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Reggae Brasileiro: quando o Brasil aprendeu a balançar em contratempo



Reggae Brasileiro

Olá audiófilos! Inaugurando a nova trilha editorial do Balaio do Leollo, começamos pelo reggae brasileiro. Isso não acontece por acaso, mas por afinidade profunda. Antes de ser identificado como gênero, ele já estava ali: no rádio, na voz de artistas populares, na batida que embalava o cotidiano sem pedir licença. O reggae foi e é para mim, uma escuta formadora antes mesmo de ser um conceito claro.

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Escolher o reggae como primeiro estilo desta série é reconhecer como o Brasil soube acolher uma linguagem nascida na Jamaica, absorvê-la com respeito e devolvê-la ao mundo em novas leituras, sotaques e territórios. Aqui, o reggae deixa de ser apenas ritmo e passa a ser fio condutor para entendermos como a música atravessa culturas, cria pertencimento e revela quem somos quando ouvimos com atenção.

Para ilustrar essa marca musical brasileira, abri um nova playlist chamada “Reggae Brasil” (link para Spotify), onde você pode transitar por bandas e artistas de nosso país que produziram caminhos sonoros com “as pedradas do reggae” (termo popular para músicas de reggae clássicas e impactantes).

reggae brasileiro

Antes de saber o nome, eu já sentia o reggae.

Ele chegou pelos ouvidos, não pelos rótulos. Chegou como balanço, como pausa entre uma batida e outra, como um jeito diferente de a música respirar. Não era “reggae brasileiro” — era só música que me atravessava. Titãs cantando Go Back, Gilberto Gil em Extra, Cássia Eller reinventando Socorro, Elba Ramalho e Cláudio Zoli em Felicidade Urgente. Tudo isso formava um campo sensível comum, mesmo sem eu perceber que havia ali um fio jamaicano costurando aquelas experiências.

Olhando em retrospecto, entendo que o reggae foi uma das primeiras linguagens musicais que me ensinou a escutar o tempo com outro corpo. Um tempo que não corre, mas sim balança. Um tempo que não impõe, pois nos convida. Um tempo que não acelera, insiste. O reggae não grita: ele sustenta.

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Quando essa batida marcada, nascida na Jamaica, encontrou o Brasil, algo aconteceu. O país não apenas absorveu o reggae, acabou por traduzi-lo. Devolveu novas leituras, sotaques, espiritualidades e conflitos. O reggae brasileiro não é uma cópia tropical, pois me parece mais uma reinvenção afetiva, social e geográfica.

No Maranhão, especialmente em São Luís, o reggae virou identidade urbana. Não por exotismo, mas por pertencimento. Ali, o reggae se tornou trilha do cotidiano, linguagem de festa, encontro e resistência. A capital do reggae brasileiro não imita Kingston, ela cria sua própria cartografia sonora, onde radiolas, salões e ruas constroem uma cultura viva e pulsante.

Na Bahia, o reggae dialogou com o axé, com o ijexá, com a espiritualidade afro-brasileira e com o corpo em estado de celebração. Em Minas Gerais, ganhou introspecção, lirismo e encontros improváveis com o pop e o rock. No Rio de Janeiro e em São Paulo, atravessou cenas urbanas, encontrou o rap, o soul, o funk e a canção autoral. Em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, dialogou com o surf, com o rock alternativo, com paisagens abertas e outras formas de desaceleração.

reggae brasileiro

Mais que um território, jogo uma luz sobre o estilo rocksteady, meu favorito entre as variantes regueiras, pois me remete à roupagem anos 60 que sempre me fascinaram musicalmente. No Brasil isso tem sido muito bem desenvolvido por big bands como Funk Como Le Gusta, Orquestra Brasileira de Música Jamaicana, Buena Onda Reggae Club, entre outras. Uma amostra de como o reggae é capaz de produzir harmonias complexas e sofisticadas, sem nunca se afastar de seu contratempo cativante.

Cada território em nosso país devolveu ao reggae aquilo que já possuía: seu ritmo interno, sua tensão social, sua maneira própria de existir.

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O reggae brasileiro é, acima de tudo, uma música de escuta. Ele pede atenção ao silêncio entre os tempos, ao espaço que a batida deixa para o corpo responder. Mais que um som de balanço, é música de consciência, mesmo quando fala de amor, festa, cotidiano ou política. Há sempre algo sendo dito nas entrelinhas, ora sobre pertencimento, ora sobre injustiça, ou fé, ou sobrevivência e sobretudo uma fonte de esperança. Reggae tende a apontar ao positivo, ao estado de paz e sabedoria, mas eleva o tom contra tiranias, corrupção e abuso de poder.

Talvez por isso ele tenha me acompanhado desde cedo. Mesmo sem saber o nome. Mesmo sem saber a origem. Mesmo sem entender ao certo seu discurso. Eu apenas sentia que ali havia um jeito de estar no mundo que fazia sentido.

E talvez seja isso que o reggae brasileiro nos ensina: que ouvir também é aprender a viver em outro compasso.

Este é apenas o primeiro texto dessa trilha. Ainda há muito chão, muitas batidas e muitos sotaques pela frente. Porque o Brasil canta reggae e quando canta, ele também se reconhece.

reggae brasileiro

O reggae nasce para ser mundial

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Esse estilo tem origem na Jamaica, final dos anos 1960, como resultado direto de encontros culturais, sociais e musicais. De sua origem rústica, quase tribal, passa a herdar elementos do ska (um beat elevado e reefs de guitarras) e do rocksteady (instrumentos de sopro e arranjos para big bands), tornando elástico o andamento e deslocando o acento rítmico para o contratempo; aquele espaço “entre” as batidas, onde a música respira.

Mas o reggae não é apenas forma sonora: ele emerge como linguagem política e espiritual, profundamente ligada à experiência do povo negro jamaicano, à diáspora africana e ao movimento rastafári. Letras sobre justiça social, resistência, fé, amor e identidade atravessam o gênero desde sua origem, transformando a música em ferramenta de consciência e afirmação.

Ao longo do tempo, o reggae se desdobrou em múltiplos subgêneros, cada um refletindo momentos históricos e estéticos distintos. O roots reggae é talvez o mais emblemático, com forte carga espiritual, mensagens de libertação e conexão com a África. O dub surge como uma revolução sonora: versões instrumentais, uso criativo de eco, reverberações e a diversidade dos remixes, antecipando a lógica da música eletrônica e da cultura do estúdio como instrumento. Já o lovers rock suaviza o discurso, privilegiando temas românticos e melodias delicadas, enquanto o dancehall acelera o ritmo, aproxima o reggae da cultura de rua e introduz uma estética mais direta, corporal e provocativa.

Penso que toda banda ou artista musical que se preze, gravou um reggae em sua carreira (no mínimo um). De Led Zeppelin à Madonna, de Sting à Charlie Brown Jr, de Vanessa da Mata a Living Colour, de Simply Red à Luiz Melodia… é um sem fim de projetos que contemplam esse gênero para nosso prazer.

reggae brasileiro

Esses desdobramentos mostram que o reggae nunca foi estático. Ele dialoga com tecnologia, com mercado, com juventudes e com diferentes realidades sociais ao redor do mundo. Do ragga ao digital reggae, do reggae fusion às misturas com hip hop, pop, rock e música eletrônica, o estilo se expande sem perder sua essência: o pulso marcado, a valorização do groove e a centralidade da mensagem. Mais do que um gênero musical, o reggae é uma filosofia sonora que atravessa fronteiras e se adapta aos territórios, sempre mantendo sua capacidade de acolher, questionar e transformar quem escuta.

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Vida longa ao som bom e à escuta afiada. — Leollo Lanzone

Leollo

Leollo Lanzone é o alter ego de Mauro Galasso, que é de verdade, mas não cabia numa persona só. Tem olhar objetivo e sensível, tem o hábito de montar playlists, adora dançar eletrônico, sabe cozinhar, falar de amizade e tem opinião sobre quaaase tudo.




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