
Na série “Explorando Sonoridades” eu convido você a percorrer pequenas paisagens sonoras: seis faixas por texto, escolhidas por sua capacidade de contar histórias, provocar sensações e revelar conexões inesperadas entre timbre, letra e batida. A ideia é ouvir com atenção, não só o que a música diz, mas onde ela nos leva. Assim, abrir portas para artistas novos, reinterpretações e velhas paixões que continuam a ressoar.
Para acompanhar esta edição de nr.14, clique aqui no link da playlist que criei no Spotify com as seis músicas indicadas aqui. Ouça enquanto lê, salve as suas favoritas e compartilhe. E claro, me conte qual faixa te agradou mais: adoro saber onde a trilha sonora do Balaio do Leollo acaba encontrando a sua rotina.

1)- Çantamarta – “nomeolvides” (álbum nomeolvides, 2025)
O coletivo Çantamarta reúne músicos caribenhos e espanhóis, possuem um vasto repertório, mesmo tendo o grupo nascido apenas em 2019. Nesse álbum recém-lançado, Çantamarta me ganhou por completo nessa obra que mistura soul, pop alternativo e neo-jazz, sempre com arranjos finos e uma sensibilidade poética. Sinto minha parte latina vibrando por esse projeto todo, mas na faixa-título “nomeolvides” eu sorri por dentro. Pois ela vem carregada de uma melancolia amorosa e um brilho rítmico ao mesmo tempo. Um tipo de prece dançante, que fala sobre lembrança e desapego, com um groove que se infiltra suave, mas firme, nos nossos sentidos. “Viva A América Latina Unida Pela Música”.

2)- Qvckslvr – “When The Sun Comes Up” (single, 2025)
Ele tem esse nome que não sei pronunciar, mas sei que é um produtor musical gringo (não achei quase anda sobre). Tendo como marca o uso de timbres eletrônicos e vocais etéreos, Qvckslvr oferece seu pequeno repertório relaxante e com inspirações quase sempre litorâneas. Um tipo de sonoridade feita para curtir com o sol na pele, um drink na mão e um sorriso na face. Daquelas sonoridades que parecem nascer no horizonte: as músicas começam introspectivas e explodem em refrão iluminado. Em destaque trago a ensolarada “When The Sun Comes Up”, que nada mais é que um lindo convite a recomeçar; dessas músicas que lembram que mesmo após noites longas, o dia sempre chega para reorganizar as emoções e revitalizar nossos sonhos. Melhor passar protetor solar, ok!?

3)- Izo FitzRoy – “Slim Pickings” (álbum How The Mighty Fall, 2020)
A força vocal de Izo FitzRoy é o tipo de furacão que a gente reconhece nos primeiros segundos: um canto visceral, com alma claramente folk-gospel e uma força roqueira inata. Conheci sua presença musical fazendo parcerias com grandes produtores e desde então ela está presente em muitas de minhas playlists pessoais. Levo Izo para onde quer que eu for. Na faixa destacada trouxe a “Slim Pickings”, onde canta sobre resiliência e escolhas duras que o amor nos traz. Com o peso e o poder de quem já viveu cada palavra, ela canta essa volta por cima com vigor. O groove é preciosso e o backing vocal soa como ecos de superação. “Continuarei sendo a mesma de antes, caminhando feliz por essas velhas estradas de amor”.

4)- Róisin Murphy – “Overpowered (Seamus Haji Remix)” (single, 2007)
Sempre soube que Róisin Murphy é uma camaleoa da música techno pop. Desde sua participação na banda Moloko, acompanho a versatilidade que essa voz única consegue criar, sob letras por vezes delirantes. Em carreira solo lançou o álbum Ruby Blue (2005), onde confesso ter me deparado com uma sonoridade mais quebrada em sua cadência; algo mais difícil de se ouvir com constância (lembra do delirante que escrevi?). Já no álbum Overpowered (2007), me senti mais próximo dela e devorei esse projeto de ponta a ponta, tendo a graça de ouvir a faixa título em pistas que circulei. Em destaque trago a versão remixada de “Overpowered” que está no single lançado também no mesmo ano, onde o produtor Seamus Haji transformou em um hino das pistas, ampliando a sofisticação original da artista irlandesa. Um equilíbrio raro entre o hedonismo eletrônico e a delicadeza de uma composição que ainda soa fresca, mesmo 18 anos depois. “Quando penso que superei você. Estou dominado”.

5)- Cheat Codes & CeeLo Green – “Go To Hell” (single, 2025)
O encontro entre o trio americano de música eletrônica e o icônico CeeLo Green resultou em uma faixa poderosa, espirituosa e provocante. No single também recém lançado “Go To Hell”, temos uma mistura de pop dançante e ironia lírica, mandando um recado direto aquele desamor que merece ser encerrado, senão vira paranoia das boas. Tudo isso embalado por uma produção que não economiza nos sintetizadores e batidas encorpadas, formando até uma aura gospel. Destaco o vídeo muito dançante e vibrante, também já disponível pelo Spotify. “Mas você pode ir para o inferno. Porque, querida, o céu não é o suficiente para você”.

6)- Tears for Fears – “Astronaut” (álbum Songs For A Nervous Planet, 2025)
Os veteranos britânicos retomam sua característica lucidez em melodia e arranjo orquestrado. O álbum lançado em out.2024, traz quatro faixas inéditas + 18 faixas ao vivo captadas em show no Tenesse, com clássicos que atravessam os tempos desta banda. Dentre o material novo, destaco a faixa “Astronaut”, que traz uma reflexão sobre o isolamento e a busca por conexão em um planeta saturado de ruídos. Um tema que além de ser muito atual, é tratado com a profundidade poética que sempre caracterizou a dupla. A faixa flutua entre o espaço e a introspecção, como um eco de esperança no meio do caos. Destaco o vídeo da música todo feito em inteligência artificial. “Quero ser um astronauta. Viajar na velocidade do pensamento”.
Cada uma dessas seis faixas parece ocupar um ponto distinto do mesmo mapa emocional: do soul poético e latino de Çantamarta ao hedonismo eletrônico de Róisin Murphy; do desabafo espirituoso de Cheat Codes & CeeLo Green à introspecção cósmica dos veteranos Tears for Fears. No meio desse percurso, Qvckslvr e Izo FitzRoy nos lembram da importância da leveza e da força interior: o sol que nasce e o recomeço que insiste.
Juntas, essas canções formam um roteiro de viagem entre alma, ritmo e reflexão, mostrando que a música continua sendo nosso idioma mais universal para traduzir o que sentimos.
Vida longa ao som bom (em bom som) e uma abundância musical para privilegiar nosso cotidiano – Leollo Lanzone





