenas como um “contra por contra”, e isso o mercado percebe.
O que importa, no fundo, é que você entenda que a Black Friday não é um evento obrigatório. Ela é uma oportunidade, e toda oportunidade só faz sentido quando se encaixa na sua estratégia. Se sua marca não está pronta, forçar a entrada pode custar caro. Se seu posicionamento não suporta desconto, insistir nisso pode criar uma contradição perigosa. E se sua margem não permite participar da festa do preço baixo, tente outra festa. Existem várias acontecendo ao mesmo tempo.
Agora, meu caro empreendedor, se você decidir participar, participe com intenção. Não faça porque o concorrente fez. Não faça porque ouviu um “tem que fazer”. Faça porque sua marca tem algo a ganhar com isso. Faça porque existe uma narrativa possível, coerente e sustentável. É isso que diferencia quem apenas segue o fluxo de quem lidera o próprio caminho. E, convenhamos, quem constrói marca não está aqui para correr atrás, está aqui para guiar.
Vou encerrando por aqui porque sei que você tem decisões importantes para tomar e não quero roubar mais do seu tempo. Mas espero, sinceramente, que esse texto tenha te ajudado a enxergar a Black Friday com menos emoção e mais estratégia. E, claro, quero muito saber o que você pensa: deixe suas opiniões nos comentários.
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