
Explorar músicas é também explorar mundos. Cada faixa que escolho para essa coluna carrega em si uma história, uma geografia e uma vibração que atravessam tempo e espaço. É como abrir pequenas janelas sonoras que nos permitem ver mais longe do que nossos olhos alcançam. A música, afinal, é uma forma de cartografia afetiva: ela mapeia quem somos e quem podemos nos tornar.
Nesta edição de número 13, convido você a viajar por seis faixas que cruzam ritmos, idiomas e atmosferas distintas. Do jazz globalizado do Ezra Collective à nostalgia refinada do Swing Out Sister; da potência criativa da nova MPB de Melly à energia libertária do Mundo Livre S/A; do manifesto visual-musical do colombiano Systema Solar à travessia afro-lusófona de Quant. Clique aqui para ouvir a playlist que montei Explorando Sonoridades 13 (Spotify) e note que não é apenas música, mas um chamado para dançar, pensar e sentir; tudo ao mesmo tempo.

1)- Artista: Ezra Collective – álbum: Dance, No One´s Whatching (2024) – faixa God Gave Me Feet For Dancing (feat. Yazmin Lacey)
– Essa canção habitou meu crânio pela últimas semanas e até inspirou a coluna de semana passada. Mais que apenas uma música dançante, trata-se de uma oferenda aqueles que sentem o ritmo tomando as células do corpo e instigando balançarmos o corpo nesse compasso. Conheci o coletivo Ezra recentemente, mas com essa faixa caiu a ficha de como seus projetos são globalizados por parcerias que unem várias culturas numa mesma batida. Formam um grupo de artistas imigrantes que se juntam em Londres para expressar suas culturas mãe, agora miscigenando mais que raças eles nos mostram a potencia do que nasce plural em tradições e repleto de jazz, hip hop, afrobeat e música latina.

2)- Artista: Swing Out Sister – álbum: The Living Return (1994) – faixa destacada: Ordinary People
– Meu lado nostálgico veio me visitar recentemente e me abriu caminho para dar play nesse projeto que ouvi já há tempos, num CD de amigo meu. Na época tive uma audição despretensiosa e não lembrava do conteúdo. Agora, pelo streaming dediquei tempo para perceber o clima mais R&B que o duo britânico mergulhou. Um estilo mais solto que os projetos anteriores mais pop sofisticado, no álbum The Living Return sentimos um groove mais acentuado, arranjos mais acentuados e uma clara injeção de acid-jazz. A faixa que destaco “Ordinary People” vem numa levada dançante adornada por um leque de instrumentos de sopro completo, além de vocais gospel mostrando o calor da canção.

3)- Artista: Melly – single: Despacha (2025) – faixa destacada: Despacha
– Essa artista, para mim, representa um exemplo do que a Nova MPB tem graça, sensualidade e sagacidade para revigorar nossa paleta artística brasileira. Melly tem diálogo, tem estilo, tem força sonora e muito mais para nossa audição. Ela já apareceu outras vezes aqui nessa seção Explorando Sonoridades, mas sempre que possível vou destacar seus novos projetos, pois sempre me impressionam. Na faixa Despachada, lançada em 21.agosto, temos um sua maneira única de falar de amor e união de corpos. Num chega prá lá ela justifica uma relação que não precisava seguir, pois dali em diante poderia mesmo era virar paranoia – “Tem certas coisas que não dá pra controlar / Despacha / Tem amor que precisava acabar”.

4)- Artista: Mundo Livre S/A – álbum: Sessões Selo SESC #15 Mundo Livre S/A (2025) – faixa destacada: O Velho James Browse Já Dizia
– Temos aqui o momento de comemoração de 30 anos do álbum Samba Esquema Noise, que é o primeiro álbum de estúdio da banda. Gravado no dia 16.agosto.2024, no Sesc Ipiranga, estava eu na plateia para aplaudir de pé essa turma que considero aos montes. Revolucionários do seu tempo, extraordinários na construção de ritmos que integram uma assinatura pernambucana, com marchinhas, manguebeat, rock, hip hop e música eletrônica. O arquivo disponível pelo selo Sesc, traz o show na íntegra, o que quer dizer que temos as histórias compartilhadas ao vivo, das tantas aventuras que foi gravar um CD em 1994, com baixo orçamento mas com ricas contribuições que circulavam pelos estúdios da Bangela Music (selo criado pelo grupo Titãs). Destaco a faixa “O Velho James Browse Já Dizia”, não tem trinta anos, pois foi lançada em 2011 no projeto “Novas Lendas da Etnia Toshi Baba” que em minha opinião é um dos mais memoráveis da banda, pois traduz a modernidade com um humor ácido e pertinente. Na gravação ao vivo, ela tem um arranjo de marchinha de carnaval mais carregado que nos contaminou lá naquela noite ao vivo. Ao final da canção, Fred Zero Quatro traz uma fala de encerramento do show.

5)- Artista: Systema Solar – álbum: FuturX PrimitivX (2025) – faixa destacada: Futuro Primitivo
– A banda é um coletivo músico-visual colombiano, que veio até mim na trilha do seriado Pssica (Netflix), baseado no livro homônimo do escritor paraense Edyr Augusto. A trama se passa no cenário amazônico e aborda temas como tráfico humano, exploração sexual, violência e misticismo nessa região pouco explorada até então por produções para TV e cinema. Numa paleta de cores vibrantes, passeamos por costumes e tradições nessa região de fronteira com a Guiana Francesa. Num sotaque cheio de lirismo, os personagens contam uma história chocante e atual. A trilha sonora me ganhou pelas junções que nos formam latinos. Conheci a banda que trago nessa playlist com a faixa “Que Paso”, um tipo de cântico ancestral repaginado para algo futurista (uma linha criativa deste coletivo). Mas para a faixa destacada fui para o mais novo projeto deles, que tem o nome “Futuro Primitivo”, lançado esse ano. A beira de nossa COP 30, que abordará a força dos países amazônicos, trazem uma letra em tom de denúncia e nos chama para ação de combate aos males que causamos ao meio ambiente.

6)- Artista: QUANT – single: Mar (2025) – faixa destacada: Mar (feat. Constança Quinteiro)
– Quant é um goiano que está baseado em Portugal desde seus 17 anos. Lá criou seu espaço para construir uma sonoridade lusofonica linda, pois integra artistas de toda a paleta de cores que Portugal colonizou e hoje podemos celebrar nosso espaço de voz e ritmo. Ele traz projetos com o produtor Branko que já está no meu cotidiano, além de outros tantos artistas que Quant cria parcerias rítmicas lindas. Na faixa destacada aqui, trago a música “Mar”, que é um afro house onde temos a voz de Constança Quinteiro – nascida em Cascais, essa artista une as tonalidades quentes do soul, com as labaredas do R&B e a MPB brasileira; além de mostrar esse sotaque lusitano que me fascina e me leva a navegar esse mar criado por Quant.
No fundo, essa seleção é só um lembrete de que estamos sempre cercados por canções que dialogam com nossas vidas de formas inesperadas. Seja na lembrança de um CD antigo, numa estreia fresca de streaming ou num encontro ao vivo, cada faixa nos ensina algo sobre o presente que vivemos. Então, siga o fluxo, dê play na playlist e permita-se ser atravessado por esses sons, pois talvez eles contem algo sobre você que ainda não tinha sido dito.
Vida longa ao som bom (em bom som) que atravessa fronteiras.





