Explorando Sonoridades 16
A cada edição do Explorando Sonoridades, renovo um pacto silencioso com quem lê: o de escutar com mais atenção o que o mundo anda produzindo em forma de música. Esta edição 16 nasce desse desejo de partilha, de abrir janelas para canções que atravessam geografias, afetos, corpos e histórias. São faixas que não pedem pressa, mas presença; que não querem apenas ser ouvidas, mas sentidas, digeridas e, quando possível, dançadas.
Convido você a percorrer este roteiro musical com curiosidade e entrega. A playlist Explorando Sonoridades 16 (link no Spotify) foi pensada como extensão da leitura: um convite para alternar palavras e sons, reflexão e prazer. Ouça enquanto lê, volte às faixas que mais ressoarem, permita-se descobrir artistas, revisitar emoções e criar suas próprias pontes entre memória, corpo e escuta.
Faixa: Salvador
Artistas: Zeca Veloso, Caetano Veloso, Moreno Veloso, Tom Veloso
Essa canção vem como abre-alas do álbum Boas Vindas (nov. 2025), estandarte de estreia de Zeca Veloso, filho mais novo de Caetano. Nessa levada que homenageia a capital da Bahia, sentimos um diálogo musical e afetivo que reúne essa família em estado de presença. Zeca sintoniza o pulsar do nosso corpo e da nossa resiliência, indicando caminhos de conquista: “Mais um dia em que eu não fui vencido, amor / No galope empunhava meu pendão”. Sua voz suave e aguda constrói melodias poéticas, delicadamente orquestradas.
No álbum, destaco ainda “Desenho de Animação”, “Máquina do Rio” e “O Sal Desse Chão” (em dueto com Xande Pilares).
Faixa: Xamego
Artista: Lenine
O álbum Eita (nov. 2025) marca o retorno de Lenine após uma década e chega como uma homenagem direta ao Nordeste e às origens do cantor. Ritmos, arranjos e memórias familiares atravessam o projeto, com produção assinada por seu filho, Bruno Giorgi, que injeta uma sonoridade pop-experimental contemporânea.
“Meu Xamêgo” me ganhou de primeira: melodia crescente e envolvente, dessas que crescem por dentro de nosso peito. Uma história de amor provada pelo tempo: “Você me disse vem, eu vou / Pra qualquer lugar do mundo onde tu for”. Amor em frase, em tonalidade, em gesto tátil. O disco conta ainda com participações de Maria Bethânia, Maria Gadú, Siba e Gabriel Ventura.
Faixa: Quando a Chuva Acaba
Artista: Amanda Magalhães
Aqui, Amanda Magalhães trabalha o silêncio tanto quanto o som. “Quando a Chuva Acaba” é canção de suspensão, dessas que caminham entre a melancolia e a esperança sem pressa de chegar.
A voz surge íntima, quase em confidência, enquanto os arranjos sustentam um clima de recolhimento e contemplação. Há algo de cura nessa faixa: como se, após o aguaceiro emocional, restasse a paisagem limpa para recomeçar. Música para ouvir com o corpo quieto e o coração atento.
Faixa: Idiota Raiz (Deixa Ir)
Artista: Joyce Alane
Joyce Alane entrega aqui uma interpretação crua, honesta e sem filtros. “Idiota Raiz (Deixa Ir)” foi lançada num single em 2023 em dueto com João Gomes e soa como um desabafo que vira força de autoestima, num canto que propõe decisão. Mas a canção ganhou novo ar no registro ao vivo, feito numa sessão com a produtora de conteúdo de audiovisual Macaco Gordo. Temos esse momento de Joyce Alane, onde a captação preserva o calor do encontro, a respiração da artista, os pequenos silêncios entre uma frase e outra. É canção sobre soltar, mas sem romantizar a dor. Pois deixar ir, também exige coragem e Joyce canta isso com verdade rara.
Faixa: Pontes Indestrutíveis
Artistas: João Gomes, Mestrinho, Jota.Pê
Três vozes que se encontram para falar de vínculos, travessias e afetos que resistem ao tempo. João Gomes traz o chão popular, Mestrinho costura com sua sanfona sensível e Jota.Pê adiciona lirismo e delicadeza. O álbum Dominguinho foi premiado como um dos melhores projetos musicais de 2025, tanto pela riqueza sonora, mas também pela simplicidade de sua produção e pela sintonia de três artistas que consolidam suas obras nesse formato estilo acústico MTV. Na faixa “Pontes Indestrutíveis” (canção de Charlie Brown Jr) é música de encontro entre estilos, histórias e emoções. Onde entendemos que permanecer fiel aos seus planos e valores pessoais também é um ato político e afetivo.
Single: Viver e Morrer na América Latina
Artistas: Ney Matogrosso, Johnny Hooker
Aqui, a canção vira manifesto. Ney Matogrosso e Johnny Hooker se encontram num território de intensidade, identidade e resistência.
A interpretação é forte, teatral e profundamente política, sem perder a poesia. A música é provocativa, inquieta e reafirma o nosso direito latino de existirmos em toda a complexidade que é inerente ao nosso continente repleto de caminhos abertos pela arte, história e humanidade. Um encontro potente entre gerações que se reconhecem na coragem e se multiplicam em energia vital que a música propõe.
Faixa: Amor de Canudinho
Artista: Seu Jorge
Seu Jorge revisita a Bahia com respeito, balanço e malícia elegante. “Amor de Canudinho” é canção que dança, que sorri, que convida o corpo a participar da escuta, tal qual Luiz Caldas já nos ensinava nos anos 80. O álbum Baile À La Baiana, lançado na prévia do carnaval de 2025, celebra encontros culturais e sonoros, e essa faixa traduz bem esse espírito: leveza sem superficialidade, festa com fundamento e ritmo como energia propulsora para dançar com o corpo solto e vibrante.
Faixa: Lokura
Artistas: Dino d’Santiago, Branko
A faixa “Lokura” é uma pulsação transatlântica, pois é onde Cabo Verde encontra Lisboa e dali, encontramos o mundo lusitano e suas ramificações. Dino d’Santiago imprime sua emoção autoral e sua identidade africana, enquanto o europeu Branko constrói uma base eletrônica sofisticada e quente. É música que dança, mas também pensa. Corpo em movimento, consciência desperta. O álbum Badiu, que em tradução do crioulo para português, seria algo como “vadio”, se refere aos escravizados que fugiam das plantações na ilha de Santiago e se escondiam nas montanhas de difícil acesso. Esse projeto como um todo é resistência e orgulho ancestral na luta por independência de Cabo Verde.
Single: Pro Mundo Ouvir (nov. 2025)
Artistas: Tuyo, Branko
Com vídeo disponível, o trio Tuyo passeia ao lado do produtor lisboeta Branko pelas ruas do centro de São Paulo. Discos, viadutos, recantos urbanos — tudo vira cenário para uma faixa dançante e profunda. “Juntamos ideias, sons e intenções numa sessão improvisada”, contou Branko. O resultado é uma música intensa, sofisticada e cheia de química criativa. Brasil e Portugal em sintonia maior. Eu sorrio e bato palmas.
Single: Praia do Futuro (Afrobeta Refix, dez. 2025)
Artistas: Afrobeat, Seu Jorge, Elestee, Jvxn
A canção faz parte do álbum O Mundo Dá Voltas (jan.2025), sendo um dos mais premiados no ano, além de ser o conteúdo que mais ouvi neste ano. Agora temos um single com a releitura contagiante da cadência da BaianaSystem, acompanhada de um vídeo memorável que celebra o cotidiano de Salvador. O beat baiano se mistura ao rap da nigeriana Elestee, ampliando a mensagem e criando uma poesia audiovisual vibrante. Tem dança, tem riso, tem axé como força coletiva. E tem muito verão anexado a tudo isso.
Single: Luna (jan. 2022)
Artistas: Çantamarta, Irepelusa
Conheci o coletivo Çantamarta faz pouco tempo, e venho vasculhando os projetos antigos. Em “Luna”, single de 2022, a canção flutua entre o pop alternativo e a delicadeza eletrônica. Há leveza, mas também profundidade emocional. É tipo de faixa noturna, dessas que acompanham caminhadas solitárias e pensamentos dispersos. A produção cria um espaço etéreo, enquanto a melodia guia o ouvinte com suavidade lunar. Aqui a banda espanhola/venezuelana se integra a voz da cantora também venezuelana Irepelusa.
Single: Por Sus Besos (jul. 2025)
Artista: Tito Double P
Conheci Tito Double P através de ranking dos artistas globais mais ouvidos em 2025. Esse cantor mexicano, até então desconhecido para mim, entrega aqui uma canção direta, intensa e carregada de emoção. O single de “Por Sus Besos” fala de desejo, entrega e vulnerabilidade sem rodeios, numa trilha sonora moderna inserida dentro de um arranjo tradicional de bandas mariachi, típicas do estado de Jalisco no México. Temos então uma música latina que pulsa verdade, equilibrando romantismo e força narrativa.
Single: Tus Secretos (nov. 2025)
Artista: Marcelo Sirotsky
Marcelo Sirotsky é um brasileiro radicado em Los Angeles e de lá constrói sua musicalidade que integra latinidade e a experiência norte americana. A canção “Tus Secretos” é intimista, dessas que parecem sussurradas ao pé do ouvido, numa atmosfera de confidência, onde cada palavra pesa e cada silêncio comunica. Música para escutar devagar, respeitando o tempo do sentir. Mas sem esquecer que a força latina tem conquistado o mundo de ponta a ponta, sem muros ou chatices.
Single: Cola (nov. 2018)
Artista: Arlo Parks
A cantora Arlo Parks é britânica e promove delicadeza com densidade. Seus projetos atravessam o soul, hip-hop, folk e trip-hop, sempre com sua poesia autoral. Na faixa “Cola” traz uma escrita sensível, jovem e honesta, que fala de afeto, confusão emocional e cuidado: “E agora eu realmente não me importo / Porque você ainda por ai”. Uma canção que acolhe sem resolver, que abraça sem prometer respostas: “É melhor quando seus olhos de Coca Cola estão longe do meu rosto”.
Single: Next To Me (nov. 2023)
Artistas: Jewels, Kenza, Le Yora
Três vozes que se entrelaçam em uma faixa de R&B contemporâneo elegante e emocional das produções afro house. A faixa “Next To Me” é sobre presença, sobre estar junto mesmo quando tudo oscila. É uma colaboração que mistura influências de dance/house com elementos afro-soul. Essa união resulta em uma faixa que combina vocais emotivos com batidas eletrônicas profundas, evocando tanto a pista de dança quanto momentos introspectivos. Produção limpa, atmosfera envolvente e interpretação cheia de sutileza. Tudo construído sobre uma “locomotiva sonora” impecável em ritmo e força.
Faixa: Velvet Seas
Artistas: Kraak & Smaak, Izo FitzRoy
Nesse soul moderno, groove refinado e uma interpretação vocal poderosa, a faixa “Velvet Seas” desliza com elegância entre o funk, o soul e a música eletrônica. Música para ouvir alto, deixar o corpo responder e a mente desacelerar. A banda holandesa Kraak & Smaak é conhecida por mesclar funk, disco e eletrônica com arranjos modernos e psicodélicos. Já a cantora Izo FitzRoy traz seus vocais intensos e cheios de emoção, com raízes no soul e gospel. Como resultado temos uma faixa atmosférica e envolvente, que evoca a sensação de navegar em mares sonoros cintilantes cheios de alma. Uma audição tanto contemplativa quanto para pista de dança.
As dicas reunidas aqui formam um mosaico vivo: há tradição e contemporaneidade, festa e introspecção, política e afeto, pista de dança e quarto em silêncio. Da Bahia a Lisboa, do México a Cabo Verde, do soul ao afro house, do pop alternativo à canção latino-americana, cada faixa carrega uma identidade própria e, ao mesmo tempo, dialoga com as outras.
Que este conjunto musical funcione como trilha para seus dias, ora para expandir, ora para acolher. Seguiremos explorando sonoridades, porque ouvir música também é uma forma de compreender o mundo e a nós mesmos, em movimento constante.
Vida longa ao som bom (em bom som) — Leollo Lanzone





