
Eu já conheci um dos lugares mais encantadores de uma viagem porque me perdi. Literalmente.
Estava viajando com um grupo quando, em determinado momento, acabei me separando das outras pessoas. Quando percebi, estava do outro lado da cidade e, para completar, havia entrado em uma rua sem saída. Definitivamente, aquilo não fazia parte do roteiro.
Precisava encontrar o caminho de volta, claro. Mas, enquanto tentava me localizar, comecei a fazer uma coisa que gosto muito quando viajo: observar tudo a minha volta.
As casas, as ruas, o movimento, as pessoas, os pequenos estabelecimentos. Aquela parte da cidade que provavelmente eu não conheceria se tivesse continuado seguindo exatamente o percurso previsto e foi assim que encontrei um pequeno café familiar.
Era um lugar bonito, acolhedor, daqueles que chamam nossa atenção sem precisar de uma grande fachada ou de uma placa anunciando que ali existe alguma coisa “imperdível”. Entrei e adorei.
Não estava no roteiro. Eu não havia pesquisado antes. Ninguém havia me recomendado. Não aparecia na minha lista de lugares para conhecer. E provavelmente eu jamais teria chegado até ali se tudo tivesse acontecido exatamente como planejado.
Curiosamente, é uma das lembranças daquela viagem que ficaram comigo e talvez porque viajar também seja isso.
Estamos acostumados a planejar praticamente todos os detalhes antes mesmo de sair de casa. Pesquisamos onde ficar, onde comer, o que visitar, quanto tempo permanecer em cada lugar. Vemos avaliações, vídeos, fotografias, mapas e comentários de quem esteve lá antes.
Podemos até percorrer virtualmente uma rua que ainda nem conhecemos e tudo isso é extremamente útil.
Um bom planejamento permite aproveitar melhor o tempo, evita muitos problemas e, dependendo da viagem, é indispensável.
Eu mesma trabalho com turismo e planejamento. Desenvolvo roteiros, penso em tempos, deslocamentos, experiências, operação e em tudo aquilo que precisa funcionar para que alguém possa aproveitar bem algumas horas ou alguns dias em um destino.
Por isso, seria contraditório defender que viajar bem significa simplesmente sair andando sem planejamento algum.
Não significa.
Mas existe uma diferença importante entre planejar uma viagem e tentar controlar uma viagem.
Talvez estejamos deixando tão pouco espaço para o inesperado que, às vezes, chegamos a um destino apenas para cumprir aquilo que já havíamos decidido que deveríamos fazer.
Vamos ao lugar da fotografia.
Depois ao restaurante recomendado.
Em seguida ao monumento mais famoso.
Marcamos mais um item da lista e seguimos para o próximo.
E podemos voltar para casa tendo conhecido todos os pontos previstos, mas muito pouco da vida que existe entre eles. Porque cidades não são feitas apenas de atrativos turísticos.
Elas acontecem nas ruas laterais, nos pequenos comércios, nas conversas, nos mercados, nas padarias, nas praças, nos bairros e na rotina das pessoas que vivem ali.
Às vezes, basta diminuir um pouco o passo para perceber.
Vejam bem: não estou sugerindo que todos devam se perder em uma cidade desconhecida. No meu caso, funcionou, mas certamente não é uma técnica de viagem que eu recomendaria. Estou falando de deixar algum espaço.
Espaço para aceitar uma indicação de alguém que mora no lugar.
Para entrar naquela pequena loja que chamou nossa atenção.
Para experimentar algo que não estava previsto.
Para sentar-se em um café sem conferir antes quantas estrelas ele tem.
Para mudar o caminho.
Para simplesmente caminhar um pouco sem a obrigação de chegar rapidamente ao próximo ponto turístico.
Talvez seja justamente nesses intervalos que uma viagem comece a se transformar em experiência.
E existe outra coisa curiosa: quando voltamos, nem sempre são os grandes monumentos que aparecem primeiro nas nossas histórias.
Às vezes contamos sobre a pessoa que conhecemos, dobre aquela comida que experimentamos. Uma conversa inesperada, sobre alguma coisa engraçada que deu errado. Ou sobre um pequeno café que encontramos porque entramos na rua errada.
Os lugares famosos continuam importantes. São parte da história, da cultura e da identidade dos destinos. Muitos merecem, sim, estar nos nossos roteiros.
Mas uma viagem não precisa acontecer apenas dentro deles.
Talvez um bom roteiro também precise deixar algumas pequenas páginas em branco. Aliás esse é meu roteiro preferido nas minhas viagens: deixar espaços e horários livres porque sou curiosa, gosto de observar e descobrir os pequenos cantinhos dos lugares e tantas outras coisas que depois gosto de lembrar e escrever claro.
Entre essas coisas sempre tem: aquilo que não pesquisamos, que ninguém recomendou, o encontro que não marcamos e principalmente para a história que ainda não sabemos que vamos contar quando voltarmos.
Continuarei planejando minhas viagens e os roteiros que desenvolvo profissionalmente.
Mas espero nunca planejá-las tanto a ponto de não haver mais espaço para uma descoberta.
Porque algumas coisas podemos programar.
Outras, felizmente, não.
E, de vez em quando, uma rua sem saída pode nos levar exatamente aonde não sabíamos que queríamos chegar.
Um excelente final de semana a todos!
Grande abraço 😊





