
Nasci em 1973, ano em que Raul Seixas lançava a mordaz e genial Ouro de Tolo. A canção me acompanha como uma sombra crítica e lúcida sobre o que é, afinal, “vencer na vida”. Agora, na porta dos 52 anos, minha atenção para essa letra chega com novos olhos e ouvidos mais maduros e atentos. O que antes me parecia uma reclamação de um artista inconformado, hoje soa como um manifesto antecipado contra os delírios da meritocracia e a indústria do bem-estar comprado a prestação.
No último domingo (29.junho) fui assistir “Raul Seixas, O Musical” com o talento de Bruce Gomvlesky, encerrando a temporada de três meses no Teatro do Hotel Jaraguá (local onde ele Raul morou por seis meses aqui em Sampa). Tivemos uma viagem dentro da mente de Raul, com texto 100% tirado de manuscritos e entrevistas do cantor Maluco Beleza. A interpretação como ator e como cantor de Gomvlesky é digna de aplausos de pé e gritos de “toca Rauul” bem emocionados. Num trecho da peça, Raul nos explica o cenário que vivia e que culminou na criação da música “Ouro de Tolo”, que segundo ele “saiu rápida e ácida como um vômito”, pois escrevia por raiva.
Outras tantas músicas são indicadas pela peça. Uma excelente ponte entre o que pensava o ator, escritor e cantor Raul Seixas e todo o repertório de carreira separado por fases da vida dele e de todo cenário brasileiro. Fragmentos de informação que de tão bem alinhados pela direção da peça, fixam nossa atenção e emoção na peculiar atuação de Gomvlesky. A peça agora segue para turnê pelo Brasil e merece o carinho do público em perceber como essa história é muito bem contada ali ao vivo, no palco, offline.

Raul cantava: “Eu devia estar contente porque eu tenho um emprego / sou o dito cidadão respeitável…” e apontava para a contradição de um sistema que promete plenitude em troca de conformidade, status e consumo. Passadas cinco décadas, talvez estejamos ainda mais enjaulados nessa lógica. Trocamos o Corcel 73 (um arrojo prá época), por carros elétricos financiados em muitas vezes. Trocamos Ipanema de vista para o mar, pela cobertura com vista para a ansiedade. O “sucesso como artista”, pela exposição frenética nas redes sociais, onde até nossa dor pode ser monetizada.
Caminhar por 52 anos nesse mundo nos ensina sobre aquilo que não nos ensinaram a valorizar: o tempo vivido sem pressa, o direito ao silêncio, o reencontro com os próprios limites. A vida que a canção ironiza recheada de conquistas externas, mas vazia por dentro é um retrato atual. Só que hoje, além de sorrir nas fotos, enquanto lidamos com a solidão digital, a crise ambiental, o colapso das relações e um cansaço que parece estrutural.

O escritor francês Frédéric Martel propõe que estamos vivendo uma Revolução Civilizacional. Algo profundo, mais que econômico ou tecnológico, já que se trata de um abalo nas formas como nos relacionamos, produzimos, sentimos e pertencemos. Isso exige de nós como indivíduos e como coletivo: um resgate do valor do convívio. Exige nossa capacidade para renovar pensamentos, repensar modelos e reiniciar ciclos. Talvez Raul, com toda sua rebeldia e intuição, já estivesse cantando esse abalo muito antes de ele ser nomeado.
O “ouro de tolo” citado na letra, é a ilusão de que basta “ter conseguido tudo o que quis” para, então, estar satisfeito. Mas quem disse que tudo o que queremos nos faz bem? Aos 52, aprendi que vale mais uma boa conversa no fim da tarde do que a agenda cheia; que um dia de silêncio pode ser mais restaurador que uma semana de vitórias; que viver é, antes de tudo, um exercício de desapego da imagem, das metas alheias, da pressão por ser algo que não se é (mas que disseram que você precisa ser). Isso cansa e desmotiva sonhos autorais.

Raul não queria só gritar sua insatisfação, nos convocava a acordar. E talvez agora, nesta revolução silenciosa que se desenha por dentro de cada um, tenhamos mais preparo para escutar. Porque viver nunca foi um troféu no final da jornada, é um processo que merece ser apreciado e degustado dia a dia. E se for pra buscar algum ouro, que ele seja humano, sensível e real, mesmo que não brilhe tanto quanto a felicidade programada.
Eu devia estar contente… Mas prefiro estar consciente.
Vida longa ao som bom (em um bom som).






