
Chegar à 15ª edição do Explorando Sonoridades é reencontrar esse espaço onde a curiosidade musical guia cada escolha e onde diferentes mundos sonoros se encontram sem pedir licença. Aqui, seguimos viajando entre vozes, ritmos e cenas que se transformam o tempo todo — do pop cintilante ao afro house, da MPB revisada ao flamenco futurista. Cada faixa dessa edição foi escolhida para provocar sensações, acender memórias e ampliar nossas referências.
Para acompanhar esta edição de nr.15, clique aqui no link da playlist que criei no Spotify com as 17 músicas indicadas aqui. Ouça enquanto lê, salve as suas favoritas e compartilhe.
1)- Snoh Aalegra – “In Your Eyes” (álbum Temporary Highs In Violet Skies, 2021)
A cantora sueca descende de família iraniana, traz como referencia musical nada mais que Stevie Wonder, Whitney Houston, Prince e talvez o mais óbvio na sua maneira de canto é Michael Jackson. Com esses padrinhos para inspirá-la, Snoh me cativou no seu trabalho de 2021, que mostra sua dinâmica sobre como cantar lindo e com mensagens emotivas e fortes. Ainda estou destilando seus trabalhos, mas abro a dica de repertório com a poética e amorosa “In Your Eyes”, que é o grande exemplo michael-jacksiano de ressoar amor e ritmo.
2)- Sophie Ellis-Bextor – “Taste” (álbum Perimenopop, 2025)
O álbum completo lançado ontem (21.nov), vem recheado de baladinhas e beats dançantes. Sem nunca deixar de esboçar ritmo e acidez nas letras, Sophie chega mais uma vez como mais gostamos dela. Musicalidade que vibra nosso corpo e reflete cotidianos e paixões. Desde janeiro vem sendo lançados alguns singles desse projeto, como as incríveis Relentless Love, Vertigo e Dolce Vita. Mas escolhi duas para essa playlist: “Glamorous”, pois tem estilo próprio e me ganhou pela lustrosa batida e rifes de guitarra, além de estar nas novas faixas liberadas – “Estilo, ágil, chique e suave / Tão glamouroso”. Também mantive a faixa “Taste”, que foi um single liberado já em maio e que venho saboreando desde aquele tempo.
3)- N´Dinga Gaba – “Music (Makes The World Go Round)” (EP, 10.out.2025)
Esse é um produtor da República Centro-Africana, fundador do selo musical Two Waves Music, que forma um coletivo de artistas que fundem ritmos como o afro, deep e soulful house (tudo que tanto amo). Trago boas memórias de seus projetos e escuto muito material que brota dessa fonte rítmica e carregada de energia dançante. A faixa que trago para a playlist de hoje é “Music (Makes The World Go Round)”, lançada em outubro.2025, vem com a parceria da britânica cantora de soul/house Natasha Watts. Vem nesse play de verão, pois não importa onde for, que idioma for, “a música faz o mundo girar”.
4)- Chus & Ceballos – “All I Want (Technasia Remix)” (single, agosto.2016)
Essa dupla de produtores ibéricos faz minha cabeça, ouvidos e pés se sintonizarem há tempos. Encerraram sua parceria durante a pandemia e continuei a seguir suas carreiras individuais e posso dizer que são muito maiores unidos e em sintonia. Passado todo esse tempo afastados, após cinco, anunciam o reagrupamento do duo a partir de janeiro de 2026, com promessa de agenda de apresentações pelo mundo. Lembrando que eles costumam atacar mais fácil onde é verão; já é quase dezembro. Nessa alegria que me invade, fui até o vasto acervo deles e resgatei a faixa “All I Want” com a cantora Astrid Suryanto. Lançada em 2015 por eles no álbum Nómadas, a original vem num beat mais lento. Para nossa playlist escolhi a versão que outro duo fez para essa canção (Technasia). Agora numa batida mais agitada, tive a oportunidade de ouvir com eles ao vivo e portanto, vem carregada de emoção para vocês ouvirem comigo.
5)- Purple Disco Machine – “Paper Romance (Purple Disco Machine Remix” (single, 26.set.2025)
Esquece um pouco o que o chanceler Merz disse. Pois esse produtor alemão, de nome Tino Piontek, tem suas artimanhas sonoras que tanto me atraem e me colocam para vibrar. Poderia ficar aqui escrevendo horas sobre como ele promove músicas com alma, com o espírito da dance music mais puro e saboroso para dançar. Mas prefiro mostrar duas faixas, que tem sido presentes no meu cotidiano. A primeira é a versão “purple” para “Paper Romance”, canção lançada em 2010 pela dupla inglesa Groove Armada (que sou apaixonado). A batida que originalmente tem traços de guitarra e um coro de vozes exaltadas como num protesto, a versão “purple” vem numa ritmada mais suave e mais dançante, tão característico de Purple Disco Machine (adoro até o nome deste alter ego). Constrói uma linda locomotiva sonora, usando apenas parte de toda letra, reforçando esse cantico de amor próprio: “Sim, sim, você vai ouvir uma carta de amor / Mas não tem nada a dizer / De qualquer forma, não quero arriscar seu romance de papel”. Também incluí a cativante “Hold Me Closer”, com Elton John e Britney Spears, que ganhou essa versão gracinha de Purple em out.2022 – “Segure-me mais perto, pequena dançarina”. Ou seja, a Alemanha também quer dançar e curtir como nós. O Merz quem não se tocou ainda.
6)- Tato – “Luz” (Single, set.2025)
Acompanho esse produtor recifense já um tempo e noto como suas produções sempre trazem referencias contemporâneas e com lindos contornos brasileiros (como sempre digo, se vem de Pernambuco vai ser bom). Com uma carreira que nasce em 2022, nesse pequeno espaço de tempo foi capaz de promover uma musicalidade solar, de personalidade marcante e num estilo afro house que muito me agrada. Na faixa “Luz”, lançada em setembro, mostro sua capacidade instrumental para compor ritmo brasileiro dentro das “receitas e liquidificadores” da música eletrônica mundial. Vem nessa batida saborosa e pronta para o verão.
7)- Gal Costa – “Como 2 e 2” (álbum As Várias Pontas de Uma Estrela (Ao Vivo Coala Festival), out.2025)
Esse projeto é um registro da última apresentação da eterna Voz do Brasil. Num show realizado em 17 de setembro de 2022, em São Paulo, Gal Costa traz sua voz para 20 canções dentro do Coala Festival. É um acervo muito bacana das principais canções que a cantora soube trilhar em sua carreira todinha. Escutar Gal: “tudo que rolar é bom”. Deste brinde à uma cantora como essa, escolhi a faixa “Como 2 e 2”, onde Gal faz um duo com o cantor Rubel. Note que a voz dela um pouco mais rouca, se adapta bem com o ritmo desta balada de amor e paixão. Uma prova do imenso profissionalismo na postura do canto, para produzir algo eterno pelo momento ao vivo; não vai repetir, quem perdeu, paciência.
8)- Gilberto Gil – “A Mão Da Limpeza” (álbum Raça Humana Reload, out.2025)
O álbum Raça Humana de Gil foi lançado em 1983 e traz muitos sucessos como Pessoa Nefasta, Tempo Rei, Vamos Fugir e Indigo Blue. De grande importância sobre a carreira desse nosso arauto da musica brasileira, esse projeto foi remodelado sobre novos arranjos e com vozes da nova MPB, remodelando nosso olhar sobre essa obra tão bacana de Gil. Escolhi duas faixas que mais me tocaram pela readaptação sonora. A primeira é a versão do incrível Jota.Pê para “A Mão Da Limpeza”, que nos mostra essa jovem e já premiada voz brasileira, interpretando um discurso-denúncia das baboseiras que a espécime “homem-branco” insiste em falar; “Eita branco sujão / Negra é a mão de imaculada nobreza”. A segunda faixa vem pela banda curitibana Jovem Dionísio, que construiu um beat elétrico na faixa “Vamos Fugir”, dando um frescor para essa mensagem de amor que atravessa os verões. E nem é dezembro ainda.
9)- Sant, Luedji Luna, Vandal – “SSA” (Single, mar.2023)
Essa tríade de artistas construiu uma levada musical tão envolvente, que por vezes deixo essa faixa no repeat, tamanha minha admiração. Parece mais um daqueles amores que nascem no carnaval de Salvador, mas essa temática vem atualizada em verbo e em beat. A fusão da voz do rapper carioca Sant, com a baianidade de Ludji Luna e VANDAL, nos envolvem e nos coloca para ouvir essa relação amorosa e fervente. Uma viagem melódica, com uma voracidade gostosa de sentir: “Deixei meu coração em Salvador / E se eu for lá buscar não volto mais”.
10)- Seuab – “Corrupião” (álbum Joia Serrana, out.2025)
Esse é meu mais novo achado musical. Seuab (nome artístico para Abraão Rodrigo) é um produtor musical do Ceará, que vem como um representante da nova força de artistas nordestinos. É inovador pois suas produções já despontam na cena do estilo Lo-Fi (aquela maneira mais sutil de compor musicalidade), trazendo a clara influencia do baião, forro, carimbó e outros ritmos do movimento nordestino. No álbum Joia Serrana temos 14 faixas que integram essa modernidade do Lo-Fi, à consagrada característica regional nordestina. Ao ouvir, pensei, por que ninguém tinha pensado nessa fusão antes; fantástico insight, pois além de acalmar também nos alegra por dentro. Escolhi a faixa “Corrupião”, por perceber a marcante presença do zabumba e da guitarra “disfarçada” de viola caipira, como componentes puramente brasileiros na composição feita para relaxar e sorrir.
11)- Rosália – “Reliquia” (álbum LUX, nov.2025)
Não poderia deixar de tocar nesse álbum revolucionário da cantora ibérica Rosália que chegou comunicando para a geral que algo tem que mudar (justamente quando estou lendo um livro sobre dez revolucionários masculinos). Vocês já devem ter ouvido falar do barulho que esse projeto propõe entre os tantos artistas pop mundial como ela. Basicamente Rosália produziu um álbum para ser bonito e eterno, não para ser popular e de meteórica digestão das massas. A impressão que tenho é que nenhuma rádio saberá dar vazão a essa gama de canções únicas e com estilos tão diversos entre sí. Traz temas como espiritualidade, erotismo, mistério feminino e renascimento, todos com arranjos elaborados por uma sinfônica inglesa. Mescla elementos da música clássica, pop moderno, música barroca, constituindo uma experiencia imersiva isenta de hits instantâneos. Como disse, feito para ser bonito de se ouvir e eterno em nossa memória musical. Nessa playlist trouxe quatro faixas: Reliquia – a segunda do álbum é um passeio pelo globo, seguindo um amor tão poderoso que cobre o mundo inteiro; Divineze – mescla canto em espanhol, catalão, francês e inglês, mostrando a versatilidade da cantora; La Rumba Del Perdón – talvez minha preferida (não decidi ainda) reúne as vozes de Estrella Morente e Silvia Pérez Cruz, formando um flamenco sincopado e enérgico; Memória – um fado lamento lindo demais e com a força da parceria da lisboeta Carminho (Maria do Carmo). Se pudesse fazer uma viagem para dentro de você mesmo, o que você acharia ai dentro!? – “Diz-me com sinceridade / Se tu lembras de mim / Diz-me se ainda tropeço / Se me alegro se agradeço / Ou se ainda sei cantar / Recorda-me por favor”. Como num segundo ato dentro da música, a tal sinfônica que tudo orquestrou, te coloca vigor para um sorriso final por tanta beleza “lacrando esse álbum”. Dedico palmas de agradecimento por LUX e vida longa ao #DeusSom e as tantas deusas e deuses que representam as tantas formas de vibrar comunicação e sentimentos.
Ao final dessa travessia, fica evidente como a música continua sendo uma ponte entre tempos, geografias e estilos: Snoh Aalegra ecoa heranças gigantes; Sophie Ellis-Bextor entrega brilho pop renovado; nomes como Tato, Seuab e o trio Sant–Luedji–Vandal reafirmam a potência da criação brasileira atual; enquanto reler Gil e Gal é sempre revisitar a própria história do país; Purple Disco Machine e Chus & Ceballos reavivam as pistas; e Rosália abre portas para o novo e inesperado tempo da música. Juntas, essas escolhas desenham um mosaico vibrante, um mapa afetivo e dançante que celebra tanto as descobertas quanto os clássicos revisitados. Que essa playlist te acompanhe por aí e encontre o seu ritmo no meio do dia.
Vida longa ao som bom (em bom som) e uma abundância musical para privilegiar nosso cotidiano – Leollo Lanzone





