
Há filmes que se assistem com os olhos. Outros, com o corpo inteiro. Que é o caso do longa-metragem Sirāt, dirigido por Óliver Laxe e musicado por Kangding Ray (nome artístico para o francês David Letteliler), pertence a essa segunda categoria. Trata-se de uma travessia sensorial que vibra entre a luz e a escuridão, entre o êxtase e o desamparo. Vencedor do Prêmio do Júri e do prêmio de Melhor Trilha Sonora em Cannes, o filme impressiona não apenas pela narrativa, mas pela força quase física do som que o move. E chega com grande destaque ao Brasil, sendo escolhido para a abertura da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (16 à 28.outubro). Mas quero sim é destacar a sonoridade com papel crucial desta história a ser contada.

A palavra Sirāt vem do árabe e simboliza a ponte que separa o paraíso do inferno, servindo com incrível metáfora para a linha que o longa percorre. A história parte de uma rave libertária nas montanhas do sul do Marrocos, onde temos uma celebração quase espiritual da juventude e da entrega ao som. Mas, à medida que os personagens seguem sua jornada até a Mauritânia para uma nova rave, o filme vai mergulhando em um deserto de outras naturezas: o início de uma guerra civil, o deserto do luto, da perda e do reconhecimento da própria finitude.
Kangding Ray criou aqui uma trilha que, sem dúvida, pulsa como coração do filme: ela não ilustra e não invade, mas sustenta nossas sensações. Cada batida eletrônica parece vir da areia, do vento, dos motores, das vozes que se perdem. A música não é uma trilha sonora comum, pois se tornou o terreno que os personagens percorrem.

O ritmo se confunde com o caminho, pois parece por vezes empurrar a jornada adiante. Garantindo a força necessária para conduzir um pai Luiz (interpretado por Sergi López – o general de O Labirinto de Fauno) e seu filho Esteban (Bruno Núñez), que vão em busca da filha/irmã Mar, desaparecida há 05 meses também numa festa rave nas montanhas do sul de Marrocos. Sons graves, texturas industriais e timbres minimalistas criam essa cadência que nunca descansa. É uma música que respira com a imagem, mas também a desafia com suas nuances.
Aqui você pode acessar a trilha pelos links abaixo:

Visualmente, Sirāt é devastador por conseguir captar o inóspito e misturar com presença humana.
Os planos longos de Mauro Herce transformam o deserto em personagem: a poeira, o calor, o horizonte estendido, tudo vibra como se cada grão de areia tivesse uma frequência própria. O espectador, envolto nessa experiência, é conduzido a refletir sobre a fina fronteira entre o sagrado e o brutal. Se torna inevitável lembrar do massacre de 7 de outubro de 2023 na festa eletrônica Supernova Universo Paralelo Edition. Que também foi uma celebração interrompida pela barbárie, mas que em Sirãt vemos isso num grupo menor, tornando tudo isso muito mais pessoal para quem assiste. E a música cria todos os contornos necessários para cada impacto nessa jornada.

Assistir a Sirāt é atravessar essa ponte entre mundos. É se deixar levar por um transe que mistura medo, compaixão, beleza, sintonia e desespero. No Balaio de hoje, essa obra ocupa o centro porque a trilha de Kangding Ray não apenas sonoriza, ela conduz o espectador ao abismo e o convida a escutar o silêncio de um deserto imenso, que nasce depois da última batida.
Vida longa ao som bom (em bom som) e muita sensibilidade musical – Leollo Lanzone





