
Caros audiófilos do meu coração. Semana passada a coluna trouxe o tema “Pessoas São Playlists“. Entreguei minha receita obsessiva, um tanto caótica e certamente repleta de amor. Desde adolescente, na minha “fabriqueta de fita cassete personalizada”, criava seleções para pessoas cujos traços de personalidade eu tentava traduzir em música. Hoje, com o arsenal sonoro dos streamings, tudo ganhou um sem-número de possibilidades. Assim, dedico amor audível e lapidado.
Nesta semana, o papo segue essa espinha dorsal, mas capota sobre novos temas: Localidades (cidades, vilas, pousadas), Marcas (joias, salão de beleza, lojas, restaurantes) e Aventuras (viagens curtas ou longas).
Recentemente preparei em tempo recorde uma playlist para um salão de beleza granfino na Faria Lima. A proposta não avançou, recolhi as três playlists para meu modo privado e deixei pra lá. Mas tenho orgulho das seleções que alinhei com sofisticação, leveza e curtição. Na minha cabeça, clientes devem ser bem tratados na pele, nos cabelos, na autoestima e, claro, nos ouvidos. Dediquei atenção também aos funcionários, que convivem com dois pendrives repetindo as mesmas canções por semanas. Criei em dois meses três agrupamentos musicais: “Nome do Salão” Collection 1 e 2 + “Sexta & Sábado” (com beat mais alto, para estimular sorrisos e dancinhas). São playlists longas, pensadas para ocupar as 8 horas diárias do salão. Apesar do “flop”, trago o orgulho dos ritmos que enfileirei para aquele espaço.

Uma seleção lapidada com carinho é “O Garimpeiro – Gemas brasileiras” (link Spotify), feita para uma marca de joias com pedras naturais, cristais, pérolas e corais. Pensando nessa artesania cheia de graça e estilo, reuni sonoridades que considero “pérolas” do cancioneiro brasileiro. Faixas que reviram a terra e brotam como positividade dos minerais, vibrando energia e poesia. Regravações e raridades que reescrevem sentidos e trajetórias. Quero rasgar a terra e ver por dentro do país os tesouros musicais que ela nos dá.

Na linda Niterói, vivem meus amigos Valéria e Luiz Otávio. Lá está a casa construída por eles em meio à mata, num terreno alto com vista para a Baía de Piratininga. Uma área arborizada, onde a natureza invade o terreno e animais silvestres transitam pelas árvores. Chamamos esse espaço de “Horto-Molecular Spa & Hostel” (link Spotify), uma fantasia de hospedaria contemplativa, com gastronomia delicada, hospitalidade acolhedora e, claro, experiência sonora envolvente. A playlist traz rock, brasilidades, deep house e lounge music, traduzindo o astral dos anfitriões. Componho momentos para eles de criatividade, leveza e amorosidade, salpicados com ritmos cariocas.
Falando sobre locais que visitei, tenho o hábito de acrescentar músicas a cada dia de uma viagem, captando a magia e os sabores que um passeio de férias faz brotar. Às vezes artistas locais, às vezes ritmos que combinam com a aquarela de cada pôr do sol.

Foi assim que passei nove dias de novembro em Maragogi (AL). Num apartamento de frente para a praia, descansamos a mente e fizemos as pazes com nossos humores cansados da metrópole. Na varanda, com 24h de brisa do mar, tomava café, lia e curtia o tesouro de estar ali. Nascia ali, música por música, a playlist #Navaranda Vem Verão (link Spotify). Um agrupamento capaz de impregnar bem-estar até nos corações mais gelados, lembrando a delícia dos dias longos e do sol brilhante. Tem muita brasilidade remixada e lançamentos gringos da época, para ouvir curtindo esse tempo nas praias paradisíacas.

Sobre aventuras, Fabio e eu rodamos 2.200km entre Fortaleza e São Luiz do Maranhão. Desbravamos vilas e cidadelas por toda essa extensão de Brasil. A Rota Do Sol Nordeste começa no sul da Bahia e segue até São Luiz, sendo o trecho Ceará–Piauí–Maranhão a última implementação de uma série de dicas para estimular o turismo por essa faixa litorânea. Um trajeto onde vimos, offline, a brasilidade que extrapola em cultura, ritmos, culinária e sotaques. Na playlist “Fortaleza à São Luiz” (link Spotify), reuni canções prazerosas para ouvir ao volante ou nas praias. Entre dunas e moinhos de vento, a fartura das comidas bem temperadas e a simplicidade de um país que pulsa natureza.

A última criação veio para uma festa em casa. Chamo nosso lar de Lanterna dos Afogados – Filial Sampa. Um local que recebe amigas e amigos de diversas origens e pontos de vista. Aqui na “L.A.F.S.” são acolhidos com respeito e admiração. Quando há comemoração, recebe o nome de #Navaranda. A playlist “#Navaranda Sací Pererê” (link Spotify) celebra o Dia do Sací (31.outubro), integrando nossas lendas ao Halloween. Um resgate cultural brazuka e de nossas memórias. Agrupei musicalidades que passam por rock, soulful, disco, brasilidades remixadas, intercalando a cada cinco ou seis faixas uma canção sobre nosso folclore. Estão ali Jor Ben Jor (Sasaci Pererê), Cassia Eller (Cuca te pega), Lamparina (O Sací), LuizGa (Txaísmo), Black Rio (Saci Pererê), João do Mundo (Funk do Sací), Clube de Lila (Curupira) e outros registros desses personagens.
Transformar experiências em playlists é meu jeito de eternizar vivências, dar forma sonora ao que se vive, sente e compartilha. Cada seleção musical é uma tentativa de capturar atmosferas, afetos e identidades, como pinceladas na memória, compondo paisagens emocionais que resistem ao tempo. E assim sigo, com o coração afinado e os ouvidos atentos, costurando trilhas que contam histórias, celebram encontros e fazem da vida uma grande mixtape de sentidos.
Vida longa ao som bom (em bom som), com muitas playlists como trilhas de nossas vidas — Leollo Lanzone





